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Marcha da Maconha: 10 anos de luta pela legalização e pelo fim da guerra às drogas

por: Brunella Nunes

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No último sábado (26), a Marcha da Maconha celebrou seus 10 anos em São Paulo em grande estilo. No meio da fumaça e sob a luz do sol na Av. Paulista estavam cerca de 100 mil pessoas engajadas com o movimento autônomo que pede pela legalização e descriminalização da cannabis sativa, aquela mesma, que já mobiliza bilhões de dólares no Estados Unidos e que fez muitos brasileiros migrarem para o Uruguai.

Aos gritos de “ei, polícia, maconha é uma delícia“, pessoas de todas as idades, classes sociais, gêneros, raças e crenças foram às ruas clamarem o que já vêm clamando há uma década. A diferença nesse tempo todo é que enquanto a legalização do uso medicinal (especialmente para casos de câncer, HIV, epilepsia, Parkinson e esclerose múltipla) e recreativo não acontece, o país perde cada vez mais vidas em sua falida política de guerra às drogas. O prejuízo é mil vezes maior do que legalizar as substâncias ilícitas.

Diversas faixas e placas alertavam as consequências violentas do narcotráfico, que passa por, entre tantos problemas, a força policial desnecessária, o encarceramento em massa, a perda de vidas – especialmente da população negra -, e as medidas opressoras que ferem a liberdade de ser e existir. Segundo dados do Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), cerca de 80% da população carcerária está presa por crimes contra o patrimônio ou por pequeno tráfico de drogas, deixando insustentável o argumento de a população prisional está onde está por conta de crimes violentos. Em torno de 90% das mulheres encarceradas são negras e 90% das presas cumprem pena por tráfico de drogas, seja para consumo próprio ou em grande quantidade. As razões para o envolvimento são inúmeras, mas a violência com certeza começa pelo Estado, que não oferece condições mínimas para o desenvolvimento humano nas periferias e nos morros.

O Bloco pelo Desencarceramento na Marcha da Maconha de SP estava lá para defender a resolução não-violenta de conflitos, a suspensão imediata de qualquer verba para a construção de novas cadeias e um programa voltado para a redução da população prisional, além da implementação de políticas de acolhimento social de jovens e adultos egressos.

A passeata pacífica, inclusiva e interseccional seguiu, a partir das 16h20, do Museu de Arte de São Paulo até a Praça da Sé. Entre os participantes estava Rogério Alves Miranda, que junto com seus amigos conversou um pouquinho com o Hypeness sobre suas motivações. “Antes a gente tinha que pular em terreno baldio pra fumar maconha escondido. E não tinha uma situação assim, de você poder falar abertamente.

Hoje você tem que discutir o tema sim e ser a referência dentro da sua casa ao invés de omitir. Não dá mais. Tive muitos amigos que morreram na favela por conta do tráfico e da criminalização”.

Ele, que é pai de dois filhos, uma de 20 e um de 12, fez questão de abrir o diálogo em casa. Meu filho sabe que eu fumo, sabe como é, acompanha meu dia a dia com meus amigos. Eu converso com ele e é ele que vai definir suas escolhas. Ele vê vários caminhos. Também não adianta você achar que é fodão só enchendo a cara e falando merda para os filhos”, argumentou, levantando a questão do álcool ser legalizado. Aliás, a bebida coloca o Brasil em 5º lugar das Américas em número de mortes.

“Eu vim porque eu sou desde muito cedo lutador por uma causa. Acho que não preciso ficar escondido por uma coisa que sou adepto e que posso fazer sem prejudicar ninguém. Hoje, se um policial te aborda e considera que você está favorecendo o crime é porque você não tem uma outra saída. Não te dão uma outra opção” - Rogério Miranda

Com madeixas roxas, a artesã Ilka da Rocha Porto não passava despercebida pela Marcha. Ela, que tem 65 anos (ressaltando que a idade está “só na cronologia”), faz uso da maconha há 51 anos. A única coisa que vejo de mudança nesse tempo é que a Marcha tem cada vez mais gente. As redes sociais libertaram muita gente. Mas as ideias de quem aprova as leis, cara…continuam as mesmas! Estou aqui para participar. Pra mim já está legalizado faz tempo, não é nem uma reivindicação. Eu só espero que legalize mesmo por conta dos hipócritas, mas o meu já está garantido.”

Nesta edição, a Marcha contou ainda com duas ótimas novidades: uma comissão de Cuidado Libertário pela Redução de Danos, focada em difundir informação sobre os direitos de usuários (para também evitar a ação policial antes, durante e depois do ato), e a “S.O.S bad trip“, uma Kombi preparada para acolher manifestantes que não estiverem se sentindo bem, a fim de ampliar os cuidados e a redução de danos com pessoas treinadas.

Vale lembrar que a Marcha da Maconha é um movimento mundial, com ações em diversas cidades do Brasil, como em Belo Horizonte, que tem a segunda maior passeata do país. Desde 2011, as manifestações são considerada legítimas pelo STF e não podem ser reprimidas pela polícia. Como já diria um dos hinos do Planet Hemp, os cães ladram, mas a caravana não para. Assim o bonde segue. Bolando ideias, apertando o beck e pressionando mudanças.

 

 

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Todas as fotos © Brunella Nunes e Fábio Feltrin


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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