Debate

O final feliz da educadora com Down alvo de preconceito de desembargadora

por: Redação Hypeness

Uma tragédia, o assassinato de Marielle Franco (PSOL-RJ) e do motorista Anderson, executados a tiros no centro do Rio de Janeiro, causou uma série de reações. Entre as diversas manifestações de solidariedade algumas pessoas resolveram optar pelo discurso de ódio para defender suas ideologias.

Sobrou pra todo mundo, inclusive para a primeira professora com Síndrome de Down do Brasil. Débora Seabra de Moura, de 36 anos, teve sua rotina interrompida após ser alvo de uma ofensa proferida nas redes sociais pela desembargadora Marília Castro Neves, do Rio de Janeiro.

“Aí me perguntei: o que será que essa professora ensina a quem? Esperem um momento que eu fui ali me matar e já volto, tá?”, escreveu a funcionária do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no Facebook.

A manifestação preconceituosa diante de um avanço substancial no processo e inclusão social causou indignação e forçou o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) a abrir cinco processos contra a desembargadora.

Aparentemente o pedido de desculpas da desembargadora foi enviado primeiro aos jornalistas

Diante do cenário, Marília Castro Neves recuou e se desculpou pelo ocorrido. Em uma longa carta, a desembargadora se disse arrependida e ainda citou uma carta que recebeu da própria Débora.

“Estou escrevendo para agradecer a carta que você me mandou e lhe dizer que suas palavras me fizeram refletir muito. Bem mais do que as centenas de ataques que recebi nas últimas semanas. Desculpe a demora na resposta, mas eu precisava desse tempo”.

Aparentemente um ato de grandeza, a história não é bem assim. Ao Universa Débora disse que foi informada por um familiar sobre a carta. Surpresa a professora respondeu dizendo que não havia recebido nenhum pedido de desculpas.

Na verdade o conteúdo foi divulgado à imprensa pela magistrada bem antes de chegar ao conhecimento de Débora. A informação foi confirmada pela colunista Mônica Bergamo e por um assessor de gabinete da desembargadora. “A divulgação que existe é essa”, respondeu.

Em todo o momento Débora demonstrou classe para lidar com a discriminação

Acumulando participações em eventos como a  Conferência do Dia Internacional da Síndrome de Down na ONU, Débora segue atuando como auxiliar. Aliás, ela trabalha no campo da educação há mais de 13 anos e atualmente é auxiliar em uma turma de 20 alunos do 4º ano. Para a docente sua missão é “ajudar a educar e a incluir todo mundo”.

A presença de Débora na ONU torna o preconceito de Marília ainda mais representativo

Confira a íntegra da carta:

“Prezada professora Débora,

Estou escrevendo para agradecer a carta que você me mandou e lhe dizer que suas palavras me fizeram refletir muito. Bem mais do que as centenas de ataques que recebi nas últimas semanas. Desculpe a demora na resposta, mas eu precisava desse tempo.

Tenho sofrido muito desde que fui atropelada pela divulgação de comentários meus, postados em grupos privados –restritos a colegas da magistratura. Mas alguém resolveu torná-los públicos. Alguns haviam sido postados há tanto tempo que eu nem me lembrava deles. A repercussão foi imensa.

Desde então, decidi me recolher. Chorei, fui abraçada e pensei muito.

E, de tudo que li e ouvi a meu próprio respeito, foi de você, de quem em um primeiro momento duvidei da capacidade de ensinar, que me veio a maior lição: a de que precisamos ser mais tolerantes e duvidar de pré-conceitos.

Minhas posições pessoais jamais interferiram nas minhas decisões, conhecidas por serem técnicas e, por isso mesmo, quase sempre acompanhadas unanimemente pelos meus colegas de turma julgadora.

Hoje, contudo, percebi que, mesmo quando meu corpo despe a toga, a mesma me acompanha aonde eu for. As opiniões pessoais de um magistrado, uma vez divulgadas, sempre terão peso, pouco importando ao tribunal das redes sociais que tenham elas sido ditas em caráter público ou privado e que opinião não seja sentença.

Magistrados também erram e, quando o fazem, incumbe-lhes desculparem-se. Esta carta é justamente isso: um pedido de perdão.

Perdão, Débora, por ter julgado, há três anos atrás, ao ouvir de relance, no rádio do carro, uma notícia na Voz do Brasil, que uma professora portadora de Síndrome de Down seria incapaz de ensinar. Você me provou o contrário.

Aproveito o ensejo para também me desculpar à memória da vereadora Marielle Franco por ter reproduzido, sem checar a veracidade, informações que circulavam na internet. No afã de rebater insinuações, também sem provas, na rede social de um colega aposentado, de que os autores seriam policiais militares ou soldados do Exército, perdi a oportunidade de permanecer calada. Nesses tempos de fake news’temos que ser cuidadosos. Estendo esta reflexão ao deputado Jean Wyllys. Sempre me oporei às suas ideias e às do PSOL, nada mudará isso, mas é evidente que não desejo mal a ninguém.

Obrigada, Débora, por ter me ensinado tanto.

Marilia de Castro Neves Vieira”

 




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Fotos: Reprodução


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