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De Caetano ao Exalta: Virados na Virada e um balanço de quase 24h, do hype ao popularzão

por: Gabriela Rassy

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Em 14 anos de Virada Cultural, nunca me arrependi de ter ido. Entre os amigos, as opiniões se dividem. Tem quem fique com medo do centro na madrugada, tem quem se emputeça com a parte festiva do evento ter sido deslocada para o Jockey, tem quem nem se arrisque a sair de casa – ainda mais com o míseros 9ºC refrigerando o mundo lá fora. Eu fico com os que querem ir no maior número de shows e atrações possíveis. Sou dessas. 12 shows e muitas caminhadas depois, venho contar aqui um pouco desta experiência.

Carnaval com 9º descendo a Consolação com Tarado Ni Você e Caetano Veloso

Carnaval com 9º descendo a Consolação com Tarado Ni Você e Caetano Veloso

Começar os trabalhos com Carnaval já aquece o coração logo de cara. O bloco Tarado Ni Você, que vi crescer absurdamente ao longo dos muitos fevereiros passados em São Paulo, chegou no ponto máximo. Desceu a Consolação com ninguém menos que seu muso inspirador, Caetano Veloso, que, empunhando seu violão, moveu uma multidão em direção ao Centro.

Multidão mesmo! Não havia fresta para quem viesse do fundão atravessar o bloco.

Para quem manja de Carnaval e sabe que o lance é ficar na lateral para a frente, foi uma delícia. Acompanhada por projeções de frases das músicas e integrantes fantasiados, ao som de “Tiêta”, “Reconvexo”, “Tropicália”, entre outros clássicos, a massa purpurinada seguiu feliz pelo centrão. Em meio ao bloco, uma ação organizada pela chef Bel Coelho levou placas com frases contra a PL do Veneno para a avenida.

https://www.instagram.com/vemnaminhavem/

Ação da Bel Coelho contra a PL do Veneno desceu a avenida com o bloco

Ação da Bel Coelho contra a PL do Veneno desceu a avenida com o bloco

De lá, a ideia era ver a maravilhosa Elza Soares, que acaba de lançar o álbum “Deus é Mulher”. Esbarramos aí em um ponto crucial da Virada no centro: quer ver uma atração grande e poderosa dessas? Chegue muito, mas muito antes e encontre seu lugar ao sol. Nessa transição cheguei na República quase na hora do show, já num momento desagradável de cheio que não me deixava ver um fiapo de cabelo da rainha.

Tentativa frustrada, corri para pegar Otto, que deveria começar ali por perto. Depois de 45 minutos de atraso, juro que pensei em desistir de tudo, mas resisti e peguei o show completo do galego, acompanhando pelo papai Manoel Cordeiro. Valeu cada segundo. Otto sempre faz um show potente e esse foi dos melhores que já vi. Entre o tira e põe de camiseta, ele foi esquentando o público até o ápice de “Crua”.

Otto quebra tudo no palco com Manoel Cordeiro

Otto quebra tudo no palco com Manoel Cordeiro

Já estava bem de rock na vida, então parti para o palco do samba, montado no emblemático cruzamento da São João com a Ipiranga. Caetano ainda estava em mim. Por lá, um show inesperado e emocionante. Durante o Exaltasamba, entre um clássico e outro, conheci um garoto da periferia de Pirituba com uma daquelas bebidas duvidosas de cor vermelha intensa. Cantamos, dançamos e nos divertimos horrores juntos. Ele, que não tinha nada a ver comigo, me resumiu tudo: “gosto da Virada por isso. Essa mistura de tribos, de se perder, se achar e conhecer gente legal nesse caminho”. Danilo sacou tudo – e eu também. Nessa hora pensei no Jockey. Ano passado fui até lá e foi genial. Mas não era Virada Cultural. Era um festival de curadoria maravilhosa, mas não era essa mistura de gente de todo tipo. De envolvimento com a cidade que a gente evita. Parei de sofrer por ter perdido o Attoxxa e segui para a próxima.

Encerrei a madrugada com ninguém menos que Netinho. Sim, aquele da Bahia, do Ô Miiiillaaaa, mil e uma noites de amor com você! Em 2013, o músico teve três acidentes vasculares cerebrais que causaram, entre outros problemas, perda da voz. Começando às 4h da manhã, ele fez um show no melhor estilo Bahia: todo mundo pulando que nem pipoca! “E pensar que uns anos atrás eu nem falava”, disse no palco, emocionado. Momento nostalgia total, com todos sacudindo os braços de um lado para o outro e cantando em plenos pulmões o sucesso do baiano.

Momento nostalgia com Netinho da Bahia <3

Momento nostalgia com Netinho da Bahia <3

Umas poucas horas de sono e meio kebab depois, às 13h lá estava eu de novo focada em pegar mais um tanto de shows. Cheguei para o Projeto Coisa Fina convidando o mestre Latieres Leite, da Orquestra Rumpilezz, diretamente da Bahia. No palco jazz, banhado pelo sol, o grupo apresentou um show fino e classudo. Por ali passavam grupos de fãs do Krisiun, a caminho do show de 10 anos da banda. Aquela mistura linda de gente metaleira com gente quietinha ouvindo jazz era mais uma vez a cara da Virada.

Em busca do sol para derreter o gelo que estava no domingo, parei mais uma vez no palco do samba, desta vez para ouvir o Fundo de Quintal. Mãozinhas para o ar, cantorias e samba no pé reuniram uma galera que ocupava todo o quarteirão empunhando cervejas e chopps. Esquina de muitos sorrisos e famílias completas curtindo o som.

O cruzamento mais emblemático da cidade foi palco do samba

O cruzamento mais emblemático da cidade foi palco do samba


Mais um giro e um queijo quente nos levaram ao palco da Barão de Itapetininga para pegar o comecinho da Letrux, persona da carioca Letícia Neves. Pausa aqui para pedir que você pare tudo e ouça “Em Noite de Climão“. O álbum foi vencedor do Superjuri do Prêmio Multishow 2017, como melhor disco pouco tempo depois do lançamento e é absolutamente apaixonante. Ver o show é um bônus. Com uma banda quase totalmente formada por mulheres, Letrux domina o palco e come nossa mente.

Já faminta e com dores nos pés, voltei para pegar um pedacinho do show do João Donato – outra pedrada do palco jazz – e seguir para o palco dedicado ao rap. O show do Rincon Sapiência estava atrasadíssimo, o que foi só vantagem, já que consegui pegar metade da apresentação do Edi Rock, dos Racionais MC’s, acompanhado de Dexter e Nelson Triunfo. Pesadíssimo! A multidão que tomava o Largo São Bento ficou firme para o show do Rincon, que fez todo mundo colocar as mãos para o ar e dançar sua mistura de sons e protestos.

Nesse meio tempo sofri por não ver várias atrações e festas – além de não ter ido para o Jockey -, mas estava exausta e feliz. A Virada Cultural é um conjunto de possibilidades. De encontrar amigos, de conhecer gente totalmente diferente, de ver shows que raramente passam por aqui, de viver a cidade. São Paulo é uma babilônia e a Virada é um paraíso.

Ainda preferia tudo concentrado no Centro, mas sempre vale a pena. Que venham as próximas!

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Foto destaque: Oswaldo Corneti
Foto Tarado: Thales Xavier
Fotos texto: Gabriela Rassy


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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