Matéria Especial Hypeness

Conheça a Katuka, loja de Salvador onde empoderamento negro, literatura e moda se unem

por: Kauê Vieira

Renato Carneiro é designer e artista plástico nascido e criado no bairro da Barra Funda, região central da cidade de São Paulo. Mas, ao contrário do que se diz, o bairro não foi apenas habitado por imigrantes italianos, pelo contrário. A Barra Funda durante muito tempo foi refúgio de nordestinos vindos para a maior cidade do país em busca de trabalho e condições melhores de vida.

Em função deste fenômeno, Renato, que morava com os pais e a avó em um casarão na região de Campos Elíseos, teve contato direto com homens, mulheres e crianças vindas dos mais diferentes pontos da região Nordeste.

“Eu cresci experimentando comida, experimentado sotaques e histórias. Antes de minha avó mudar pra essa casa de fundo, lá morava uma família de negros baianos que todo o ano ia para Salvador, que não é uma coisa tão simples como hoje, pois a viagem demorava três dias. Quando eles voltavam traziam doces e comida pra mim. Eu gostava muito deles, achava todos muito bonitos. Achava uma família muito bonita. Aí fui crescendo muito envolto com essa diferença, no caso dos nordestinos,” conta com alegria em entrevista ao Hypeness.

Aqui é uma esquina, um entroncamento, pra nós que temos relação com as religiões de matrizes africanas

O tempo passou e a relação com o Nordeste se intensificou e há cerca de 10 anos Renato Carneiro mudou definitivamente de São Paulo para Salvador. Na capital baiana se tornou um empreendedor de sucesso e uniu duas paixões, o design — sua formação universitária, com a literatura e a moda para fundar ao lado do sócio Carlos Danon a Katuka Africanidades.

Localizada no número 1 da Rua Chile, que deságua na Praça da Sé, no simbólico Pelourinho, o espaço é referência na difusão da cultura e das expressões artísticas negras em Salvador. Durante todo este tempo a Katuka se tornou uma espécie de dinamizadora da comunicação, isso por abrigar debates, conversas e atividades com intelectuais negros da Bahia, de África e do Brasil. Além disso em uma cidade como Salvador, estar fincada em uma encruzilhada abriga inúmeros significados.

“Você sabe que isso foi algo que a gente descobriu depois de ter vindo pra cá. A Katuka, a ideia da marca e do negócio como ele funciona começou aqui nesta mesma rua, mas no Edifício Themes, que também é um edifício histórico para a cidade de Salvador, pois o centro comercial de Salvador nas décadas de 1920, 30 e 40 era nessa área. Quatro anos depois nós viemos pra cá e depois de um tempo descobrimos que este é o número 1 da rua. Ou melhor, a gente sempre soube que esse era o número 1, mas a gente nunca tinha feito a relação. Se esse edifício é o número 1 da Praça da Sé, significa que no Senso esse é o primeiro endereço. Então de alguma maneira daqui que pode ser possível emanar mil coisas pra cidade.

Aqui é uma esquina, um entroncamento, e pra nós que temos relação com as religiões de matrizes africanas o cruzamento de linhas tem um significado muito forte. Nós estamos numa esquina, número 1, aí a relação com o orixá Exu. O dinamismo, a comunicação, a força que permite mudança, que permite alteração. Então, ligar isso ao trabalho que a gente faz tem muito sentido, porque o que a gente tá se propondo a fazer aqui com a Katuka, mais do que qualquer outra coisa, é dinamizar mesmo o pensamento e fazer com que nós da comunidade negra e também os não negros passem a refletir mais sobre a questão racial. A gente não se limita só a questão racial, também a questão de gênero, questão da diversidade. São coisas dessa forma,” salienta.

Bem ali, próxima ao Pelourinho está a Katuka

Geralmente os encontros na Katuka acontecem às sextas-feiras, no terceiro piso do edifício, em uma sala decorada com capulanas coloridas, móveis de madeira e elementos da cultura africana e afro-brasileira. A tão falada vista para a Baía de Todos os Santos e para a Praça da Sé dão um toque todo especial aos eventos. E tem mais, durante os debates o público é mimado com quitutes baianos, como acarajés e bolinhos de estudante (massa de tapioca com coco). Nada mal, não é? É interessante ressaltar a importância deste cuidado e zêlo para se discutir cultura negra, já que em um país racista como o Brasil ficou comum enxergar o negro e suas pautas como subalternas. Para Renato, este cuidado ganhou a confiança dos baianos, especialmente dos soteropolitanos.

“É interessante. Isso foi feito de uma maneira que surpreende muito a mim e a Carlos Danon, que é meu sócio. A gente fez a reforma desse terceiro andar e a ideia a princípio era ter um café literário. Mas que bom seria se a gente pudesse aproximar parte dos autores que temos acesso com os seus leitores. Então criamos encontros, bate-papo e pequenos lançamentos. A princípio a gente começou a convidar as pessoas para que elas estivessem aqui, por exemplo, tivemos aqui o professor Carlos Moore, Ana Rita Santiago, Denize Ribeiro, Vilma Reis e Osmundo Pinho. Acho que a trajetória da Katuka (e eu sou suspeito pra dizer) é algo que admiro, porque nós fomos apresentando o trabalho e um perfil de conduta na cidade que ganhou a confiança das pessoas. As pessoas podem por exemplo não ter uma relação pessoal comigo ou com Carlos, discordar de alguma coisa, mas as pessoas respeitam o nosso trabalho,” conta o artista plástico e designer Renato Carneiro.

A Katuka é procurada por jovens e adultos negros que possuem interesse em saber mais de sua história

Referência não só na Bahia, mas no Brasil como um todo, a Katuka é procurada por jovens e adultos negros de dentro ou de fora das universidades, mas que em comum possuem o interesse em saber mais de sua história e também de adquirir e trocar conhecimentos que ultrapassem a análise rasa que insiste em colocar os sujeitos negros como passivos. O negócio capitaneado por Renato é um exemplo de empreendedorismo de sucesso em um país onde as dificuldades para a população afrodescendente gerir seu negócio são tão grandes.

“Eu acho importante que nós empreendedores negros sempre tenhamos o compromisso político, pelo menos que nós entendamos melhor as questões e como elas se dão. A necessidade da circulação do dinheiro dentro da própria comunidade é importante, a necessidade de empregar os nossos e também que nós nos abramos para uma diversidade maior, porque eu não posso ter uma empresa negra que pretende isso tudo que eu disse se dentro da minha empresa não trabalham mulheres e homossexuais, por exemplo. Então eu acho que temos que pensar de forma ampla e mudar o perfil das relações“, comenta.

Na última década e meia a população negra do Brasil acompanhou reivindicações históricas de figuras do movimento negro serem finalmente implementadas pelas instituições públicas. Um dos exemplos foi o aumento do acesso de homens e mulheres negras às universidades públicas, resultado da oficialização das cotas raciais como lei. Além disso, outro ponto que ganhou bastante repercussão foi o crescimento de empreendedores negros, que de acordo com pesquisas entre os anos de 2002 e 2012 atingiu os 27%, ultrapassando o número de brancos no comando de empresas.

Se pegarmos os números de um levantamento feito pelo Sebrae, que se baseou nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), 50% dos donos de negócio são afrodescendentes e 49% são brancos. A mesma pesquisa dá conta de que os negros estão concentrados no comércio e serviços, ao passo que os brancos empreendem em atividades mais especializadas, como advocacia, medicina e engenharia, comprovando que o capital circula e é gerido por uma parcela menor da população.

A verdade é que o empreendedorismo sempre fez parte da população afrodescendente do Brasil, mas de uma forma subalterna ou em espaços delimitados. A Bahia em nome da cidade de Salvador é um dos principais expoentes deste fato. Ganhadeiras e baianas do acarajé, mulheres negras que desde o período da escravidão até os dias sustentam famílias e alcançam a independência financeira comercializando seus quitutes pelas ruas, são exemplos perfeitos de empreendedorismo.

A Katuka Africanidades une debate com moda para falar da cultura negra

Para Renato Carneiro, diretor-geral da Katuka Africanidades, o cerceamento do crescimento se dá pelo racismo que coloca diversos obstáculos no caminho percorrido pelo homem ou pela mulher negra que deseja empreender.

“Temos um afastamento pela estrutura toda do racismo que te coloca distante das possibilidades de créditos, das formas e até você entender que pode também, é um processo demorado. Não é tão simples, pelo menos pra minha geração. Eu tenho 46 anos. Uma das maiores dificuldades que nós (Katuka) tivemos nas lojas foi estabelecer relações de crédito, vou chamar assim. Seja com os bancos, seja com os fornecedores, a relação se dá sempre a partir da desconfiança, de que você não vai cumprir prazos, sabe? É muito louco isso! Sempre ocorreu comigo e até hoje ainda ocorre. Eu acho que esse é um grande impedimento e muitas pessoas desistem nesse momento. Você tem que pedir um financiamento no banco e a gente vai ser sempre olhado como ‘quem é você?’ e vão pedir o dobro de documentos”, enfatiza.

Um paulistano negro em Salvador

Com cerca de 3 milhões de habitantes, Salvador, ao lado de Brasília, é a terceira maior cidade brasileira, atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Cidade atlântica, foi durante o período da escravidão o principal porto receptor de africanos escravizados pela colonização portuguesa, fato que resultou em um grande número de negros compondo a população da cidade. Para se ter ideia, de acordo com dados IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Salvador é composta por 90% de homens, crianças e mulheres negras, proporção que não se reflete nas condições de vida desta parcela na capital baiana.

Ao andar pelas avenidas e ladeiras soteropolitanas logo se percebe como o racismo e a exclusão do negro de espaços de poder opera. Em Salvador os brancos estão concentrados nas áreas mais nobres da cidade, como a Barra e o Corredor da Vitória, já os negros têm o subúrbio e os morros como lugar. Além disso, as áreas mais favorecidas da capital, como a Ladeira da Barra, não recebem os ônibus coletivos vindo de bairros de periferia como Uruguai e Tancredo Neves, lá passam apenas os que fazem a linha entre o centro e o aeroporto. Para Renato Carneiro diferente de São Paulo, que conseguiu afastar as periferias do centro e trata o racismo de forma velada, Salvador deixa os problemas sociais e raciais evidentes.

A loja no centro de Salvador reafirma a identidade negra soteropolitana

“O racismo aqui tem a cara de: sou branco, sou melhor. Não gosto de preto. Preto está subalterno. É uma herança escravocrata fortíssima. As pessoas se relacionam com a gente como se elas ainda fossem senhores e nós escravos. Nas coisas mais cotidianas, na hora de pegar um táxi, na fila do banco. Isso se dá a todo o momento. Existe uma tensão que se apresenta de maneira muito mais forte e aí isso faz com que nós negros também nos juntemos mais”, reflete.

Renato explica que o racismo e o efeito da classe média baiana nos rumos da cidade afeta, inclusive, a rotina de bairros com enorme representatividade histórica, caso do Pelourinho, tombado como Patrimônio Imaterial da Humanidade por sua arquitetura e representatividade para a construção histórica do Brasil. De acordo com o estilista, que por muito tempo viveu e mantém uma relação de afeto com o bairro, o poder público transformou o Pelô em um espaço predominantemente turístico, expulsando seus moradores e não oferecendo alternativas para os jovens dependentes químicos que vagam pelas alamedas da região.

“Houveram as reformas e criou-se esse Pelourinho para ao turista ver. Eu acho que o grande problema hoje do Pelourinho de segurança, de conservação se relaciona com isso. Se você tira as pessoas que originalmente moravam no local, o bairro morre. Ele está morto. Você pode pintar as casas, fazer tudo isso, mas se as pessoas que moravam são obrigadas a sair. O bairro tá morto. Durante um período a classe média branca toda vinha para o Pelourinho porque havia uma grande propaganda, muitas vezes internacional do Pelourinho. Mas eles cansaram dessa história, já estão em outras praças por aí e as pessoas que moravam aqui foram retiradas para atender essa questão turística e hoje não existe a conservação que o Pelourinho devia ter”, afirma.

“Eu acho importante que nós empreendedores negros sempre tenhamos o compromisso político”

Há 10 anos vivendo em Salvador, o paulistano Renato Carneiro oferece por meio da Katuka Africanidades um espaço de aquilombamento para a comunidade negra.

“Salvador é para nós negros o que meca é para os muçulmanos. Não interessa de que canto do mundo você veio, sendo negro você tem que pelo menos uma vez na vida vir para Salvador e experimentar isso daqui. É muito específico o que acontece em Salvador.”

Que a Katuka prolifere e renda ainda mais frutos para os quatro cantos do país. Não há mais espaço para que a cultura, as expressões artísticas e intelectualidade negra tenham suas atuações limitadas. É preciso que o debate tenha seu nível elevado e que a produção cultural afro-brasileira seja vista de forma contemporânea, mas sem virar as costas para o passado.

Se estiver em Salvador dê uma passadinha na Katuka: Praça da Sé, nº 1 — Centro Histórico

Para saber mais, visite o Facebook a página da Katuka Africanidades.

O negócio capitaneado por Renato é um exemplo de empreendedorismo de sucesso

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Fotos: foto 1: Reprodução/Diário da Região/foto 2: Fafá M.Araújo/Reprodução Facebook Oficial/foto 3: Facebook Oficial/foto 4: Reprodução/Facebook Oficial/foto 5: Reprodução/Facebook Oficial/foto 6: Reprodução/Facebook Oficial/foto 7: Reprodução/Facebook Oficial


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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