Inspiração

Jornada do último escravo americano é publicada, quase 90 anos depois de escrita

por: Redação Hypeness

É difícil supor algum evento mais nocivo para o desenvolvimento social e político de um país do que a escravidão. Todos os aspectos das relações sociais dos países forjados sobre tal horror foram e ainda são afetados e pautados diretamente por essa prática – e os efeitos disso podem evidentemente ser sentidos até hoje. Um novo livro de autoria da antropóloga e escritora americana Zora Neale Hurston conta uma importante e esquecida parte dessa história nos EUA, e está sendo publicado pela primeira vez quase 90 anos depois de ser escrito.

Zora Neale Hurston

Autora do clássico Seus olhos Viam Deus, Zora faleceu em 1960 como um dos mais importantes nomes da literatura e da antropologia na luta pelos direitos civis e a igualdade racial nos EUA. Em 1931, após intensa pesquisa sobre Cudjo Lewis, considerado “o último sobrevivente do último navio negreiro a abarcar na costa americana” – em suma, o último escravo levado da África aos EUA – Zora escreveu o livro Barracoon: The Story of the Last ‘Black Cargo’ (Barracon: a história da última ‘carga negra’, em tradução livre) contando justamente a história de Lewis, originalmente batizado como Oluale Kossola, que foi levado em 1860 do Benim para os EUA – ainda que o tráfico internacional de escravos já fosse proibido no país então há 50 anos.

Oluale Kossola, ou Cudjo Lewis

Oluale sobreviveu a uma viagem de 45 dias no famigerado navio Clotilde, e foi forçado a trabalhar nas docas do Rio Alabama até 1865, quando enfim foi libertado depois do fim da Guerra Civil americana. Oluale sobreviveria até 1935, e sua história foi escrita por Zora enquanto ele ainda era vivo.

Oluale em sua casa nos EUA

À época, o livro foi terminantemente rejeitado pela editoras – sendo enfim publicado somente agora, 87 anos após sua conclusão. E o motivo é espantoso, assim como a manutenção do silêncio de tal obra fundamental.

Muitas editoras criaram objeções ao uso de um “dialeto negro” na maneira de escrever de Zora – que usava tal “dialeto” como afirmação estilística e antropológica -, que se recusou a alterar seu texto. Outras editoras consideraram o livro pesado, como se quisessem virar essa página – e ate intelectuais negros foram contrários ao livro, que poderia refletir negativamente sobre uma sugerida cumplicidade africana no comércio de escravos – visto que Oluale, antes de ser mandado aos EUA, havia sido capturado e vendido por uma tribo inimiga.

A verdade, e o combate irrestrito à escravidão, eram, no entanto, o compromisso principal de Zora – que finalmente tem seu livro publicado, à venda na Amazon. A tentiva de silenciar ou amenizar história tão grave é um dos efeitos mais nocivos da herança escravocrata que permeia a história das Américas – lembrando que o Brasil recebeu um número consideravelmente maior de escravos africanos que os EUA. Assim, enfrentar essa dura realidade e celebrar o trabalho de pessoas como Zora é um primeiro passo para que tal horror jamais se repita e seja combatido em todos os seus desdobramentos até hoje.

Publicidade

© fotos: divulgação


Redação Hypeness
Acreditamos no poder da INSPIRAÇÃO. Uma boa fotografia, uma grande história, uma mega iniciativa ou mesmo uma pequena invenção. Todas elas podem transformar o seu jeito de enxergar o mundo.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Família descobre que seu gato tinha vida dupla em outra casa, com outro nome e donos