Matéria Especial Hypeness

Conversamos com o criador do site que traduz obras de pensadores africanos para português

por: Redação Hypeness

Como cantou o rapper Emicida em Mufete, “a África está nas crianças, e o mundo está por fora”. Ou seja, para o desenvolvimento pleno do Brasil é fundamental uma aproximação maior entre o país sul-americano e o continente africano.

Há anos intelectuais como Sueli Carneiro e Abdias do Nascimento trabalham para a intensificação da penetração do pensamento dos países africanos, representados por nomes como o camaronês Achille Mbembe, porém com a instauração da Lei 10.639/03, uma série de iniciativas pipocaram no mundo online e offline.

Entre tantas criações vindas do Brasil, país com mais de 50% da população formada por negros, está a de Wanderson Flor. O professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília UnB criou com o apoio de estudantes da graduação e pós-graduação um site que disponibiliza em língua portuguesa o pensamento de filósofos e escritores de África.

No ar desde meados de 2015 este documento, em atualização constante, funciona como uma verdadeira biblioteca online, prestando um grande serviço para a cultura de uma das principais diásporas africanas. Lá é possível baixar gratuitamente mais de 30 obras de escritores africanos e outros 40 textos relacionados ao assunto. 

Falando em entrevista concedida ao Hypeness, Wanderson destaca a relevância do Filosofia Africana, que mesmo sem contar com apoio institucional, se coloca como contraponto aos retrocessos vividos pela educação, além de ser mais uma medida concreta para o alcance da equidade racial.

“A sociedade brasileira, com histórico racista, não conseguiu apagar as heranças africanas de percurso formativo”

“O atual cenário educacional é um dos mais críticos da história recente do país. Não apenas a pesquisa, mas a própria infraestrutura do ensino também está bastante precarizada. E os discursos em torno da privatização do ensino superior desempenha um papel importante nesse quadro. As políticas de equidade em educação, aquelas voltadas para o enfrentamento das desigualdades que atravessam nossa sociedade, são bastante penalizadas quando a estrutura se precariza.

O trabalho que venho realizando, não obstante ser parte de meu projeto de pesquisa na Universidade de Brasília, em parceria acadêmica, tem um caráter praticamente ativista, pois não conta com nenhum financiamento por parte da universidade. Não obstante essa escassez de recursos, a divulgação de textos em língua portuguesa de pensadoras/es este é um trabalho que tem possibilitado o acesso de muitas/os professoras/es e pesquisadoras/es interessadas/os no pensamento africano, que podem com menos dificuldade utilizar esses materiais nas pesquisas e na preparação de aulas de filosofia para o Ensino Médio e, até mesmo, o Fundamental e Superior” conclui.

Mesmo com leis de incentivo, a presença africana e do próprio negro brasileiro ainda é escassa nas grades curriculares. Ainda que abolida há 130 anos, a escravidão, que trouxe ao Brasil de maneira forçada mais de 5 milhões de negros escravizados, colocando o país como o principal centro do tráfico das América, permanece como uma das principais características nacionais.

Entre tantos outros elementos a negação de uma ligação entre os dois pontos e uma insistência em abraçar como verdade absoluta correntes eurocêntricas deixam de lado pensamento africano. Entre os brasileiros a obra de nomes como o escritor e dramaturgo nigeriano Wole Soykina, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, ainda passam ao largo. Todavia para o professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília a conexão com África é parte fundadora da nossa sociedade.

“A maior ameaça à liberdade é a ausência de críticas”, fala do intelectual nigeriano Wole Soyinka

“A sociedade brasileira, não obstante seu histórico profundamente racista, não conseguiu apagar por completo as heranças africanas de seu percurso formativo. Uma parte fundamental do caráter comunitarista, hospitaleiro e festivo de nossa sociedade tem uma participação importantíssima do pensamento africano e também do indígena. As línguas e outros elementos culturais africanos trouxeram para a formação brasileira contribuições que, embora muitas vezes negadas, são constitutivas de nosso cenário social. Quando observamos a sociedade portuguesa, notamos o quão profundamente fomos influenciados por outros povos, sobretudo nas camadas mais populares de nossa sociedade, que mantiveram mais vivos os valores culturais que conformam um certo modo de ser social,” pontua Wanderson.

Protagonismo e integração


Fruto de ação coletiva entre estudantes determinados em promover uma mudança de pensamento, o Filosofia Africana chama a atenção por dois motivos, o primeiro é o protagonismo negro, aqui representado especificamente pelas mulheres negras.

O segundo é a força da integração entre negros e brancos. Diante de um cenário onde o negro, especificamente o homem, é estigmatizado como uma ameaça, precisa-se compreender que o pedido por igualdade está longe de significar uma sobreposição racial. Pelo contrário.

“A participação de estudantes que cursam ou cursaram a disciplina Filosofia Africana é fundamental para a realização do projeto. Seja por trabalharem na tarefa de tradução, seja por estarem em constante busca de materiais que surgem e que possam ser divulgados sem problemas com os direitos autorais. A solidariedade com relação ao sentido do projeto, que é voltado para a divulgação do pensamento africano na língua portuguesa, além de fortalecer redes de enfrentamento ao racismo, capacita a todas nós para o trabalho com a pesquisa nas redes virtuais de publicação de textos acadêmicos. Sempre descobrimos coletivamente novos canais de circulação dos textos.

As turmas têm sempre um número equalizado entre estudantes negras/os e brancas/os. E, como o trabalho de enfrentamento ao racismo é apresentado como tarefa de todas as pessoas, o trabalho coletivo é facilitado, de modo que ainda não tive problemas, nessa disciplina, para a realização de trabalho conjunto entre as pessoas de cores diferentes”, revela Wanderson Flor.

No caso das mulheres negras o que salta aos olhos é o exercício de um protagonismo que só aumenta. Responsáveis por um quarto da população brasileira, elas se destacam cada vez mais na dianteira de debates, protestos e iniciativas para a diminuição da violência e das desigualdades causadas pelo racismo. Talvez uma das figuras mais emblemáticas da história recente seja a vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ), executada a tiros em um crime ainda não esclarecido no centro do Rio.

Marielle Franco é símbolo da luta pela equidade racial e de gênero no Brasil

“Apesar de que uma das estratégias do racismo moderno foi transferir-se para as relações entre os machos e fêmeas de nossa espécie, disseminando o patriarcado ocidental sobre outras populações do mundo que não o conheciam antes, as relações entre homens e mulheres negras nem sempre são pautadas pela exclusão das mulheres dos espaços de liderança. Isso é facilmente observável em comunidades quilombolas e nos povos de terreiro, que mantêm uma estrutura de poder que não impede que mulheres tenham protagonismos políticos e que, ao fim e ao cabo, as incentivam para a participação fortalecida no enfrentamento ao racismo.

Como o Ocidente está desacostumado em ver mulheres em protagonismos políticos, nos espantamos. Mas como a cultura negra não foi essencialmente sexista, mulheres e homens partilham as responsabilidades pela transformação do mundo. E, pelo próprio machismo ocidental, acaba que elas se destacam por uma espécie de contraste. Em um mundo político branco masculino, as mulheres negras ganham proeminência por destoarem dessa lógica, pois expressam a mesma competência para o debate público que os homens negros ou brancos, além de carregarem uma responsabilidade que lhes foi imposta pelo sexismo ocidental. Além disso (e, tragicamente, para suas vidas cotidianas), elas findam por se fortalecerem mais, pois o peso que carregam é duplo: de serem negras em uma sociedade racista e serem mulheres em uma sociedade sexista, de modo que sua resistência é ainda mais intensa e, quando aparecem para esses enfrentamentos ao racismo, trazem a força que trouxeram dessa guerra que lhes foi mais densa e que para as quais elas souberam, como ninguém contornar as agruras. Dediquemos todo o nosso respeito a elas!”

Nelson Mandela já apontava a educação como a principal ferramenta de mudança do mundo, sendo assim, disponibilizar o conteúdo de pesquisadores, pensadores e intelectuais que se proponham em desenhar uma nova sociedade, é uma atitude louvável e indispensável nos dias de hoje.

“Difundir o pensamento das pessoas africanas e afrodiaspóricas é uma estratégia antirracista importante, já que uma das imagens que o racismo construiu em nossa história foi a da incapacidade intelectual das pessoas negras”.

Antes de ir reiteramos o convite para que acessem o Filosofia Africana deixamos a fala do professor Wanderson Flor, do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília UnB sobre seus pensadores favoritos.

“É muito difícil responder a essa pergunta, pois sou absolutamente fascinado pela riqueza do pensamento africano. Há tantas abordagens, conceitualizações, que é difícil eleger uma única como favorita. Entretanto, estou bastante envolvido, nesse momento, com a epistemóloga nigeriana Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, que tem um trabalho absolutamente provocativo e, a meu ver, inovador. Oyěwùmí diagnostica aquilo que ela chama de um privilégio do visual no pensamento ocidental, que finda por organizar os modos de conhecer em torno de uma bio-lógica, isto é, a tendência de estabelecer as hierarquias sociais a partir de arranjos corporais naturalizados, pensando a sociedade como um corpo, fato que é expresso nas metáforas do corpo social ou do corpo político.

Esse privilégio do visual faz com que o próprio pensamento tenha um tipo de funcionamento imagético, que ela não reconhece como universal. Para a filosofia, suas reflexões têm importantes contribuições para uma filosofia do pensamento, além de para a própria epistemologia e as epistemologias feministas. Ela oferece uma crítica para uma ideia universalizante e universalizada de pensamento e uma interessantíssima problematização sobre algumas categorias que naturalizamos como universais, como o corpo como fonte da organização social e o gênero. Se seguirmos suas ponderações, somos levadas a questionar exatamente aquilo que temos normalmente tomado como pressuposto e ponto de partida das reflexões ocidentais: a própria natureza imagética do pensamento e a virtualidade universalizada/universalizante dos conceitos. Com isso, a epistemologia e a sociologia do conhecimento se tornariam indissociáveis, o que reposiciona todo o debate epistemológico contemporâneo, principalmente – mas não apenas – para o caso das epistemologias das ciências humanas.”

Publicidade

Fotos: foto1: Divulgação/foto 2: Wikimedia Commons/foto 3: Reprodução/Facebook Oficial


Redação Hypeness
Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Capa apenas com empreendedores brancos mostra que jornalismo não encara o racismo