Entrevista Hypeness

Com a força das minas, Marcha da Maconha amplia espaço onde é mais necessária: Nas quebradas

por: Vitor Paiva

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O anacronismo da proibição à maconha e a importância de não só se debater o tema como de colocar o povo nas ruas para gritar em coro e multidão o mal de se manter a maconha proibida é o grande combustível da Marcha da Maconha, que esse ano completa 10 anos de existência.

E uma importante ampliação das marchas em 2018 se afirma, ao mesmo tempo, como uma conquista simbólica e uma necessidade urgente de tal luta: o crescimento das chamadas marchas regionais – manifestações que acontecem em dias e locais diferentes da grande marcha que tradicionalmente se concentra no vão do MASP, na Avenida Paulista. E o principal ganho de tal expansão e deslocamento é poder levar a marcha e, com ela, a luta e o debate para onde ela é mais importante: a periferia, as quebradas, as regiões afastadas do centro e mais afetadas pela guerra às drogas.

© foto: Alice Vergueiro

O motivo desse deslocamento vai além da importante expansão da participação popular e do próprio debate, e leva a luta para o cenário onde as consequências nefastas da guerra às drogas são mais sentidas. “São as pessoas que moram na quebrada que sofrem o maior impacto da guerra às drogas”, diz Karen Viegas, organizadora da Marcha na Zona Leste. “É na favela que a policia entra com o pé na porta, onde tem o maior índice de violência policial. Ouvir o que a quebrada tem a dizer e levantar as pautas principais e urgentes que cada quebrada demanda é legitimar cada vez mais o movimento nas periferias”, afirma.

© foto: Tiago Pelegrini Macambira

Assim, além da grande Marcha da Maconha, que acontecerá no dia 26 de maio, com concentração marcada para às 14h20 no MASP, diversas outras marchas aconteceram ou ainda vão acontecer ao redor desse mês, em seis pontos diferentes de São Paulo e arredores. No último dia 1, aconteceu a Marcha da Zona Leste, no dia 12 foi a vez da Marcha da Maconha Grajaú, no dia 19 a da Zona Sudoeste, e no dia 2 de junho acontecerá a Marcha de Santo André (os detalhes dessa marcha ainda por vir estão no evento no Facebook). Além das marchas de São Paulo, cerca de 40 outras marchas estão marcadas para esse ano no resto do Brasil.

Feminismo e antiproibicionismo juntos e olhando adiante

E a força por trás dessa expansão do movimento é majoritariamente feminina – boa parte da organização por trás das marchas regionais é feita por mulheres. Segundo Juliana Paula, uma das organizadoras da marcha na Zona Sudoeste, a natureza antiproibicionista do movimento é questão essencial para toda a luta feminina.

“A proibição atravessa a vida das mulheres de muitas maneiras. Acredito que o aborto e a proibição ao prazer são as mais fortes expressões da tentativa patriarcal de promover o controle sobre nossos corpos e vidas”, afirma, lembrando que todo o contexto das drogas, ilícitas ou não, é majoritariamente masculino, assim como era a própria marcha em seu início.

A Marcha de São Paulo tem como diretriz hoje que nenhuma atividade oficial pode acontecer sem que haja mulheres participando diretamente, tanto da construção quanto da execução. A Marcha desse ano, a dos dez anos, está sendo tocada majoritariamente por mulheres, tanto nas quebradas, como no centro. Acho que isso é um pouco do que só as mulheres podem fazer por esse debate: incluir mais mulheres e inverter a logica machista.

Outro aspecto lembrando por Karen Viegas que torna a participação feminina na causa urgente e fundamental é o encarceramento de mulheres. “62% das mulheres são encarceradas por tráfico de drogas (na sua maioria negras), e dessas mulheres, 74% são mães”, lembra. “Mulheres são presas, seus filhos confiscados pelo Estado, e tão logo, condenados à marginalidade” aponta Karen, iluminando o racismo institucional que a proibição impõe. “São presas grávidas, dão à luz algemadas, depois são separadas de seu seus bebês, num sistema totalmente despreparado, e que encarcera em massa por uma merreca e que não tem nenhum compromisso com a agenda de direitos humanos. Enquanto isso acontece, quantos ‘helicocas’ sobrevoam as nossas cabeças?”, ela pergunta.

© foto: Alice Vergueiro

Ainda que mantenha como foco central de sua causa a necessidade urgente de se rever as leis que sustentam guerra à maconha e às drogas (e, com isso, fazem a manutenção do tráfico e da violência atrelada), a Marcha da Maconha se transformou ao longo dos anos em um ponto de convergência de lutas diversas, como os direitos LGBTQI, contra a desigualdade racial, de gênero, contra a homofobia e muito mais.

O que reúne todas essas causas em uma só é efetivamente a luta maior por trás de todas essas pautas: a busca dos direitos de quem é injustiçado. “A maioria das pessoas que estão nessas lutas são pessoas que sofrem algum tipo de criminalização por preconceito”, diz Marta Kanashiro, uma das organizadoras da Marcha em Santo André, lembrando que que as causas se encontram tendo a luta pela igualdade como ponto comum.

© foto: Alice Vergueiro

Juliana lembra que o progresso de tais pautas é mesmo um só. “A marcha pauta essas questões porque tem a maturidade de perceber que esses debates são inseparáveis, como ensina Angela Davis: gênero, raça e classe. Tudo passa por essas questões, não é diferente com a guerra às drogas e o proibicionismo. Quando perde uma, perdem todas, quando avançamos, avançamos juntas”, afirma, enquanto Karen sublinha a forma como as pautas tratadas diretamente no movimento nos levam a outras mazelas sociais brasileiras.

“Pra falar da guerra as drogas, que é a principal pauta da marcha, precisamos falar sobre o racismo institucional, sobre estigmas, sobre a hipocrisia, sobre a violência policial, sobre o controle dos nossos corpos que é exercido pelo Estado através do proibicionismo, sobre a nossa liberdade! Tudo isso faz parte de uma agenda pela paz mundial, e é por isso que eu colaboro com esse movimento”, conclui.

Parte da marcha em 2017

Além de todos esses motivos, Marta lembra de um sentido íntimo de sua participação que também ilustra o mal que a proibição ainda nos traz, e uma das tantas benesses que a legalização poderá trazer: ela própria é uma usuária de maconha medicinal, após 10 anos de tratamentos ineficazes contra a depressão. “Confesso que achei muito estranho no começo, porque até então, maconha para mim era um coisa errada, uma droga. Mas, cansada dos efeitos colaterais fortíssimos das minhas medicações, resolvi tentar, e gradativamente troquei os remédios ‘tarja preta’ pela ‘tarja verde’”, ela disse. “Senti diversos benefícios e a planta me ajudou a recomeçar minha vida. Hoje estou muito bem e não uso mais medicamentos controlados; meu único tratamento é a ‘ganja’”, afirma Karen. Não por acaso, portanto, a Marcha regional que ela ajuda a organizar, em Santo André, lembra em seu tema desse aspecto importante: “Do medicinal ao recreativo, liberdade para o cultivo” será o lema dessa marcha regional, que acontecerá no dia 2 de junho, com concentração às 14h20 na Rua das Caneleiras, em Santo André.

Às vésperas da Marcha no MASP, no próximo dia 26, Juliana lembra de um aspecto que engloba de certa forma todas essas pautas e vai além da maconha somente: a liberdade. “Milito pela legalização de todas as drogas, justamente porque acredito na autonomia e na liberdade de escolha e do direito ao próprio corpo acima de todas as leis e patifarias estatais”, ela afirma, lembrando que a marcha é também um programa divertido e enriquecedor, principalmente pelas pessoas que participam. “Também milito porque gosto do rolê, gosto das pessoas. Eu lutaria sempre por essa causa, mas gosto mais de lutar ao lado das minhas e dos meus”, conclui.

Motivos para aderir à causa e às marchas, portanto, não faltam, e a força feminina é, assim, um dos combustíveis mais importantes desse movimento como um todo, e que vem há alguns anos expandindo seu campo de atuação, e fazendo da Marcha da Maconha uma manifestação pública verdadeiramente importante e ampla.

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© fotos: créditos/Facebook/divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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