Matéria Especial Hypeness

‘Profunda dor’: Como o silêncio da Justiça sobre morte de Marielle é sentido na comunidade negra

por: João Vieira

No momento em que essa reportagem está sendo escrita, quarta-feira, 25 de abril, são completados 42 dias da execução de Marielle Franco e seu motorista, Anderson Pedro Mathias Gomes, que foram alvejados por tiros disparados do banco traseiro de um Cobalt prateado, por volta de 21h30 do dia 14 de março, no centro do Rio de Janeiro.

Nesse período, as investigações correram em sigilo e, até o momento, os oficiais responsáveis por ela não divulgaram qualquer indício de que estão no caminho para identificar os assassinos, pelo contrário. O carro utilizado pelas vítimas, um Agile branco, passará por uma nova perícia no Instituto Carlos Éboli, segundo informou a Delegacia de Homicídios da capital fluminense, nesta terça. Quem comanda a operação é a Polícia Civil do Rio de Janeiro, sob o comando do general Braga Netto, interventor federal.

Nem mesmo o deputado Alberto Fraga (DEM-DF), coronel reserva da polícia militar do Distrito Federal, que divulgou notícias falsas e caluniosas sobre Marielle logo após sua morte, associando-a ao tráfico de drogas e outras mentiras em suas redes sociais, foi punido. Um processo corre no Conselho de Ética da Câmara pedindo a cassação do mandato do parlamentar desde o começo de abril, e permanece parado.

O descaso com o chocante crime cometido contra a quinta vereadora mais votada nas Eleições de 2016 no Rio, é mais uma ferida a se abrir na comunidade negra brasileira. Lideranças de movimentos negros e organizações voltadas para o empoderamento e defesa dos afro-brasileiros, cobram um posicionamento das autoridades e pedem justiça pela memória da política brasileira.

Marielle Franco foi assassinada no dia 14 de março

“A política de segurança pública no Brasil é voltada para criminalizar a pobreza e enriquecer os senhores das armas. 98% dos assassinatos cometidos por agentes do Estado são arquivados sem resolução”

A afirmação é de Gal Souza, presidenta da organização negra SOWETO. Ela destaca, porém, que a comunidade está fazendo sua parte na cobrança de resultados. “O caso Marielle e Anderson pode ter um desfecho diferente por conta da proporção que tomou e os movimentos sociais estão nas ruas pedindo apuração independente. Vamos acompanhar e manter as ações de denúncia na rua”, garantiu ela, em entrevista ao Hypeness.

A noite de 14 de março foi violentamente triste para negros e negras em todo o Brasil. Milhares de pessoas foram às ruas nos dias posteriores prestar homenagens e se despedir de Marielle Franco e Anderson. Multidões se aglomeraram em grandes centros e, em um silêncio ensurdecedor, buscaram conforto nos braços de seus companheiros de luta.

Anderson, motorista de Marielle, e a esposa, Ágatha

“Soubemos da execução da Marielle e do Anderson lá em Salvador enquanto participávamos do Fórum Social Mundial”, lembrou Gal. “Nos juntamos às diversas organizações e coletivos que lá estavam e fomos para a rua protestar. O sentimento foi de profunda dor. Foi uma ação cruel, que interrompeu a vida de uma mulher fundamental na luta contra a militarização da vida e contra o genocídio da população negra e favelada”.

Multidão foi às ruas por Marielle

O jornalista Amauri Eugênio Jr., do site Alma Preta, lembrou como a notícia o atingiu naquela noite. “Recebi a notícia com espanto. Primeiro, porque o caso em si já tinha características de execução assim que veio à tona e, pensando no Estado democrático de direito, é pavoroso pensar que vidas de figuras políticas estejam em risco de modo veemente e constante, independentemente do espectro político. Causa ainda mais espanto por pensarmos que era uma vereadora militante em prol dos direitos dos grupos dos quais fazia parte – mulheres, negros e LGBT. Isso faz pensar que, em âmbito simbólico, o atentado do qual ela e Anderson foram vítimas se trata de tentativa de silenciamento de tais grupos”, destacou ele.

Apesar de aparentemente estar longe de ser solucionado, o crime não possui o mesmo abandono quando utilizado como pauta política. Marielle Franco é constantemente citada em discursos de presidenciáveis e homenageada por eventos oficiais do governo federal.

O jornal O Globo ouviu Jair Bolsonaro (PSL-RJ), Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (PSDB) e Ciro Gomes (PDT), que lideram as pesquisas pré-eleitorais quando estas não consideram o ex-presidente Lula (PT), hoje detido na polícia federal em Curitiba, sobre o assassinato da vereadora. De todos, apenas Bolsonaro relativizou a importância do caso, dizendo que, do ponto de vista democrático, ele “não significa nada” e é só “mais um assassinato” na Cidade Maravilhosa.

De certo ponto de vista, o presidenciável tem razão. Marielle e Anderson se tornaram estatística na capital carioca, que registra números alarmantes de negros mortos. 9 em cada 10 vítimas de balas partidas da PMERJ são negros ou pardos, compondo o maior número de componentes do grupo étnico assassinados pela polícia local em 15 anos. Não é plausível acreditar, porém, que o político, denunciado pela PGR por racismo, estivesse demostrando preocupação com esses números.

A visão do deputado se equivoca quando lembramos que Marielle Franco foi a quinta vereadora mais votada do Rio pouco mais de 1 ano antes, se tornando uma possível potência do futuro cenário político brasileiro e comandando uma série de denúncias que tinham como alvo grupos milicianos e batalhões com altos índices de operações violentas em comunidades pela cidade.

Marielle representava o futuro da política brasileira

Essa representatividade política não aparece sempre na comunidade negra, o que faz com que a perda de Marielle seja ainda mais sentida. “Deveria acontecer uma reforma no sistema político com base popular, elaborada por movimentos sociais e partidos políticos de esquerda que entendem os impactos da colonização e escravidão no Brasil atual”, diz Gal Souza.

Amauri faz questão de lembrar que, apesar de ser maioria no Brasil, a população negra é representada por apenas 20% dos parlamentares de Brasília, algo que salta aos olhos e foge do que poderia ser considerado normal.

“Falar em cotas seria arbitrário dependendo da perspectiva a ser usada, mas como é possível a população ter representantes do mesmo grupo racial sendo que são induzidos a votar em nomes tradicionais? Para se ter uma ideia, segundo pesquisa do Painel BAP, 36% do eleitorado negro não conhece políticos negros. Ao que tudo indica, esse será um trabalho multidisciplinar: primeiro, de conscientizar a população negra de que políticos do mesmo grupo estarão mais sensíveis e propensos a defender as causas relativas a esse grupo. Segundo, descentralizar o buzz midiático e dar mais visibilidade a candidatos negros, o que, proporcionalmente, daria mais chances a candidatos com esse perfil. Terceiro, o TSE poderia estabelecer cotas para partidos aumentarem os quadros de personalidades políticas negras”, propôs.

Silêncio ensurdecedor 

Pouco se sabe sobre quem acertou quatro tiros do pescoço para cima em Marielle Franco, além de outros três em Anderson, naquele 14 de março. Os quatro ângulos de câmeras públicas apresentados até então adicionaram pouco ao andamento das investigações, que não conseguiram ainda sequer confirmar que o crime foi, de fato, cometido por milicianos.

O silêncio da Justiça é ensurdecedor e machuca. Os esforços para manter Marielle presente seguem, mas ausência do apoio popular massificado torna a missão cada vez mais tortuosa. Perguntado sobre o reflexo da demora na comunidade negra, Amauri ressalta que não se busca um punitivismo acelerado.

“Por outro lado, trata-se de uma figura política cuja vida foi ceifada. Além disso, apesar de não ser possível afirmar e pelo risco de ser uma ilação que beira a irresponsabilidade, isso abre precedente para a opinião pública achar que o poder público está sendo, no mínimo, omisso em relação à morte de uma vereadora cujas pautas eram voltadas a minorias e que ela incomodava pessoas poderosas”, destacou. “O caso estar sem avanços significativos há um mês e, pior, haver denúncias de que testemunhas foram ignoradas por agentes de segurança pública são aspectos que beiram o surreal de tão lamentáveis que são”.

A presidenta do SOWETO vai na mesma linha e ressalta que a segurança pública no Brasil tradicionalmente se volta contra o povo do qual Marielle Franco faz parte. “A política de segurança pública no Brasil é voltada para criminalizar a pobreza e enriquecer os senhores das armas. 98% dos assassinatos cometidos por agentes do Estado são arquivados sem resolução, o caso Marielle e Anderson pode ter um desfecho diferente por conta da proporção que tomou e os movimentos sociais estão nas ruas pedindo apuração independente. Vamos acompanhar e manter as ações de denúncia na rua”, ela diz.

Relação pessoal

A comunidade negra é sistematicamente violentada no Brasil. O negro é “líder” em todos os recortes feitos de estatísticas de violência ostentadas pelo país. Isso faz com que a população se aproxime cada vez mais das tragédias envolvendo seus semelhantes e o ciclo de cura das feridas dure para sempre.

O negro sofre com a morte de seus companheiros.

O crime cometido contra Marielle, uma moça negra com menos de 40 anos e tamanha relevância na vida pública, abalou as estruturas dos movimentos negros e fez surgir um momento que pede uma profunda reflexão sobre os rumos da luta a partir de agora.

Ainda assim, o ferimento, recente como é, segue impedindo a comunidade de refletir sobre tudo que ocorreu. “Não sei dimensionar [o que senti], sei dizer que vivenciamos um momento de profunda dor e retrocesso para a população negra e indígena desse país e que precisamos nos unir e lutar”, destaca Gal.

“O sentimento geral transita entre o pesar pela tragédia, perplexidade diante das circunstâncias, ainda mais sobre o que ela representava, e revolta por terem silenciado de maneira sumária uma liderança em ascensão do campo progressista”, afirma Amauri. “Ainda que o pesar seja – e continuará a ser – grande, o legado dela está presente. O spoiler dessa história é que o sentimento inerente à execução dela resultará no surgimento de novas Marielles. E isso, sinal do espírito de luta que também surgiu nesse episódio, é um traço de esperança para o que possa acontecer em médio prazo, ainda que dentro de contexto pavoroso se pensarmos nas próximas eleições”, completa.

 

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Fotos: foto 1: Twitter/Reprodução; foto 2: Divulgação; foto 3: Arquivo pessoal/Reprodução; foto 4: Mídia Ninja/Reprodução; foto 5: Divulgação; foto 6: Mídia Ninja/Reprodução


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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