Debate

Capa de HQ premiada é retirada de exposição em Belém; artista acredita em censura

por: Kauê Vieira

A arte sempre foi considerada um espaço de liberdade de expressão. Parte fundamental da história humana, artistas retratam e protestaram e protestam diante de momentos marcantes, como a ditadura militar, o período da escravidão ou o nazismo.

Mesmo sendo um espaço de criação, as artes estão sendo alvo de uma série de medidas polêmicas e com um cheiro forte de censura. Diante da pressão de grupos mais conservadores nas redes sociais, exposições como a Queermuseu, sofreram com ataques que resultaram em seu encerramento precoce.

Em Belém, no Pará, a história se repete e o premiado quadrinista Gidalti Moura Jr. teve uma obra exposta no Parque Shopping Belém coberta com um pano preto. Vencedora do Prêmio Jabuti de 2017 na categoria Melhor História em Quadrinhos, a ilustração chamada Castanha do Pará mostra um jovem fugindo de um policial.

O premiado HQ pretende debater a violência policial no Brasil

Castanha, é um jovem que vive na rua e se vira para garantir a sobrevivência. Andando pelas barracas no mercado Ver-o-Peso, em Belém, o menino bate carteiras e rouba frutas para comer. Retrato da realidade da desigualdade e também da violência que permeia o cotidiano das cidades brasileiras, o trabalho recebeu críticas pela internet.

De acordo com o UOL a publicação de um PM ofendido com o desenho viralizou em grupos de redes sociais, entre eles a página Guerreiros do Pará, que divulga fotos e informações de crimes ocorridos no Estado.

“A capa nada mais é do que o exemplo de um policial exercendo sua função. Não se trata de dizer que o policial é truculento, nada disso. É só um policial correndo atrás de um marginal, que é o personagem. Embora ele seja menor de idade, não tomo nenhum partido. É simplesmente uma ficção. Você vai ler, se divertir, opinar, mas censurar jamais”, declarou ao UOL Gidalti Moura Jr., um dos nomes mais importantes dos HQs brasileiros.

Depois de pressão social na internet a obra foi censurada em um shopping de Belém

Como foi apontado acima, 2017 ficou marcado como o ano em que a censura voltou a ameaçar a expressão artística no Brasil. Ataques, proibições e até um pedido para que um artista fosse depor no Senado Federal, estes são alguns elementos da cena atual do país que em 2018 registrou os 54 anos do Golpe Militar de 1964.

A pedagoga, escritora e educadora sexual Carolina Arcari disse ao Globo que o momento pode servir para disseminar conteúdo sobre os efeitos negativos da censura, além de aproximar espectador e artista.

“As discussões trouxeram à tona informações importantes sobre os perigos da censura e do avanço do conservadorismo. Mas também reflexões inéditas, como a urgência de aproximar a arte de um público com menos acesso, conhecimento e reflexão sobre as expressões artísticas”, finaliza.  

Até agora nenhum representante do Parque Shopping Belém foi procurado para falar sobre o assunto.

 

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Fotos: Reprodução/Facebook


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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