Matéria Especial Hypeness

Burkas e pijama por uma semana: este fotógrafo só clica experiências

por: Vitor Paiva

A fotografia é uma extensão do olhar natural do próprio fotógrafo. Por isso, o caminho artístico até as próprias imagens acabam sendo naturalmente o resultado das experiências e vivências criadas e enfrentadas pelo próprio fotógrafo em sua vida – é assim que pensa e conduz sua carreira Richard Hodara, um dos mais interessantes fotógrafos brasileiros da atualidade: a fotografia é, para ele, como um espelho ao mesmo tempo refletindo sua vida e um espaço para tornar essa vida mais interessante e fora do usual.

“A fotografia não tem regra nem limite, e isso me motiva muito. É uma ferramenta que torna algo intangível, como seus pensamentos, em algo tangível”, ele diz. E desde que começou seus cliques, quando ainda era um jovem administrador de empresas que via a fotografia como um hobbie, o trabalho artístico se oferecia como uma porta aberta e um combustível para seu desejo de viver a vida naquilo que Richard considera sua potência máxima: a novidade e a experiência fora de sua zona de conforto. E o gesto que até hoje melhor funcionou para conseguir sair de sua bolha e enfrentar e criar o novo sempre foi viajando pelo mundo.

Acima e na foto anterior, o fotógrafo Richard Hodara

“Um dia, em uma dessas viagens antropológicas e espirituais, eu comecei a me questionar sobre tudo – se estava feliz no trabalho, se era isso que eu queria para minha vida. Foi aí que pude observar que o Richard que se formou em ADM, que ficava no escritório, não era eu – e o leque foi se abrindo”, diz, explicando como acabou vivendo em lugares como os EUA, Barcelona, Austrália, Índia e muito mais.

“Desde pequeno eu sempre quis sair da zona de conforto. Prefiro sempre algo novo do que a mesmice. Eu sou muito assim, não tenho padrão, e isso foi a experiência que trouxe de minhas viagens”, ele diz, lembrando que bancar a decisão de largar a ADM não foi fácil, mas foi a melhor escolha que podia fazer. “No começo foi bem difícil, fazia trabalho de graça, pra amigo, ganhando pouco, mas sempre em movimento”.

Quando entendeu que realmente largaria a administração de empresas e se tornaria fotógrafo full time, Richard rapidamente concluiu que o gesto de abrir mão da estabilidade em nome do movimento e do risco seria também a linha artística e estética que conduziria seu trabalho com fotografia dali pra frente. “Se eu tinha uma ideia, já no dia seguinte eu juntava modelo, com produção, maquiagem, e criava – e já lançava e todo mundo via. E marcas começaram a me chamar. E nunca parei”.

Trabalho de Hodara

E assim a fotografia se tornou ao mesmo tempo o veículo para esse movimento constante e uma espécie de meditação. “Na verdade a fotografia está em constante mudança, seu olhar está em constante mudança, aprendendo coisas, uma inspiração diferente. Isso é algo que nunca para. Eu hoje olho fotos minhas de 2, 3 anos atrás, e até acho legal, mas diante das outras experiências que vivi desde então eu penso que faria algo melhor hoje”, afirma. Foi dessa inquieta disposição que nasceu o trabalho artístico que mais lhe traria reconhecimento e que melhor definiria sua escolha estética e vivencial: o EUxperimento.

A premissa é simples e, ao mesmo tempo, bastante instigante: oferecer a uma pessoa um desafio que necessariamente tire, por um tempo, sua vida dos trilhos da normalidade e da segurança – como propor a alguém que só use roupas da cor rosa durante uma semana, que fique cego por um dia ou que viva em um carro por 7 dias. E, é claro, registrar isso em fotos incríveis. “O EUexperimento surgiu ainda quando eu estava trabalhando como administrador já há dez anos. Eu passei muitos anos fora, e reparei que na maioria dos lugares é possível ir, por exemplo, à padaria de pijama, de cuecas, de cabelo rosa, não importa – ninguém está aí pra você, pro seu estilo, sem julgamento”.

O EUxperimento com roupas cor de rosa

E a primeira “cobaia” de seus EUxperimentos foi naturalmente ele mesmo. “Eu voltei pra São Paulo e vi um pensamento um tanto conservador aqui. E comecei a fazer essa experiências.” Assim, foi o próprio Richard quem primeiro passou 10 dias usando rosa somente, ou 7 dias só comendo fruta, morando em um carro ou até mesmo atravessando uma semana sem usar água. A uma amiga ele ofereceu um dos mais intensos e interessante desafios: passar uma semana coberta dos pés à cabeça por uma burka, e indo para todos os lugares, como o banco ou a academia, vestindo a peça. Aos poucos o registro fotográfico e o próprio relato das histórias fez o trabalho começar a ganhar público, e o reconhecimento aconteceu naturalmente.

Um dia, a lógica se inverteu e, ao invés dele desafiar alguém, foi ele que acabou desafiado – pela TV aberta, através de um convite do programa Fantástico, para que criasse um desafio a ser realizado pelo jornalista Maurício Kubrusly para uma matéria.

“Ele ficou 7 dias de pijama, saiu na TV e aí o negócio bombou. Toda semana passou a ter voluntários para serem desafiados, e foi um movimento muito bom. É sair da zona de conforto. Acabou. Às vezes você está nessa zona de conforto, acha que está tudo bem, mas não está. É um novo olhar sobre a vida, que te faz crescer muito”.

E os desafios dos seus EUxperimentos, portanto, não mais pararam, indo a fronteiras até então inimagináveis. “Uma pessoa ficou cega por um dia, e precisou de um acompanhante, de uma bengala-guia. Outra andou descalça por São Paulo. Foram uns 200 experimentos até hoje. Teve uma que obrigou a não se olhar no espelho por uma semana – e a voluntária ia ser madrinha de um casamento. Até para se maquiar ela não conseguia se ver”, conta Richard.

Foi esse espírito irrefreável que o levou a aceitar um outro desafio que a vida lhe trouxe, e que Richard abraçou de bom grado como faz com as mais instigantes novidades que lhe aparecem: a direção de fotografia de uma peça artística criada por um coletivo de artistas para a Nike. Ao lado dos artistas plásticos Vick Garaventa e Hugo Frasa, do DJ Jose Hesse e da futoróloga e pesquisadora Lydia Caldana, Richard trabalhou na concepção do projeto que acabou intitulado RIAEKIN 270 – uma peça em vídeo, instalação e até conta no Instagram, criada para significar através da arte o espírito por trás do Nike Air Max 270, novo modelo da marca, que celebra 31 anos dessa linha de tênis.

“Criamos um ser mutante, evoluído, como uma nova espécie, um ser alienígena. Eu gostei muito de criar algo orgânico e real que é também surreal”, ele diz. “Todo mundo se comunicou muito bem. Foi impressionante, quando a gente teve a ideia todo mundo foi junto. Eu sempre gostei de coisas obscuras e sombrias no meu trabalho.


E o universo da Nike foi muito de encontro com isso”. Quando vai fazer um trabalho como esse para a Nike, ou qualquer outro que parta da Visionlights, sua produtora, o não convencional e um ponto de vista surpreendente são, portanto, seus pontos de partida.

Outro trabalho de Richard

“Fui fazer um trabalho fotográfico voluntário no coração da Amazônia, entre os povos ribeirinhos. Aproveitei a viagem e falei com uma amiga que tem uma marca de roupas muito sofisticada e futurista, e levei suas roupas. Procurei então uma aldeia indígena, falei com o Cacique, e fiz um desfile de moda com as índias nessa tribo”, conta Richard, a fim de explicar a profundidade que seu trabalho costuma oferecer.  “Eu sempre me joguei nas experiências. Sempre experimentar coisas novas, sair da mesmice. Sair da bolha, saia da zona de conforto, e isso é mesmo a filosofia do meu trabalho. O EUxperimento é uma filosofia de vida”.

Para saber mais sobre o trabalho de Richard, você pode seguir a página da VisionLights ou do projeto EUxperimento no Facebook. Se quiser conhecer mais sobre o trabalho que realizou junto com o coletivo intitulado Pionairs para a Nike, veja a matéria que o Hypeness realizou sobre o projeto.  

O Air Max, o tênis queridinho da Nike – e de muitos de nós -, completa 31 anos em 2018.

Para fazer valer as três décadas de inovação, a Nike decidiu convidar os Pionairs da arte brasileira para criar. São dois coletivos, muitas mudanças, tecnologia, arte, música e design.

Como inspiração para as criações, o Air Max 270, que nasceu da junção de dois modelos Air Max 90 e 180. O resultado disso tudo você confere aqui no Hypeness, outro Pioneiro com os pés fincados no futuro.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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