Matéria Especial Hypeness

Mãe não é ‘tudo igual’: grávida na adolescência e mãe solo, ela deu às filhas uma segunda mãe

por: Bruna Rasmussen

Eu aprendi que mães têm uma força inimaginável, que têm poderes sobrenaturais, que têm dons que a gente não imagina quando a gente não tem filho.” A analista de marketing Adriana de Paula Moura, 34 anos, teve esse aprendizado logo cedo, quando os sonhos e a resiliência ainda estavam se formando. Grávida aos 15 anos, ela foi mãe solo por quase uma década e, hoje, divide as alegrias e percalços da maternidade com a gerente de projetos Adriane de Freitas Ferreira, 38, com quem mantém um relacionamento homoafetivo há seis anos.

Mãe adolescente

Enquanto ainda explorava a vida e suas possibilidades, Adriana se descobriu grávida. Vinda de uma família evangélica, logo se casou com o rapaz que namorava, cinco anos mais velho. O medo de ter uma outra vida para cuidar naturalmente a estarreceu. Para Adriana, não saber ao certo o que vinha pela frente era o principal desafio a ser vencido.

Laura, 17; Adriana, 34; Luana, 19.

Com respaldo da família, começou a se dar conta daquilo que hoje gosta de chamar de superpoderes: “Quando eu engravidei foi um momento complicado porque eu não sabia o que esperar. Mas depois que a primeira filha nasceu, e eu realmente me tornei mãe, a partir daquele momento eu não tive mais medo de nada. Tudo o que viesse em relação a elas, eu enfrentaria sem problema nenhum. E foi o que aconteceu.”

Sem se intimidar com as dificuldades de ter sido mãe em idade tão jovem, Adriana engravidou novamente. Mas ainda havia uma vida inteira pela frente e havia nela espaço e tempo para crescer em outras esferas além da maternidade. Vislumbrando rumos diferentes, ela e o então marido decidiram pelo divórcio.

Mãe solo

Por quase uma década, a família eram as três: Adriana, Luana e Laura. Embora sem grandes desentendimentos entre o casal, o pai das meninas optou por se afastar. As visitas rarearam e a presença paterna precisou ser preenchida também por Adriana.

Engajada em seu papel duplo, de mãe e pai, ela se orgulha de ter conseguido estar sempre presente nas festas e comemorações da escola, além de ter destinado muita energia e tempo na criação e educação das filhas. Sempre buscando ter um diálogo aberto, elas lidaram com dificuldades e aprendizados, o que alimentou um sentimento de companheirismo entre mãe e filhas. Era engraçado porque quando elas iam fazer algum desenho que se referia ao pai, elas me desenhavam”, conta Adriana.

Mãe em dobro

Nas jornadas entre o trabalho e a maternidade, Adriana ainda tinha o sonho de fazer uma faculdade. Foi então que decidiu estudar Marketing e, mais do que a realização profissional, encontrou um grande amor. Aos 28 anos, com duas filhas, trabalho e faculdade, ainda conseguiu dar a chance para a vida mudar pra valer: estava apaixonada por uma mulher.

Adriana e Adriane, colegas de turma, acabaram engatando um romance que, em um piscar de olhos, viria a ser um casamento. Ambas sabiam, entretanto, que o “sim” mais importante não viria do casal, mas de Luana e Laura. Embora apaixonada, Adriana nem titubeia ao afirmar que abriria, sim, mão do relacionamento pelas filhas. “Eu senti medo. Medo de elas rejeitarem o que eu tinha escolhido. Medo de elas não me apoiarem. Medo de elas não ficarem do meu lado. Medo de, naquele momento, meu papel de mãe ser desfeito porque eu tinha feito uma escolha pra minha vida que iria afetar muito a vida delas”, conta Adriana ao relembrar dos pensamentos que tinha antes de conversar com as filhas sobro o namoro.

Adriana e Adriane, com Laura e Luana, na formatura da faculdade de Marketing, onde se conheceram.

Para seu alívio, contudo, a recepção não poderia ter sido melhor. Os anos de companheirismo e diálogo aberto permitiram às filhas, ainda adolescentes, entenderem que a felicidade da mãe era importante e que o fato de estar se relacionando com uma mulher não mudava isso em nada. Muitos papos e telefonemas rolaram antes de Adriana se sentir confortável para apresentar as filhas à namorada.

E mais uma vez, houve só sorrisos! “Foi um momento muito legal, muito divertido e muito cheio de carinho. Foi muito legal porque elas já se gostavam, de tanto que eu, a ponte entre elas, falava tanto da Adri pras minhas filhas quanto das minhas filhas pra Adri. Foi ali que a gente realmente viu que seríamos uma família pra sempre.” Embora Adriana seja considerada pelas meninas como a “mãe oficial”, Adriane construiu seu vínculo de segunda mãe e, por ela, Luana e Laura têm muito respeito e carinho.

Adriane faz parte da família desde 2012.

Mesmo com a quantidade de crimes e atos de violência que ocorrem diariamente contra casais homoafetivos, Adriana, Adriane, Luana e Laura vivem em uma relação familiar tranquila, sem enfrentar situações de preconceito com frequência. “Quando escuto algumas notícias sobre crimes homofóbicos, fico bastante chocada. E parece que eu vivo num mundo um pouco blindado. Eu quase não sofro preconceito. Raramente eu vejo alguém torcendo o olho ou falando alguma coisa.”

É, Adriana, quem sabe o mundo esteja, aos pouquinhos, mudando e as pessoas entendam que independente do formato, uma família precisa mesmo é de amor e respeito para ser feliz.

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Fotos: Arquivo Pessoal/Adriana de Paula Moura


Bruna Rasmussen
Bruna escreve para a internet desde 2008 e tem paixão por consumir informação e descobrir coisas. Adora gatos, inovação e é curitibana – fala “duas vinas”, mas dá “bom dia” no elevador.

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