Matéria Especial Hypeness

Falamos com a atriz que viveu Fabi Grossi, robô criado para combater o pornô de vingança

por: Kauê Vieira

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Um celular na mão pode causar uma grande revolução. Duvida? Não deveria, pois nos últimos tempos novos canais de comunicação estão contribuindo e muito para mudanças de paradoxos e o aprofundamento de pautas centrais para o desenvolvimento da sociedade. Um do exemplos é o crescimento de movimentos para combater a violência contra a mulher.

Atualmente o Brasil é 5º colocado em casos de assassinatos de mulheres no mundo todo. Um levantamento feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que para cada 100 mil mulheres, 4,8 são mortas. De acordo com o Mapa da Violência, entre 1980 e 2013, 106 mil pessoas morreram apenas pela condição de ser mulher.

Tem mais, tratando-se de um país racista e com histórico escravocrata, as mulheres negras são as maiores vítimas deste cenário de violência. Entre 2003 e 2013, elas responderam por um aumento de 54% nos registros de assassinatos.

Entrevistamos a responsável por dar vida à Fabi Grossi, “as histórias precisam ser ouvidas. Chega de assédio”

Já deu para perceber que os crimes acima foram praticados por uma condição de gênero, certo? Pois bem, o nome disso é feminicídio, uma palavra que provavelmente você já deve ter ouvido falar, mas que graças ao trabalho de feministas Brasil adentro está ganhando cada vez mais força.

Este fortalecimento do debate sobre a importância de adquirir conhecimento para poder lutar contra o feminicídio está proliferando principalmente pelas novas mídias. Foi justamente por um destes meios, o Facebook, que surgiu o Projeto Caretas, iniciativa da Unicef, que utilizou da rede social para falar sobre um tema muito importante, o pornô de vingança.

Cada vez mais corriqueiro, a pornografia de vingança é uma prática que atinge sobretudo mulheres. Elas são responsáveis por 81% dos atendimento realizados pela ONG SaferNet, referência no combate à violação de direitos humanos. Na maioria das situações são vítimas de seus ex-companheiros que para se vingarem de alguma coisa – geralmente o fim do relacionamento, acabam espalhando na internet fotos íntimas, servindo como forma de ameaça ou chantagem.

Foi com esta percepção que o Projeto Caretas criou a Fabi Grossi, o boot (perfil robô) de uma menina de 21 anos que vive a angústia de ter tido sua intimidade exposta nas redes. Com um desespero angustiante, ela convida o usuário a ajudá-la a solucionar o problema.

“Meu nome é Fabi. Tenho 21 anos. Cara… é meio estranho. Nem sei por onde começar. Tá foda. Mas se eu não falar vou explodir”, diz o trecho inicial da mensagem.

Uma, duas, três, quatro, uma infinidade de mensagens são escritas por ela. A inquietude dá a ideia do tamanho da pressão sofrida por uma garota que se encontra acuada com medo de ficar marcada para sempre.

“Eu não tinha ideia da dimensão que chegaria a Fabi Grossi. Quando lançaram o Projeto Caretas, fui avisada e foi uma enxurrada de mensagens. Recebi muitos depoimentos de pessoas (jovens e adultos) que estavam participando e realmente se envolvendo com a história”, conta em entrevista ao Hypeness a atriz Kathia Calil, que deu vida à Fabi Grossi.

Para Kathia Calil ter interpretado Fabi Grossi foi uma grande experiência

Bastante próxima da realidade, a experiência se desenrola por meio do aplicativo Messenger e o final depende da interação do usuário. Ou seja, se a pessoa não considerar o pornô de vingança um problema, a conversa acaba com o suicídio da jovem. Mas, caso o caminho seja outro, os conselhos e orientações podem fazer com que a vítima encontre apoio nos pais, procure as autoridades e não se deixe abalar.

Segundo Kathia, que acaba de finalizar ao lado dos atores José de Abreu e Danton Melo as gravações do filme Antes Que Eu Me Esqueça, a experiência vivida como Fabi Grossi tocou muitas pessoas, angustiadas em salvar a jovem.

“As pessoas ficaram emocionadas, querendo conversar comigo, entender quem eu era, ou desabafar sobre as situações que passaram, ou só para dividir que conseguiram salvar a Fabi, que estavam muito satisfeitas de terem conversado com ela. E como através da conversa puderam perceber e entender o que sente alguém passando por um processo de depressivo, de sofrimento e vontade de se matar”, finaliza.

Em meio ao debate sobre os malefícios e benefícios da pluralidade de meios de comunicação, uma coisa é fato, o avanço tecnológico proporciona uma série de opções que aumentam o alcance da informação. No caso do Projeto Caretas, a escolha de um método tão difundido como o Facebook contribuiu para chamar a atenção de todos, especialmente dos homens.

Mais de 80% das vítimas do pornô de vingança são mulheres

“São ferramentas que chegam muito rápido nas pessoas. Recebi mensagens de muitos homens também, isso foi muito interessante. Eles puderam se colocar nessa posição de ouvir como tudo isso afeta uma mulher. É uma oportunidade de abrir o diálogo entre os jovens, que são os mais atingidos, e é tudo muito novo para nossa geração e as mais novas. A internet é algo recente, eu cresci sem computador, celular, muito menos Whatsapp. Sem essa facilidade de comunicação e de produção de fotos e vídeos. Penso que todos nós estamos aprendendo a lidar com os prós e os contras da tecnologia”, opina Kathia Calil.

Responsável pela gravação dos áudios e o rosto das fotos, entre elas uma imagem de um espelho estilhaçado, talvez um do momentos mais dramáticos da experiência, Kathia diz que o processo de preparação foi uma verdadeira imersão, resultando em um aumento expressivo de seu conhecimento sobre o tema.

“Foi um processo intenso de imaginação, empatia e entrega. Eu nunca passei por uma experiência dessa e com a oportunidade de viver esse universo, li e vi depoimentos de garotas que tinham passado por algo parecido, vi filmes que teriam uma temática mais adolescente e dentro desse universo do suicídio, da internet e do bullying. Além de muita conversa com toda equipe criativa do projeto para entender como eu poderia colaborar da melhor forma. Durante as filmagens, gravações de áudios, fotos, sempre mantivemos diálogo aberto para poder construir essa personagem com os conflitos claros, humana e com essa capacidade de gerar empatia”, revela.

Ambiciosa, a iniciativa passou pelo crivo de 7 mil adolescentes de todo o país, que durante os meses de junho e novembro de 2017 trocaram mais de 1 milhão de mensagens com Fabi. Por volta de 40% dos usuários chegaram ao final da história, que demora 48 horas para ser concluída.

“As sensações que me vieram são as que eu tentei transmitir no projeto, o desespero, a decepção, o medo, a vergonha, a raiva. Me coloquei no lugar mesmo e deixei que os sentimentos viessem e me mostrassem um caminho”.

Kathia diz ter recebido centenas de mensagens de pessoas que passaram pela mesma situação

Intenso e assustador de tão real, o trabalho do Projeto Caretas é mais uma peça de uma mudança paradoxal que está tomando forma no Brasil. Marcada pela erotização do corpo feminino, não há mais espaço na sociedade para propagandas ou programas que exerçam a objetificação da mulher. Feminismo é importante sim, assim como a interseccionalidade, ou seja, a análise a partir das diferenças vividas entre raças distintas.  

E não custa lembrar, pornografia de vingança é crime e pode ser enquadrada no Marco Civil da Internet, que por meio do artigo 21 determina “responsabilidade civil solidária”, trazendo agilidade ao processo de remoção dos conteúdos com acesso público liberado.

Além disso, os maiores de idade podem ser enquadrados no crime de difamação, previsto no artigo 139 do Código Penal. Já os que possuírem vínculo afetivo com a vítima vão ser julgados com base na Lei Maria da Penha.

Leia o texto publicado por Kathia Calil sobe a experiência:

“O dia em que virei robô

Há alguns meses fui convidada para viver uma nova experiência de trabalho, o desafio era dar vida à jovem Fabi Grossi. Fui consultada, aceitei, e aos poucos fui entendendo que aquilo se tratava de uma experiência transformadora. O projeto era suportado pela UNICEF Brasil e pelo Facebook, além de contar com uma equipe de criação muito competente.

No começo não tinha idéia do alcance e apelo que a campanha tomaria depois de lançada. Eu fiz minhas diárias como atriz no ano passado e fizemos vídeos, fotos e áudios. Me envolvi bastante com a história e foram dias muito reflexivos e produtivos de trabalho.

Entendia que estávamos tocando em assuntos delicados e importantes de serem debatidos, tanto com os jovens como com os pais. Principalmente neste momento do domínio das redes sociais nas relações e em nosso comportamento, e onde MUITAS vezes é usada de forma irresponsável e sem critérios.

O projeto, chama Projeto Caretas, em que a adolescente Fabi Grossi, que é um boot (perfil robô) criado para dialogar com jovens, passou por um trauma, teve seus vídeos íntimos expostos pelo namorado nas redes sociais como forma de vingança. Ela fica desesperada com a exposição, fragilizada, não sabe como agir.

O objetivo do projeto é dialogar com jovens que passaram e passam pelo mesmo trauma. Falar de exposição na internet, ‘revenge porn’, suicídio, relacionamento amoroso/abusivo, relacionamento com os pais e os amigos. É uma forma de alertar sobre possíveis conseqüências e responsabilidades nos nossos atos. Quando você participa do projeto, além de contar a história, ela conversa como se fosse tudo em tempo real, manda fotos, áudios e pede ajuda. Muitos se disponibilizam a ajudar a Fabi e claro, serem ajudadas.

Ultimamente tenho recebido muitas mensagens de pessoas que passaram pela experiência da Fabi e se apegaram, dizendo que fizeram de tudo para ajuda-lá, que foram ajudadas, coisas como – ‘você se tornou se tornou minha melhor amiga’, ‘que bom te encontrar’, ‘você me ajudou muito..’ São inúmeras e lindas as demonstrações de preocupação e afeto que recebo por ter dado vida à Fabi.

Hoje estou sentindo o tamanho da importância desse projeto. É preciso sim falar destes tabus, é preciso acabar com esse desrespeito e exposição violenta que estamos nos sujeitando e sendo sujeitados. As histórias precisam ser ouvidas. Chega de assédio.”

*Kathia Calil pode ser encontra no Instagram pelo link.

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Fotos: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.


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