Matéria Especial Hypeness

‘(Re)conhecendo a Amazônia Negra’, projeto fotográfico exalta negritude de pulmão verde do planeta

por: Kauê Vieira

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A floresta amazônica é uma das reservas naturais mais importantes do mundo. Com aproximadamente 5,5 milhões de quilômetros, ocupa 45% do território brasileiro. Alvo de uma série de transformações pelo chamado progresso, a Amazônia já perdeu 15% de sua exuberância para o desmatamento, que ceifa suas árvores para pasmem, a plantação de soja e gado.

Além da diversidade de fauna e flora, a região ficou conhecida por ser uma das principais habitações da população indígena do Brasil. De acordo com um senso realizado pelo IBGE em 2010, cerca de 310 mil indígenas vivem no pulmão verde do planeta. Os índios amazonenses podem ser divididos em seis troncos linguísticos: Tupi, Aruaque, Tukano, Jê, Karib e Pano.

Entretanto, qual é a contribuição dos negros na construção desse espaço? Na verdade pouco se sabe. É nesse sentido que nasce o projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências negras na floresta, que a partir de um ensaio fotográfico realizado por Marcela Bonfim retrata a influência de mulheres e homens negros e seus costumes nesta relação com a natureza e fé na região.

“Os azuis de Nicacia. Quilombo de Vila Bela. 2015”

“Os próprios personagens que construíram a partir das suas mãos e de seus ancestrais esta história; é a Voz de dona Nicácia, de dona Aniceta, de dona Tomazia, de seu Procópio, da dona Sônia, do Dú; do Bubu Johnson, do Isaías e de tantas outras histórias dentro dessa mesma história amazônica. Trata-se de uma proposta de narrativa, diferente desta que vemos e ouvimos circular pra cima e pra baixo, correspondendo apenas à versão e visão do colonizador”, conta orgulhosa em entrevista ao Hypeness Marcela Bonfim.

Apresentando ao grande público um tema fundamental para uma compreensão precisa das nuances formadoras da história do Brasil, o trabalho artístico capitaneado por esta fotógrafa negra se concentra especificamente em Rondônia, estado da região e Norte e vai na contramão de pesquisas que geralmente analisam a história dos negros do Sudeste e Nordeste.

Movimento político e artístico pelo reconhecimento da participação de negras e negros na formação do tecido sociocultural amazônico e brasileiro como um todo, (Re)conhecendo a Amazônia Negra está alçando voos cada vez maiores.

Recentemente as 55 fotografias selecionadas por marcela integraram uma mostra realizada na Caixa Cultural, localizada na Praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo. Para Marcela, que não se cansa de destacar o protagonismo dos rostos retratados, este é mais um grito de libertação de uma população que se nega em ter sua história apagada.

“Aquele espaço nos possibilitou a Voz. Acho que é a maior das importâncias desta experiência; essa Voz emitida a partir das 55 imagens e exibidas para um contexto que geralmente preserva em mente uma Amazônia formatada, “fetichizada”, exótica; onde muito se fala (e ouve), mas pouco se vive.  Foi como soltar um grito dentro de um silêncio que perdurou por séculos e omitiu inúmeras presenças e participações negras na ocupação e formação socioeconômica dessa floresta rotulada de Amazônia”, salienta.

“Menino da beira. Comunidade de Nazaré, 2015”

A população negra é parte essencial na história da Amazônia e começou seu caminho por volta de 1750, com o povoamento do Vale do Guaporé por negras e negros escravizados vindos de Vila Bela da Santíssima Trindade, no Mato Grosso. Isso se deu pelo fato do ouro e da construção do aparato colonial de defesa militar, conhecido como Forte Príncipe da Beira.

Depois disso, em 1870, escravizados de estados como Maranhão e Pará desembarcaram na região para a extração de borracha, minérios e metais, no que ficou conhecido como Ciclo do Ouro e Ciclo da Borracha. Em 2011, alguns séculos depois, a presença negra ganhou novas pigmentações e costumes com a chegada de imigrantes haitianos. Daí a relevância de um projeto com a visão dos próprios atores desta história.

“É um desafio estar fora desse eixo de escoamento e (orientação) difusão de conteúdo e produção; ao mesmo tempo que é um exercício de RESISTÊNCIA de uma crença num caminho que tem que ser trilhado AQUI, nessa terra! Essa terra me virou de ponta cabeça; me mostrou uma realidade que São Paulo com tantas luzes apagou de mim…Me apresentou a cor da minha própria pele e toda a carga de ancestralidade que esta cor preenche. Estar aqui, hoje, é a maior forma de aprendizado pra mim e pra essa Amazônia que também está aprendendo a Ser Negra!”

“Madona Negra. Porto Velho, 2015”

Satisfeita com a recepção positiva do (Re)conhecendo a Amazônia Negra, Marcela Bonfim destaca que os moradores retratados em situações cotidianas estão felizes da vida com os resultados e a penetração de suas histórias em outros ambientes. Ao contrário de muitos trabalhos por aí as pessoas que serviram de inspiração para o olhar da fotógrafa participam ativamente do processo, inclusive das celebrações.

“Elas e eles receberam (e ainda estão recebendo) com muita surpresa e alegria; acredito que poder se enxergar numa imagem exposta de maneira digna é algo que eles precisavam pra se sentir parte deste contexto. Ainda estou entregando os materiais constituídos desse processo e contando sobre a experiência que foi São Paulo. Até o fim do ano pretendo visitar uma boa parte dessa família que criei. Ela é grande demais e também muito diversa – essa é a principal mensagem que esse documento chamado “Amazônia Negra” quer passar.

Tão grande que os protagonistas estão em todas as partes. Tem gente nos quilombos, nas aldeias, na cidade; tem gente na rua, tem gente que se foi…tem gente no presídio e nas mais diversas condições dentro dessa floresta. O compromisso é grande. Às vezes me bate um desespero que não vou dar conta; gostaria de tê-los sempre por perto. Pois são eles que precisam falar!”

Mais que um registro fotográfico, o projeto é uma busca pessoal de Marcela Bonfim na descoberta do que significa ser mulher negra em uma país racista onde o negro ainda é colocado em posições subalternas. Sim, em tempos como estes é fundamental sublinhar a importância da representatividade, mais que isso é necessário utilizar a multiplicidade de vozes para que todos os pontos de vista possam ser expressados em uma nação que há mais de 500 anos se nega em reconhecer seu passado.

“Entidade. Quilombo de Vola Bela da Santisssima Trindade, Mato Grosso”

“Representatividade pra mim é ‘poder’. Nesse caso, o poder da voz que essas imagens sustentam e significam à cada história materializada. Hoje sinto essa representatividade como um movimento que vai dessas imagens pro meu ‘eu’ e do meu ‘eu’ pra cada imagem extraída em forma de aprendizados que venho alcançando ao passo do tempo.

Pra mim cada retrato representa uma entidade; um pedaço da minha própria história ressignificada a partir de uma câmera fotográfica que entregou aos meus olhos uma identidade Negra mais digna dentro dessa difícil realidade de cor chamada Brasil.

Eles me representam!

Pois são Eles que me ensinam todos os dias a ser Negra: essa ATITUDE que ultrapassa a Cor da Pele é a principal mensagem quando falamos de representatividade nesse processo de (Re)conhecimento…! O projeto neste aspecto vem como um veículo condutor que soma e compartilha – a partir das mostras – essas histórias e realidades, quebrando com um silêncio de mais de séculos de invisibilidade dentro da Amazônia!”

“A janela dos olhos de Catarina. Quilombo de Pedras Negras, 2016”


Se você se interessou em saber mais sobre esta iniciativa socioeducativa prepare-se pois os planos futuros são muito bons. Destaque para a circulação da primeira mostra nas unidades do SESC no Norte do Brasil. 

“Atualmente, iniciei pelo SESC, por meio do “Programa Amazônia das Artes”, uma grande circulação da primeira Mostra (que foi aberta no dia 21 de maio de 2016 – contendo 33 imagens dessa floresta que falamos) que vai percorrer pelos dez estados da Amazônia Legal (Amazonas, Acre, Mato Grosso, Piauí, Roraima, Pará, Maranhão, Tocantins, Amapá e Rondônia) nos próximos dois anos.  

Nessa nova fase, o desafio se torna mais interessante ainda, pois iremos apresentar estas Vozes da “Amazônia Negra” para a própria “Amazônia Negra”. Vivenciamos isso em Manaus/Amazonas no mês passado. O público foi incrível! Muito impactante! O Amazonas é um seio riquíssimo dessa Amazônia Negra.

A exposição teve uma repercussão muito satisfatória ao meu ver. Pude conhecer pessoas engajadas na pesquisa e na busca por esse (Re)conhecimento – que se colocaram à disposição, inclusive a maioria era negra, o que me agradou e marcou bastante por poder presenciar este protagonismo acontecer também na academia!

Caminhando nesta jornada, abriremos a 2ª temporada da Mostra em Rio Branco, no dia 23/05, às 19h, no SESC Acre, onde com certeza a troca de experiência com o público, mais a relação de empatia com os personagens vão trazer novo gás ao projeto e as ideias; daí posso arriscar em dizer que os planos também são como família, não param de crescer.”

Marcela Bonfim em registro de Maria Fernanda Ribeiro

Visite o site oficial do (Re)conhecendo a Amazônia Negra.

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Fotos: Divulgação/Marcela Bonfim/Maria Fernanda Ribeiro


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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