Entrevista Hypeness

Cristiele França, a radialista que leva o candomblé e os orixás para o cotidiano de Salvador

por: Kauê Vieira

No Candomblé, Exú é responsável pela comunicação. O mais próximo do humano no panteão dos Orixás, é sua função estabelecer contato entre o òrun e o àiyê, respectivamente céu e terra em Iorubá. Exú é figura fundamental na cultura Iorubá e sem sua presença não haveria como manter contato com os Orixás. Não restam dúvidas, Exú é indispensável para o culto. Entretanto não há como sustentar o Candomblé sem a participação dos outros Orixás.

A mesma fórmula se aplica ao jornalismo. Desde a explosão tecnológica que desembarcou junto com o novo milênio, a comunicação vive uma série de transformações. Atualmente os veículos de mídia abraçaram o meio digital como um dos principais canais de atuação. Com isso muito se falou sobre uma possível extinção de plataformas seculares de informação como o rádio. Porém como nos ensina a ancestralidade africana para que tudo funcione propriamente deve haver integração entre todos os elementos.

Cristiele França é radialista e por meio de sua atuação na Rádio Metrópole de Salvador abre espaço assim como ensinou Ogum – Orixá das estradas e do ferro, para a afirmação positiva da cultura negra em diferentes espaços e sempre tendo a comunicação como norte.

Filha de Oxum com Xangô e Ekedi e Iansã, jornalista e nascida no subúrbio de Salvador, ela traça um panorama entre sua trajetória e a importância da representatividade para a extinção das desigualdades provocadas pelo racismo brasileiro.

“Estou ocupando um espaço que o povo de santo nunca teve numa rádio baiana”

Hypeness –  Como uma mulher negra, do Candomblé e jornalista, o que a comunicação significa pra você? Qual a importância dela para sua vida?

Cristiele França: 
A comunicação sempre esteve muito presente em minha vida. Quando ainda era criança, já brincava com meu irmão que eu era apresentadora de programa infantil, tipo Mara, Angélica ou Xuxa, que estavam em alta na época. Depois de adulta prestei vestibular e segui pelo caminho do jornalismo, onde aos poucos fui me encontrando, me identificando.

Adorava as matérias de rádio e TV e sabia que era esse o meu caminho. Antes mesmo de me formar, surgiu a oportunidade de estagiar numa rádio: a Rádio Cultura da Bahia AM 1.140, que pertence a um grupo evangélico. Jamais achei que passaria nessa seleção, mas passei e de estagiária, consegui apresentar dois programas, além de fazer operação de áudio para programas evangélicos. Nunca tive problemas de relacionamento por lá e foi ainda lá que surgiu a oportunidade de trabalho na Rádio Metrópole FM. Fiz a seleção, passei e foi a partir daí que comecei a criar minha identidade.

O rádio ainda é um meio bastante popular, especialmente nas periferias. Nesse sentido, como você enxerga o seu trabalho? Principalmente em como ele atinge as camadas menos favorecidas.

Cristiele França: 
Acho brilhante, já que é uma forma de democratizar a informação. Seja num radinho de pilha ou dentro de uma Land Rover, todos têm a mesma oportunidade de ouvir e refletir sobre o que está sendo dito. Por isso, temos sempre que ter um cuidado especial com o que está sendo dito, pois não estamos aqui como donos da verdade, mas sim como pessoas que têm a função de reportar os fatos. O pensar é livre e todos precisam desse acesso à informação, independente da sua condição social.

“Queria muito ligar a TV e ver uma ‘Xuxa’ negra, de black ou de tranças”

Seu trabalho se caracteriza pela inserção da cultura negra, especialmente pelo Candomblé. Seja pelo Orixá do dia ou comentários sobre comidas e a presença africana no Brasil. Este espaço sempre lhe foi concedido com tranquilidade dentro do jornalismo?

Cristiele França: 
Aqui na Rádio Metrópole sim. Em outras emissoras eu só era mais uma pessoa a reportar as informações. O espaço que tenho hoje é uma conquista, pois é a minha oportunidade de ser eu, de ter identidade própria. Já passei por outros veículos de comunicação, mas hoje, me sinto imensamente feliz em poder ser eu mesma, falar do meu jeito sobre todo e qualquer assunto, sem precisar me camuflar ou me esconder atrás de um perfil que não é o meu.

Além disso, agora, com o Mojubá, estou ocupando um espaço que o povo de santo nunca teve numa rádio baiana, onde a religião é explicada, por especialistas, sem ser exposta sem invadir os fundamentos.

Ainda estou no começo do caminho, pois estamos em busca de patrocínios, mas sei que os Orixás abrirão os caminhos e Mojubá terá vida longa.

Talvez o Mojubá seja um dos poucos programas que falam abertamente na grande mídia sobre o Candomblé e tudo o que cerca a religião. Você sempre teve a intenção de comandar um programa assim? Como ele surgiu? Como é a repercussão e de que formas ele é recebido pelo povo de santo?

Cristiele França: 
No rádio, desconheço um espaço como o Mojubá. Falar sobre os assuntos referentes a minha religiosidade sempre foi um objetivo, justamente por ter essa liberdade de falar diariamente sobre isso e ver que as pessoas têm curiosidades incríveis e pré-conceitos de acordo com o “ouvi dizer. Há associação com magia negra e com coisas macabras que não condizem com a grandiosidade das religiões de matriz africana. O objetivo do Mojubá é justamente desmistificar essas ideias, a partir de estudos, de especialistas e do próprio povo de santo que possa contribuir com essas discussões.

Graças a Deus e aos Orixás, o povo de santo e os que não são também têm recebido muito bem o programa. Ligam, participam, repercutem nas redes sociais e sei que ainda vamos muito longe! Já tenho até recebido convites para falar sobre ele e sobre a minha religiosidade em palestras e encontros no segmento. Pra mim está sendo fantástico.

Salvador é uma cidade predominantemente negra. Como você acredita que seu trabalho atinja esta parcela da população? Especialmente no reconhecimento da negritude.

Cristiele França: Uma vez uma professora entrou no ar e disse que morava perto da minha casa, no bairro de Nova Brasília de Valéria, e que me usava como exemplo em sala de aula, mostrando que é possível se chegar onde se quer, independentemente do bairro que você nasceu e da sua atual condição de vida. Eu nunca fui patricinha, nunca achei nada de mão beijada e sempre ralei muito para conquistar meus objetivos. Então, ouvir isso pra mim foi gratificante.

Atualmente estou tendo a oportunidade de dar aulas de rádio para alunos da rede municipal de Salvador e muitos deles falam pra mim como vivem, a relação com a família e há relatos de chorar! No entanto, eu sempre tento colocar eles pra cima, passando positividade, para que queiram crescer sempre. Acho que essa tem que ser nossa função: mostrar para as nossas crianças que elas podem ser o que quiserem.

‘Mojubá’ é a religiosidade negra tratada com seriedade

Você acredita em representatividade? Se sim, você se considera uma parte importante deste processo representativo?

Claro que sim. Representatividade é imensamente importante. Uma pessoa que não se identifica com o que vê ou ouve, não tem referências.

Por isso digo que hoje avançamos muito nesse sentido. Eu já consigo me ver ao assistir um telejornal quando uma apresentadora negra está na bancada. Penso que muitas pessoas devem se identificar comigo, com meu jeito de falar ao ligar o rádio. No entanto, há 15 anos não era assim. Eu não tem lembrança de apresentadores negros, muito menos apresentando programas infantis. E se uma criança não se vê na TV, ela pode crescer achando que o bonito, o belo, é o que está na telinha. Graças a Deus e aos Orixás hoje isso já avançou, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Queria muito ligar a TV e ver uma “Xuxa” negra, de black ou de tranças, para ser referência para minha filha.

O que é ser uma mulher negra e nordestina?

Cristiele França: Acredito que a palavra vulnerabilidade sempre está em voga quando o assunto é este. Estamos mais propensas a diversas situações de exclusão social, mas não gosto de me colocar nessa vitimização. Acredito que temos o poder de transformar as pedras do caminho em degraus – mesmo que pareça clichê…mas vemos tantos exemplos bacanas disso.

Pessoas que da reciclagem criam grife de peças feitas com o metal das latinhas, gente que começa a fazer comida caseira e depois abre seu restaurante. Acredito que a vitimização pode acabar nos levando a acomodação e é isso que a gente não pode deixar acontecer. Não podemos nos deixar abater quando o caminho parecer difícil. A gente precisa perseverar atrás dos nossos objetivos, senão, a coisa não acontece.

“Falar sobre os assuntos referentes a minha religiosidade sempre foi um objetivo”

Histórias inspiradoras como esta demonstram a importância da representatividade e da multiplicidade de vozes como alicerces para a construção de uma sociedade igualitária e livre de preconceitos. Você pode acompanhar o trabalho de Cristiele França diariamente na Rádio Metrópole FM de Salvador

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Fotos: foto 1: Reprodução/Facebook Oficial/foto 2: Reprodução/Facebook Oficial/foto 3: Divulgação/Rádio Metrópole/foto 4: Reprodução/Andrea


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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