Arte

Sexo, rebeldia, juventude e revolução na celebração pelos 50 anos do musical Hair

por: Vitor Paiva

Uma grande obra de arte é capaz tanto de revelar tensões, urgências e feridas veladas da  sociedade em que está inserida, quanto de celebrar novas forças e realidades que emergem da epiderme social de uma época – e algumas são capazes de fazer as duas coisas.

Há 50 anos um elenco de jovens subia ao palco para encenar pela primeira vez em um grande palco um espetáculo de teatro que seria capaz de operar esses dois processos – de Nova Iorque para o mundo inteiro, empurrando e, ao mesmo tempo, significando a revolução cultural e comportamental que a juventude do final da década de 1960 protagonizava.

Quando Hair foi encenado pela primeira nos palcos da Broadway dia 29 de abril de 1968, os grandes musicais americanos eram ainda espaço majoritário da tradição e do charme recatado de suas produções – a contracultura, a denuncia, a realidade, a juventude, o sexo, as drogas, a revolução e o rock n’ roll passavam longe de seus enredos. Mas Hair, há 50 anos, mudou tudo.

Anúncio de Hair em cartaz na Broadway, em 1968

O espetáculo já havia tido uma primeira e mais discreta encarnação, alguns meses antes, em um pequeno teatro fora do grande circuito, entre os meses de outubro de 1967 e janeiro de 1968 – com certo sucesso de público, mas desprezo pela crítica. Foi sua estreia na Broadway, porém, que o colocou no horizonte do establishment artístico, cultural e político americano, e que estabeleceu o gritante contraste entre Hair e o resto do repertório teatral da época – os outros espetáculos em cartaz na Broadway quando da estreia de Hair eram Hello, Dolly!, O Homem de La Mancha (baseado em Dom Quixote), Funny Girl e Um Violinista no Telhado, todos exemplares e bem comportados musicais típicos.

Os autores James Rado e Gerome Ragni

Escrito por James Rado e Gerome Ragni – que também criaram as letras para as musicas de Galt McDermot -, Hair mostrou nos palcos não só a contracultura e a exuberante força do levante jovem e do movimento hippie de então, como também trouxe à ribalta a mais dura, controversa e violenta realidade política e cultural da época: a resistência contra a Guerra do Vietnã e a rejeição por parte da juventude às amarras e tradições familiares e comportamentais, que fizeram tantos jovens saírem de suas casas, abandonarem as ambições acadêmicas, profissionais e culturais que lhes estavam reservadas, e juntarem-se às comunidades e coletivos que prometiam um outro tipo de vida, apartado do capitalismo, do mercado, da competitividade, da individualidade e da violência. Paz e amor, o poder da flor, contra o mundo velho, por um mundo novo: esse também era o retrato que “musical tribal de rock e amor americano” representou.

Cartaz original de Hair

O espetáculo se passa em um parque no icônico bairro do East Village, em Manhattan, em Nova Iorque, no ano de 1967. Hair conta a história de um grupo de jovens hippies, vivendo em comunidade pela liberdade e o amor em nome da paz, porém sob a sombra e o temor da Guerra do Vietnã. É dentro desse contexto que se apresenta um cardápio de arquétipos hippies através dos personagens principais, como Berger, o líder da “tribo”, Sheila, a militante, a amável Crissy, o roqueiro Woof, e Claude, um doce jovem que está em vias de ser convocado para o Vietnã. A maneira como a “tribo” equilibra seus sonhos de um mundo mais pacífico e livre com a violência e as conservadoras exigências do mundo dito “real” permeia toda a trama, principalmente através do dilema do personagem Claude, ao redor da hipótese de resistir à convocação em nome de suas convicções, ou sacrificar seus ideais e possivelmente sua própria vida pelas demandas do mundo e de seus pais.

Elenco da montagem original americana

Alienação, desobediência civil, rebeldia e a própria força da juventude – que pela primeira vez na história se afirmava como um recorte social autônomo, singular e poderoso, evidentemente diferenciado das crianças mais em nada similar ao que se entendia como o mundo “adulto” – são temas fortes dentro do musical, mas a grande estrela do espetáculo e o que provavelmente realmente moveu Hair ao sucesso e à eternidade são mesmo suas músicas. Saiam de cena o estilo orquestral e o refinamento quase erudito das canções dos grandes nomes da história dos musicais americanos, como George Gershwin, Cole Porter, Oscar Hammerstein, Richard Rodgers, Leonard Bernstein e Stephen Sondheim (todos geniais, mas ainda em diálogo linear com a tradição) e entravam em cena, em Hair, a distorção, o rock, a psicodelia – a música que de fato os jovens produziam e consumiam na mesma época em que o espetáculo foi concebido e encenado.

Outra radical diferença eram os temas e assuntos retratados no espetáculo e principalmente nas canções. No lugar dos dilemas do amor ou de temas genéricos ou distantes, as canções de Hair traziam, sem pudores, desvios ou esconderijos metafóricos, a crua realidade da experiência jovem entre tais comunidades – em especial a violência, o sexo e as drogas. Na canção “3-5-0-0”, a letra é direta e reta: “Dilacerado por uma explosão metal/ preso em um arame farpado/ bola de fogo/ o impacto da bala (…)/ 256 vietcongs capturados (…)/ É uma guerra suja”.

Se o hino hippie “Aquarius/Let The Sunshine in” se tornou o grande hit advindo do espetáculo e ganhando as paradas de sucesso, é em “Sodomy” e “Hashish” que o repertório de Hair com mais força e contundência desafiava os conformes da Broadway e da própria cultura americana de então, em duas letras curtas porém em nada tímidas. Em “Sodomy” se canta: “Sodomia/ Fellatio/ Cunilíngua/ Pederastia/ Pai, por que essas palavras soam tão perversas?”. E a canção segue, como em um desafio, uma provocação e, ao mesmo tempo, um convite: “Masturbação/ Pode ser divertido/ Junte-se à sagrada orgia/ Kama Sutra/ Todo mundo!”.

Versão de “Sodomy” do filme de 1979:

Já em “Hashish”, o que vemos é também uma lista – no lugar, porém, de práticas sexuais, o que se declama são as mais diversas drogas consumidas pela “tribo” e por sua geração. “Haxixe/ Cocaína/ Maconha/ Ópio/ LSD (…)/ Cigarros/ Graxa/ Xarope/ Peyote/ Benzedrina (…)” – e a lista não parece ter fim.

Era, afinal, o amor livre e as drogas também como imperativos revolucionários entre os jovens, que identificaram-se por todo o ocidente com o propósito de realmente mudar a realidade, abdicar do poder velho que por tantas vezes havia quase realmente acabado com o mundo, e abrir espaço para novas forças, como a paz, o amor, o sexo, as filosofias orientais, a experiência comunitária, à expansão da mente, as drogas psicodélicas e a arte. Hoje pode tudo isso parecer ingênuo, mas muitas conquistas naturalizadas atualmente vieram de esforços dessa geração – como a última vez que um movimento concretamente desejou transformar o mundo em algo concretamente melhor.

O racismo era também um tema, não só na concepção e no enredo do espetáculo (com personagens negros tendo real importância e espaço dentro da trama) como na própria presença negra no palco: um terço do elenco de Hair era composto por atores e atrizes negras. Canções como “Colored Spade”, “Black Boys” e “Abie Baby” tratam de questões raciais.

Da mesma forma foi tratado pela primeira vez e com especial liberdade a questão do corpo e da nudez em um espetáculo. Talvez a mais icônica cena de Hair seja o encerramento do primeiro ato, quando grande parte do elenco se posta nu para a plateia, frontal e em desafio, mas ao mesmo tempo com alegria e leveza. A nudez era parte importante da cultura hippie, tanto como afirmação diante da repressão sexual, quanto como símbolo do naturalismo, da honestidade, da espiritualidade e da liberdade que tanto marcaram esses jovens dos anos 1960. A cena durava somente 20 segundos, mas se tornou motivo de controvérsia, escândalo, e celebração. Se a liberdade sexual era glorificada pelos hippies da época, ela também precisava ser apresentada e igualmente celebrada em Hair.

A famigerada cena de nudez na versão original

A montagem que estreou no final de abril de 1968 recebeu críticas intensamente positivas, e se afirmando como um permanente sucesso, mantendo-se em cartaz por quatro anos ininterruptos, até 01 de julho de 1972, após 1.750 apresentações. Hair se tornaria um marco internacional, sendo montado em diversos países ao longo dessas cinco décadas, sempre com força, sucesso e reconhecimento (e uma boa pitada de escândalo) de tal forma que é fácil supor que sempre exista, em algum lugar do planeta, desde então uma montagem de Hair em cartaz. Curiosamente o espetáculo que desafiava as tradições dos musicais e o próprio establishment cultural e comportamental como sua essência, se tornaria, ele mesmo, uma espécie de cânone, como uma das mais premiadas e reconhecidas produções em todos os tempos. O disco com as músicas do espetáculo se tornariam também um imenso sucesso, alcançando o topo das paradas americanas um ano depois da estreia do espetáculo.

Cenas da versão londrina do espetáculo, também de 1968:

No Brasil o musical foi montado pela primeira vez um ano depois da estreia americana, permanecendo por 9 meses em cartaz no teatro Bela Vista, em São Paulo, com um agravante contextual nada singelo: 1969 foi o início do período mais enrijecido e sombrio da ditadura militar, após o decreto do AI-5, em dezembro de 1968. Ainda assim, com irreverência e coragem, a versão brasileira do espetáculo iria trazer, entre os cabeludos que formavam o elenco por aqui, atores que se tornariam referências nacionais, como Ney Latorraca, Antonio Fagundes, Aracy Balabanian, Armando Bogus e Sônia Braga. Naturalmente o espetáculo no Brasil também foi um controverso e retumbante sucesso.

Acima, Sônia Braga na versão brasileira de Hair; abaixo, a cena de nudez em palcos brasileiros

Hair seria transformado em filme em 1979, pelas mãos do diretor Milos Forman, o que renovou seu público e garantiu ainda mais a imortalidade do espetáculo que espelhava a geração hippie. São, no entanto, os anseios, a luta e a afirmação juvenil, sentimentos perenes que atravessam as épocas e idades, sempre em contraste com o igualmente permanente, violento, desigual, racista e delirante conservadorismo que pauta nossas relações, que garantem a permanência de Hair no imaginário coletivo – um espetáculo que decidiu levar a honestidade sobre o momento exato em que foi concebido para os palcos, junto com o sonho de se criar algo radicalmente diferente do que sua época impunha para os jovens e até hoje. Sonhar por um mundo melhor e mais livre é um sentimento que jamais deve desaparecer, e que se faz lembrado toda vez que um novo elenco de Hair sobe ao palco.

Um dos elencos americanos de 1968 se apresentando na TV:

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© fotos: divulgação/reprodução


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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