Matéria Especial Hypeness

Mãe não é ‘tudo igual’: Com 3 filhos biológicos, ela abriu o coração para adotar 5 irmãos

por: Bruna Rasmussen

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Quando Ingrid Ewert Quagliato Mendes, 48, recebeu uma carta da companhia de água e saneamento alertando para um possível vazamento nos canos de sua residência, ela riu, sem demonstrar muita surpresa. O que para a maioria das pessoas seria uma dor de cabeça com direito a alagamentos e encanadores, para ela, não passava de um falso alerta. Afinal, a empresa jamais iria imaginar a real razão pela qual o consumo de água em sua casa dobrou em um só mês. Trata-se do mesmo motivo que fez a conta de luz aumentar, a troca do carro por uma mini van se tornar necessária e toda uma rotina de vida ser adaptada: Ingrid, seu esposo e os três filhos haviam aberto as portas e os corações para a chegada de cinco crianças, todos irmãos. O processo de adoção estava, enfim, concluído e a família oficialmente dobrou de tamanho!

Éramos cinco

Ao longo de 30 anos de casados, Ingrid construiu com Marcos Aurélio Sampaio Mendes, 57, uma relação baseada em companheirismo e amor. Segundo ela, é com isso que é possível manter um bom casamento depois de tanto tempo. E os filhos são fruto disso. Aos 20 anos de idade, Ingrid deu à luz a Aryanne e, três anos depois, chegou a Carolynne. A adoção sempre foi um tema recorrente nos diálogos do casal, que inclusive pensava que o terceiro filho da família já viria por esse processo. Contudo, uma gravidez inesperada (mas não menos desejada!) trouxe o Rafael. Assim, por quase duas décadas, a família eram os cinco. À criação dos pequenos foram dedicados amor, tempo, atenção e recursos financeiros, de forma que a ideia da adoção permaneceu adormecida nos corações do casal.

Família de Ingrid

Da esq. para dir.: Taynara, 15; Andreia, 14; Rafael, 23; Marcos, 57; André, 9; Ingrid, 48; Christopher, 12; Aryanne, 28; Carolynne, 24; Emily, 10.

Inadotáveis

Quando Rafael já era adolescente e as meninas já estavam começando a enveredar pela independência, seguindo com suas escolhas de estudo, profissão e relacionamentos, as demandas de tempo e energia para a criação dos filhos naturalmente diminuiu. Com isso, a vontade de crescer a família e, de alguma forma, ser mais relevante na vida das pessoas foi ressurgindo, tímida. Certa vez, enquanto navegava pela internet, Marcos se deparou com uma das inúmeras fotografias chocantes que retratam a vida das crianças no Iraque. Na imagem, um menino chorava ao lado de um soldado. Sensibilizado com toda uma geração de crianças cujas vidas são brutalmente afetadas pela guerra, a intenção imediata foi buscar programas de apoio em que ele e a esposa pudessem ser voluntários, auxiliando as crianças iraquianas por lá.

Enquanto amadureciam a ideia, um passeio pela Rua XV, uma das principais ruas de Curitiba (PR), onde moram, mudou o rumo de suas intenções. O casal foi atraído por uma série de cartazes com pequenos textos, que contavam histórias de vida de crianças órfãs. Em cada texto, uma criança se descrevia, contando como era, o que gostava de fazer e, por fim, pontuava “um problema”: tinha irmãos; era já quase adolescente; era soro positivo; ou deficiente física. Ou seja, eram crianças que não apresentavam o perfil buscado pela maioria dos pais que querem adotar. Os cartazes, feitos por uma ONG relacionada à adoção de crianças e jovens, as indicavam como “inadotáveis”. Era hora de contrariar isso.

A adoção

O papo sobre adoção nunca ficou restrito aos diálogos do casal. Participantes ativos em projetos sociais, Ingrid e Marcos sempre envolveram os filhos nessas atividades e discussões. Não foi grande surpresa, portanto, quando o assunto foi se tornando frequente e a família deu o primeiro passo na jornada da adoção: buscou a Vara da Infância para saber mais sobre o assunto. Diferente da maioria das família que deseja adotar, a família de Ingrid não tinha restrições em relação às crianças e estava disposta, inclusive, a adotar duas ou três crianças que fossem irmãos. Foi assim que surgiu o convite para o encontro que mudou suas vidas: um grupo de cinco irmãos que estava em uma das casas-lar de Curitiba aguardava adoção.

Mas pera aí! Cinco? A princípio, os juízes consideraram possível para estes irmãos a chamada adoção compartilhada. Neste modelo, as crianças são adotadas por duas famílias e, embora vivam em casas separadas, encontram-se regularmente a fim de manter os laços. Dessa forma, pensou o pessoal da Vara da Família, a família de Ingrid poderia adotar parte das crianças do grupo.

A primeira visita à casa-lar trouxe a Ingrid um sentimento parecido com aquele que já havia experienciado nas três vezes que se dirigiu à maternidade para dar à luz seus filhos biológicos: uma mistura de expectativas, receios e um coração transbordando de amor. Enquanto Ingrid conversava com Tainara, a mais velha das crianças, na época com 10 anos, os filhos e o esposo brincaram com os pequenos. Quando eu os vi realmente, eu fiquei com medo de não dar conta, confessou Ingrid ao comentar que as crianças mais novas eram enérgicas e não paravam um segundo.

Família de Ingrid

Quatro anos já se passaram desde o processo da adoção, em 2014.

Mas o susto inicial passou rápido e a Taynara, a Andreia, o Cristopher, a Emily e o André logo começaram a conhecer melhor a Ingrid, o Marcos, a Aryanne, a Carolynne e o Rafael. As visitas e interações se tornaram frequentes e a conversa precisava rumar para uma decisão: adotariam os cinco? A gente não teve muita dúvida. Uma das coisas, depois que saímos de lá e a gente sentou e conversou os cinco, foi de que ou a gente adotava os cinco ou não adotava ninguém, contou Ingrid. A adoção havia iniciado.

Os porquês

Em 2013, durante o ano em que apadrinhou as crianças, a família seguiu em paralelo com o processo de adoção. Rígido, demorado, porém de extrema importância, o processo conta com inúmeras visitas a psicólogos e entrevistas aprofundadas.

Foi em um desses papos que Ingrid se deu conta da razão pela qual a adoção sempre foi um caminho que faz sentido pra ela. Ela contou como sua mãe havia engravidado cedo e se separado do marido quando Ingrid tinha 1 ano de idade. Sem vínculo com o pai, ela foi criada pela mãe, até que quando tinha cinco anos de idade, recebeu a notícia: sua mãe iria se casar novamente com o rapaz que namorava. A primeira coisa que eu fiz quando eu encontrei de novo com esse namorado da minha mãe foi perguntar se eu podia chamá-lo de pai, conta Ingrid, que acabava sentindo falta da presença paterna. Enquanto ela contava sua história de vida para a médica psiquiatra que a atendeu, a ficha foi caindo aos poucos: ora, ela também havia sido, de certa forma, adotada!

Entender que no coração há espaço para dois pais ou duas mães foi uma das coisas que facilitaram a vida de Ingrid ao receber o grupo de cinco irmãos e lidar com as dificuldades à medida que apareciam – de certa forma, ela já esteve nessa posição antes. Apesar de terem construído a relação com as crianças ao longo de um ano de apadrinhamento, a ida definitiva para casa sempre traz emoções dos mais diferentes espectros e, nesse caso, também causou impactos de ordem prática.

O dinheiro antes gasto com convênio médico foi redirecionado para a compra de alimentos, a casa precisou de mais camas e a escola do bairro precisou se virar para conseguir as cinco vagas para as crianças, que ficaram conhecidas também no postinho de saúde e em todos os grupos de amigos da família. A decoração da casa também sofreu um bocado, mas Ingrid não liga muito. Eu acho muito mais bonita a minha mesa quando estamos todos reunidos, afirma, orgulhosa da família.

Passo a passo: Adoção

1a fase: Habilitação

Duração estimada: 9 meses

  1. Busque orientação na Vara da Infância de sua cidade;
  2. Preencha o requerimento de habilitação de adoção, que deve ser entregue junto com documentos de identificação;
  3. Frequente grupos de apoio à adoção. É necessário que você entenda a jornada da adoção e tenha certeza de que está pronto para isso;
  4. Uma visita da equipe técnica vai definir se você possui condições socioeconômicas para prosseguir com a adoção;
  5. Entrevistas com os psicólogos são feitas com todos os membros da família;
  6. Aguarde a sentença do juiz. Se positiva, você será incluído no Cadastro Nacional de Adoção (CNA).

2a fase: Adoção

Duração estimada: 6 meses

  1. Aguarde o contato da Vara da Infância sobre a disponibilidade de crianças dentro do perfil escolhido;
  2. Se houver recusas aos convites feitos para conhecer crianças, você poderá ter seu cadastro inabilitado;
  3. Depois de conhecer a(s) criança(s), há um estágio de convivência, para que ambos se conheçam melhor;
  4. É possível entrar com o pedido de guarda provisório da(s) criança(s), com duração de 180 dias;
  5. A inserção da(s) criança(s) na nova família é avaliada por uma equipe técnica;
  6. O Ministério Público posiciona-se e o juiz pode emitir a sentença para o pedido de adoção.

Vissicitudes e alegrias: tudo é aprendizado

Ingrid, Marcos, Ariane, Carolina e Rafael sabiam muito bem que trazer cinco crianças para casa não seria moleza. Em 2014, feitas as adaptações na rotina e na casa, iniciou-se uma nova fase, em que os laços se estreitaram um bocado a mais e os aprendizados com a turminha foram muitos. “Uma criança que ficou cinco anos com a mãe biológica, é retirada, fica três anos na casa-lar, vai pra uma nova família. E aí toda essa mudança. É uma mistura de sentimentos, de raiva, de medo, de expectativas”, pondera Ingrid, que decidiu até mesmo voltar para a faculdade a fim de entender e lidar melhor com as dificuldades dos pequenos. Desde então, Ingrid estuda Pedagogia e já mergulhou a fundo para entender os mais variados tipos de transtornos e dificuldades de aprendizado.

Assim como em qualquer família, na mesa do jantar há desentendimentos e frustrações, mas também alegrias, partilha e comemorações. O que faz a diferença é como cada família lida com isso.

Para Ingrid, o principal desafio está em ter a paciência para entender o tempo de cada um. “Nenhuma criança vem amando você. Isso vai ser construído”, afirma. Assim como em qualquer relacionamento, não adianta apressar o tempo de ninguém – ainda mais se tratando de crianças que tiveram os conceitos de amor e de confiança quebrados. Com os filhos mais velhos, que chegaram a criar laços com a mãe biológica, o processo é ainda mais difícil. Mas como bem aprendeu Ingrid, o coração é grande e sempre tem espaço para mais uma mãe ou mais um pai. “É um construir diário e constante e até hoje a gente tá fazendo isso”, conclui.

Acolhimento

Nem todas as famílias, no entanto, conseguem ter o discernimento, estrutura e companheirismo necessários para seguir pela jornada da adoção. Não à toa, os números de devoluções de crianças adotadas no Brasil tem aumentado nos últimos anos. “Eu vi pais dizendo que não queriam nem pegar a criança porque a técnica disse que a aquela criança não teria capacidade de fazer uma universidade. Eu vi pais devolvendo filhos porque era um bebê e ele chorava demais à noite. Eu vi coisas assim tão bizarras, que não justificam uma devolução”, contou Ingrid. Para ela, uma das principais razões que levam aos desentendimentos familiares está na expectativa que os pais colocam sobre os filhos – adotivos ou biológicos – e é categórica ao afirmar: “Não é responsabilidade dos filhos realizarem sonhos dos pais”.

Segundo números do Cadastro Nacional de Adoção (CNA), só em 2016 foram realizados e concluídos 1.476 processo de adoção. Entretanto, de acordo com o Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), estima-se que 10% das crianças adotadas sejam devolvidas.

Durante o primeiro ano em que as crianças foram em definitivo para a casa da família, as dificuldades não foram poucas. E Ingrid se sentia um tanto sozinha na batalha. “Eu não podia dizer que tava difícil. Porque as pessoas simplesmente diziam pra mim ‘uai, por que você foi arrumar sarna pra se coçar? Por que você foi adotar?’”. Com o apoio de uma psicóloga, conseguiram juntos vencer as questões que à medida do tempo apareciam e Marcos e ela decidiram usar essa experiência para auxiliar outras famílias.

Atualmente, por meio da ONG Chesed – Pais por Adoção, eles promovem rodas de conversa entre uma rede de pais que adotaram crianças. O intuito é auxiliar no processo de pós-adoção. Com o telefone disponível 24h para auxiliar em situações de emergência, eles buscam trazer respaldo e orientação para que as famílias consigam viver de forma equilibrada e feliz.

Ser mãe

Prestes a se tornar avó – a mais velha, Ariane, recentemente anunciou a gravidez! –, Ingrid compartilhou conosco alguns dos preceitos que levou em conta na criação dos filhos mais velhos e que repete com os pequenos – que hoje em dia não estão mais tão pequenos assim!:

  • Seja simples e não espere nada em troca;
  • Ensine valores que realmente são importantes pra se viver bem em sociedade, como respeitar o próximo e ser honesto;
  • Não espere que seu filho vá suprir todos os teus sonhos e carências;
  • Curta cada etapa! Cada etapa tem um desafio – tem tristezas e alegria – e não existe “fase pior”;
  • Amar não significa dar tudo ou deixar tudo. Amar significa dar tempo ao seu filho;
  • Não terceirize a educação e a criação. Quando você decide ser mãe, você precisa investir nesse seu papel, que é eterno.

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Fotos: Arquivo Pessoal


Bruna Rasmussen
Bruna escreve para a internet desde 2008 e tem paixão por consumir informação e descobrir coisas. Adora gatos, inovação e é curitibana – fala “duas vinas”, mas dá “bom dia” no elevador.

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