Matéria Especial Hypeness

Lucros bilionários não livram rodeios de questionamentos de defensores dos animais; entenda

por: Kauê Vieira

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Entres as inúmeras tradições de um dos países mais diversificados culturalmente do mundo, o rodeio se coloca como uma das mais lucrativas e controversas. Presente no cotidiano interiorano de Norte a Sul, a prática esportiva há algum tempo faz parte de um debate sobre os riscos para a vida de animais e seres humanos.

Aliado com a força do mercado da música sertaneja estima-se que o rodeio seja apreciado por 30 milhões de pessoas espalhadas em todo o território nacional. Infladas pelo grande poder econômico cidades do interior de São Paulo, como Ribeirão Preto, Jaguariúna e Barretos, as festas movimentam grandes cifras ao longo do ano.

Anualmente o Brasil é palco de 2 mil rodeios e segundo a Confederação Nacional de Rodeio (CNAR), o país movimenta mais de 3 bilhões de reais com as festas, gerando mais de 300 mil empregos.

Para Max Muratorio de Macedo, ator, pedagogo, produtor cultural e atuante em causas sociais há mais de 20 anos, é preciso sim levar em conta o potencial de econômico e de criação de empregos dos eventos de rodeio, entretanto o bem estar dos animais deve vir em primeiro lugar.

“Muita gente está apenas garantindo a sua reserva de mercado. Contudo o capitalismo, o mercado e o liberalismo apostam na inovação, na tecnologia, na ousadia e na vanguarda. O boi e o cavalo não têm nada com isso. Podem recriar os rodeios sem violência aos outros animais. É possível realizar os seus eventos com shows respeitosos. Preservar a dignidade dos animais é um dever natural de todo ser humano, bíblico e contemporâneo”, enfatiza em entrevista concedida ao Hypeness.

Os rodeios movimentam bilhões de reais no Brasil

Oficialmente o Brasil possui 15 confederações credenciadas junto ao CNAR e assim como o Carnaval, as festas de peão fazem parte do calendário de eventos da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), proporcionando sua divulgação no exterior.  

Diante de números tão robustos pouco se fala sobre os bois e os próprios peões. Quais são os riscos para a vida destes dois protagonistas? No último dia 13 de maio um peão morreu pisoteado por um boi durante a Expoingá, Feira Agropecuária, Industrial e Comercial de Maringá que acontece há mais de 40 anos na cidade do Norte paranaense. Em nota a Professional Bull Riders Brasil lamentou o ocorrido.

Chamando a atenção para as sequelas Max Macedo, vegetariano há mais de 30 anos, acredita que muitos acidentes são causados pela exposição excessiva do animal a situações de violência e estresse. O formato de arena, lembrando momentos do antigo Império Romano, são decisivos nesse sentido.

O formato das arenas de rodeio é inspirado nas do Império Romano

“Os riscos do animal começam muito antes de entrar na arena e as sequelas são piores. O treinamento hostil, torná-lo pesado e prepará-lo para ser torturado é algo sem igual. Quando pensamos em cuidar bem de um animal e ser responsável por ele, não pensamos em expô-lo a situações de violência. Antes de entrar na arena existe a cinta sedén, ou o grampo dos testículos, que fazem com que eles pulem, causam além de dores físicas, traumas. Depois disso os animais não têm mais uma convivência normal e geralmente ficam deprimidos e agitados”, alerta.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo Paulo Emilio Marques, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Touros de Rodeio (ABRT), diz existir sim uma preocupação com a saúde dos bois. O tropeiro garante ainda que práticas tradicionais como a queima de fogos foram abolidas para melhorar a qualidade de vida dos bichos.

“A ideia é sempre pensar no animal, no horário para começar e terminar a jornada. Se as provas vão começar às 22h, ele não precisa chegar às 17h, pode chegar 19h30, 20h. E precisam ficar bem instalados”, encerra.

Porém para ONGs como o Fórum Animal a fiscalização de órgãos como ABRT não são suficientes. Com objetivo de colocar um fim nos rodeios muitas entidades recorrem ao sistema judiciário. Só em 2017 pelo menos seis eventos foram proibidos em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio de Janeiro.

Bem menos lucrativa, a vaquejada está na mira da Justiça

Com ganhos infinitamente menores em comparação com os rodeios a vaquejada, prática tradicional no Nordeste de laçar o boi montado em um cavalo, se tornou alvo da Justiça e do Congresso Nacional.

Após decisão do juiz Carlos Frederico Maroja de Medeiros, da Vara do Meio Ambiente, Desenvolvimento Urbano e Fundiário, a vaquejada está proibida de ser realizada no Distrito Federal e quem desobedecer está sujeito a multa de R$ 50 milhões.

“Um dia certamente as futuras gerações vão achar esta prática tão absurda quanto hoje imaginamos pessoas nas arenas com leões. Rodeio é uma festa do agronegócio, embora seja uma prática muito antiga, ele não existiria  hoje sem incentivo dos grandes pecuaristas locais para difundirem suas marcas, venderem seus produtos e gerar uma indústria própria do entretenimento. É bom lembrar que o sertanejo atual nasce em festas de rodeio. Os negócios gerados estão correlacionados”, pontua o ativista e pedagogo Max Macedo.  

Longe de uma conclusão o debate sobre os rodeios e vaquejadas deve permanecer por muito tempo na pauta nacional. Todavia é fundamental que se pense na preservação de vidas, humanas e animais como prioridade.

 

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Fotos: foto 1: Pixabay/foto 2: Pixabay/foto 3: Wikimedia Commons


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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