Matéria Especial Hypeness

Mãe não é ‘tudo igual’: Ela confronta o mundo para ilustrar a maternidade nua e crua

por: Bruna Rasmussen

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Foi na sala de espera de uma unidade de saúde que a designer e ilustradora Thaiz Leão, na época com 23 anos, descobriu que estava grávida. Sem saber se poderia confiar em um simples teste de farmácia e sem ter a quem recorrer, buscou entre os profissionais da saúde a primeira resposta para um turbilhão de dúvidas e questionamentos que surgiam. O máximo que conseguiu, entretanto, foi ter a notícia de sua gravidez comunicada em alto e bom som para todos os outros vinte pacientes que aguardavam atendimento e ouvir da assistente social que ela, ao aceitar a situação da gravidez nesse formato, estaria acabando com a própria vida. De certa forma, a assistente social estava certa: a vida de Thaiz estava prestes a acabar no formato que ela conhecia. Iniciava-se uma jornada intensa de embate com ela mesma e com o mundo.

A maternidade era um lugarzinho gostoso pra se pensar no futuro. Mas aí o lugarzinho no sol já era trevas.” Bolsista em uma faculdade de São Paulo (SP), Thaiz trabalhava como estagiária em uma agência de publicidade e estava em um momento de vida que estava longe de ser considerado ideal para uma gestação. Sem estabilidade financeira e sem estar em um relacionamento, a notícia da gravidez caiu como uma bomba. Tanto ela quanto o pai da criança, um amigo com quem passou uma noite apenas, precisaram absorver o baque e, aos poucos, começaram entender as mudanças que isso implicaria às vidas dos dois.

Embora defenda a possibilidade do aborto e entendesse, à época, que sua situação de vida não se traduzia no momento mais favorável para ter um filho, Thaiz decidiu seguir com a gestação e abraçar essa mudança. Foi aí que a realidade começou a dar seus primeiros tapas e toda a romantização da maternidade se esfacelou.

A violência é institucionalizada

Assim como a assistente social, a faculdade onde Thaiz estudava repudiou sua escolha de ser mãe naquele momento. Sem proteção alguma da instituição de ensino em relação à sua gestação, Thaiz precisou contar com a boa vontade dos professores para conseguir negociar prazos e faltas. Afinal, dias de indisposição, dores e enjoos começaram a se tornar frequentes. Todas as exceções que lhe foram concedidas foram sempre extraoficiais. Manter em dia as demandas da faculdade enquanto uma vida se desenvolvia em sua barriga e a cabeça era tomada por receios e dúvidas não foi tarefa fácil.

Mas os tapas continuaram também em outras esferas. O primeiro deles, aliás, foi dado junto com a notícia da gravidez. Na unidade de saúde, em vez de acolhimento, ela teve sua condição exposta ao mundo e brutalmente desvalorizada. Sem ser encaminhada a uma psicóloga e à mercê de informações com fundamentação questionável na internet, Thaiz recebeu um atestado de quatro dias, a fim de que, conforme orientação da assistente social, pensasse sobre o que iria fazer de sua vida.

Branca, universitária e, ainda que com dificuldades, apta para se bancar na classe média, Thaiz teve uma experiência péssima de apoio por parte do Estado. “Imagina como não é com as outras?”, questiona ela, referindo-se às mulheres negras e pobres. Nos grupos de apoio às gestantes, Thaiz era uma das poucas desacompanhadas. Tendo aberto sua condição de mãe solo, olhares fulguravam preconceitos e julgamentos. Ela só queria acolhimento e informação.

Com a barriga crescendo e a decisão tomada, era hora de comunicar no trabalho sobre sua situação. Foram três dias de preparação e ansiedade, já quase certa da resposta que receberia do chefe. Afinal, todo mundo sabe que gravidez e filhos ainda são encarados como problemas irresolúveis no mercado de trabalho. Por parte do chefe, foi surpreendida por uma recepção calorosa e entusiasmada, diametralmente oposta ao esperado.

Mas dos colegas, encarou uma discriminação velada: “uma pessoa inteligente como você não faz isso consigo mesma”, diziam. No supermercado, na padaria e no banco, estar grávida e não ter um homem do lado é o gatilho certeiro para despertar olhares de pena. “Os outros apontam você como falha, como erro”, conta Thaiz, que enfrentou essa situação até quando foi comprar meias para o enxoval do filho.

Já a violência obstétrica, velha conhecida das mães, Thaiz conseguiu driblar ao optar pelo parto normal e domiciliar. Foi um tratamento humanizado e respeitoso para a vinda do Vicente, que hoje já está com 4 anos.

Toma que o filho é teu

Thaiz e o pai de Vicente eram somente amigos quando a gravidez aconteceu. Não havia relacionamento romântico e muito menos sério. Contudo, ele era o pai. No início, ambos acordaram seguir com a gravidez porém, logo nos primeiros meses, ele começou a se questionar se realmente queria o filho e “ficou confuso”. Em uma atitude que deixou Thaiz estarrecida, ele decidiu “abortar” o filho por sua parte. Sem chão, ela ouviu reações conformistas da família e de amigos, como se a atitude dele fosse normal e já esperada. Restava a ela tentar cobrar judicialmente pelos direitos da criança a, pelo menos, receber uma pensão.

A Justiça, contudo, não tem a força de cobrar afeto. “Eu não tenho como cobrar que ele seja um bom pai. Só ele pode se cobrar de ser esse cara”, afirma. Thaiz critica ainda o próprio posicionamento da Justiça frente à questão financeira da pensão, já que a conta é sempre feita para se chegar a um número que não prejudica a vida do pai e nunca pelo número que garantiria boas condições à criança. O processo de ser abandonada na jornada da maternidade foi traumático, mas vencido.

Contudo, poucos meses antes de Vicente vir ao mundo, o pai decidiu voltar atrás. Professor de ioga, ele refletiu que não era certo ensinar ioga às pessoas e não ensinar a vida a seu próprio filho. Consciente da atitude errada que havia tomado, disse estar aberto a retomar os laços. Com a confiança quebrada, o processo de reconquista de seu espaço como pai foi lento, mas hoje é um pai presente e um dos principais respaldos de Vicente.

Reconstrução: autoestima e lugar no mundo

A maternidade traz mudanças nas mais diferentes esferas da vida da mulher. Do corpo ao planejemento financeiro, tudo passa por uma revolução. E o círculo social também se transforma.

Após a chegada do Vicente, Thaiz reviu suas amizades, programas de lazer e até mesmo o tempo que tinha para cuidar de si. “Comecei a economizar minhas amizades para ter energia para mim”, afirma. Com pouco tempo, disponibilidade e energia, ela deu espaço em sua vida para pessoas que entendessem suas necessidades, vulnerabilidades e configuração familiar.

Estando em uma posição em que não era compreendida nem pelos conservadores, que a julgavam por ser mãe solo, nem pelos liberais, que a questionavam recorrentemente sobre a escolha de ter seguido com a gravidez, Thaiz demorou a se reposicionar em um espaço de segurança, onde pudesse ser ela mesma. Hoje, ao lado de amigas que são mães e também das que não são, consegue manter uma rotina pessoal um pouco mais equilibrada do que nos primeiros meses do nascimento do pequeno.

Com a maternidade, vem também a construção social de que a mãe precisa viver somente para o filho, deixando de lado suas amizades, diversões e até mesmo a vida sexual. Combatendo as ideias de mãe perfeita, Thaiz precisou aprender a se autorregular. “Eu tive que fazer essa construção de autoestima pra conseguir encarar e sobreviver.

Nem todo herói usa capa (ou sai inteiro da batalha)

Mantendo distância da idealização de mundo cor de rosa da mãe perfeita, Thaiz é clara ao afirmar que uma boa mãe é aquela que corresponde às expectativas que vêm de dentro e não de fora. E esse é o tipo de mãe que mais é criticada. “É jogar a real com a vida, não criar projeção irreal, não mostrar pro mundo uma mulher que a gente não é e criar essa ilusão que tá tudo bem, de que a gente tá dando conta, de que tá tudo certo quando não tá, quando tá difícil, quando a gente deita todo dia muito cansada, muito deprimida”, explica.

O processo real, cru, de ser mãe não é glamoroso, e sim preenchido por exaustão, dúvidas e responsabilidade. Durante o primeiro mês do Vicente, ela passou a maior parte dos dias em casa, tentando se recuperar do impacto físico da gestação e dos cuidados ao bebê. Com privação de sono, chegou a ter alucinações. “Eu era um corpo completamente exausto”, diz.

Mas mesmo assim, Thaiz aprendeu a lidar e a abraçar o que ela chama de bruxa: a mulher que abre o jogo sobre a maternidade e confessa que nem tudo são rosas. Para que ela se tornasse a mulher que queria ser, Thaiz teria de mudar a relação do mundo com essa bruxa e humanizá-la.

“O tempo se amassa em ciclos e processos e cada cantinho é bonito por si só.”

Ainda no primeiro mês de vida do Vicente, no ápice de seu cansaço físico e mental, Thaiz criou uma espécie de ritual para tentar entender onde estavam seus pés no mundo. Todos os dias, antes de entrar no banho, ela parava em frente a um grande espelho que tinha em seu banheiro. Hipnotizada, ela ficava alguns minutos tentando decifrar a mulher cansada, desesperada e cheia de olheiras que enxergava. “Eu não fazia ideia de quem eu era”, desabafa.

Mães solo, mas juntas

Certa noite, depois de trocar olhares com o espelho, sentou-se no sofá para assistir televisão. Com receio de cochilar, deixou a babá eletrônica próxima ao ouvido e esticou as pernas para relaxar. Durante os comerciais, Thaiz começou a rir. Ela se deu conta de que a figura de mãe mostrada na televisão, – aquela mãe branca, de classe média, que faz pilates, cuida da casa, cuida do bebê perfeitamente, saí com as amigas e dorme bem – essa mãe não existe; pelo menos, não na realidade de milhões de mães brasileiras. “E eu ficava olhado para aquela ‘mina’ e eu me pegava rindo”, conta.

Nessa noite, ela venceu o cansaço, abriu o computador e começou a desenhar. O resultado foi uma série de tirinhas ácidas e bem-humoradas que contavam a história de outra ‘mina’: aquela que ela via no espelho. Foi aí que começou o projeto da Mãe Solo.

Postadas na rede social de Thaiz, as tirinhas começaram, de forma orgânica, a fazer sentido para muitas outras mães. Uma amiga a incentivou a criar uma página para organizar as ilustrações e, então, milhares de outras mães solo encontraram na arte de Thaiz eco para os percalços da maternidade. Seguras, naquele ambiente online, começaram a trocar experiências e o que era um conteúdo digital de humor para que a Thaiz extravasasse suas emoções foi se transformando em espaço de acolhimento coletivo.

“Foi tipo o mar. Eu fui porque eu queria entrar. E aí o mar me levou”

O projeto Mãe Solo completou quatro anos, assim como o Vicente. Hoje, Thaiz comanda uma fase de transição, em que o objetivo é fazer com que o projeto se sustente, transformando-se em ONG – uma campanha para levantar fundos entre as mulheres da rede foi criada recentemente.

Para a organização, a designer, ilustradora e mãe imagina dois braços: um de produção conteúdo sobre a maternidade real e o outro, um braço de acolhimento, que supra necessidades das mães e abarque sua diversidade. “Esse é o sonho da mãe solo hoje: é criar uma revolução, é criar um novo lugar pra se ser mãe. hoje, amanhã, e que daqui a quatro gerações já seja outra história

E sobre mãe ser ‘tudo igual’?

É uma ilusão achar que toda mãe consegue tar na mesma. A gente não tá na mesma. A gente tem muuuita diversidade no nosso meio. Somos todas mulheres. Somos todas milhares, milhões de mulheres diferentes. A maternidade não une a gente no mesmo pacote de farinha”, afirma.

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Foto: Alexia Santi

Ilustrações: Thaiz Leão/Mãe Solo


Bruna Rasmussen
Bruna escreve para a internet desde 2008 e tem paixão por consumir informação e descobrir coisas. Adora gatos, inovação e é curitibana – fala “duas vinas”, mas dá “bom dia” no elevador.

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