Seleção Hypeness

10 livros de temática LGBTQI para serem lidos nesse mês de junho

por: Vitor Paiva

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A história da literatura é na prática também a história de uma literatura LGBTQI. São tantos e tão relevantes os nomes de escritores e escritoras LGBTQI que levantar uma lista dos grandes da literatura ou de grandes livros dentro de tal categoria poderia ser como simplesmente uma lista de alguns dos mais importantes livros em todos os tempos.

Basta lembrar sem maior esforço de escritores como Marcel Proust, Oscar Wilde, Walt Whitman, Truman Capote, Virginia Woolf, Gertrude Stein, Rimbaud, Mishima, Jean Genet, Jean Cocteau, Elizabeth Bishop, Pasolini, Emily Dickson e até Platão para entender a razão pela qual a ideia de de se nomear separadamente uma literatura LGBTQI suscita intenso debate.

Isolar, afinal, certos autores (e o mesmo debate existe ao redor da ideia de “literatura negra” ou “literatura feminina”) pode parecer diminuir as obras em questão – como se justificassem suas grandezas por conta do adjetivo. Ou mesmo reduzir as possibilidades e os sentidos do trabalho dos autores, como se as questões de tal universo fossem seu único campo de atuação. Para citar um exemplo óbvio e complexo, basta lembrar do personagem Riobaldo de “Grande Sertão: Veredas” para compreender a complexidade da questão.

Ao mesmo tempo, a afirmação de tal literatura é também um importante campo de afirmação da própria luta LGBT para além das páginas, servindo ainda como importante espelho para o leitor, em nome da representatividade nesse campo. Mas as questões permanecem: um autor precisa ter uma vida LGBTQI para produzir literatura do tema? E um autor ou autora homossexual ou trans precisa necessariamente ser reconhecido em tal gaveta, mesmo que sua literatura trate de outros temas?

Talvez hoje seja mais eficaz o entendimento de que a literatura LGBTQI é aquela que trata, em suas páginas, de uma experiência de vida LGBTQI, independentemente da orientação sexual ou da identidade de gênero pela qual o autor se identifique. Isso, assim, cria a possibilidade de um “livro LGBT” existir sem que o autor se torne um “escritor LGBTQI” necessariamente. Há quem prefira o termo “Literatura de temática LGBTQI” – e seja como for, trata-se de uma questão espinhosa que não chega a uma única conclusão, mas que vale o importante debate.

Seja qual for o sentido do rótulo, o fato é que grandes livros imersos no tema já foram produzidos – e, assim, separamos aqui 10 autores e 10 obras que representem uma parte importante da literatura LGBTQI no mundo e na história. Não se trata de uma lista definitiva, mas sim de uma seleção afetiva e ampla, um recorte que merece outros recortes ciente de que muitas outras obras poderiam constar nessa seleção – dando preferência a livros que justamente tratem de experiências LGBTQI. Outras listas podem e devem ser criadas, para que a representatividade e tais experiências de vida possam cada vez mais serem vistas como parte simplesmente da melhor literatura.

Moby Dick, de Herman Melville (1851)

Além de um colossal e brilhante clássico fundador da literatura moderna americana, Moby Dick é também pleno em tensões homossexuais subcutâneas ou mesmo diretas. Não seria exagero e nem é novidade apontar o personagem Queequeg como amante do narrador Ishmael. Um livro profundamente físico no retrato da relação entre os diversos homens isolados em um navio, Melville não se furta em sugerir a sexualidade efervescente na relação entre os personagens. Sendo o próprio autor homossexual, o livro é pleno em metáfora e simbolismo em muitos sentidos da própria sexualidade reprimida na difícil época vivida por Melville.

Herman Melville

A Volúpia do Pecado, de Cassandra Rios (1948)

Uma das mais vendidas autoras brasileiras (sendo a primeira a atingir a marca de um milhão de exemplares, em 1970), tendo mais de 36 livros censurados durante a ditadura, Cassandra Rios tratava sem pudores de temas eróticos, com especial destaque para a homossexualidade feminina. Considerada uma autora menor pela crítica, Cassandra definiu o tratamento à sua obra de forma taxativa: “Se o homem escreve, ele é sábio, experiente. Se a mulher escreve, é ninfomaníaca, tarada”, ela disse. O machismo e seu imenso sucesso popular acabaram isolando-a da aceitação acadêmica, mas o fato é que ela foi uma das primeiras escritoras a tratar sem tabu de taras, preferências sexuais e do prazer feminino – como faz em A Volúpia do Pecado, seu livro de estreia, que trata do amor lésbico sem pudores nem juízos.

Cassandra Rios

Uivo, de Allen Ginsberg (1956)

O longo poema publicado pelo poeta americano Allen Ginsberg em 1956 não só fundou a chamada Geração Beat como a própria noção formal de contracultura – em um épico que, ao retratar as dores, aventuras, loucuras de seus companheiros de geração, retratou também a realidade homossexual do próprio autor e de seus amigos.Ginsberg afirma no poema a própria homossexualidade com prazer, assim como sendo parte de sua saúde. Com um dos mais impactantes e icônicos versos de abertura em um dos mais importantes poemas do século XX, Uivo afirmou o desejo gay com orgulho e força, em uma obra-prima da literatura americana e universal.

Allen Ginsberg

Giovanni, de James Baldwin (1956)

 

Forte, corajoso e atual, Giovanni é uma das mais importantes obras do grande intelectual, ativista e escritor americano James Baldwin. Escrito no conservador contexto da década de 1950 por um autor negro, gay, militante e profundamente intelectualizado, Giovanni marcou o cenário americano com a história de um homem dividido entre um amor homossexual forte porém trágico e o amor aceito de uma mulher. Para retratar a fragmentação existencial provocada pelo dilema amoroso entre um jovem italiano e um americano, Baldwin adentra uma vida marginalizada por esse amor proibido com a elegância, a força e o talento que caracterizaram a obra de um dos mais importantes autores e pensadores americanos da segunda metade do século XX.

James Baldwin

Fabián e o Caos, de Pedro Juan Gutiérrez (2016)

Um mestre do “realismo sujo” cubano, Pedro Juan Gutiérrez (autor de Trilogia Suja de Havana, entre outros clássicos) conta em Fabián e o Caos uma experiência autobiográfica, inspirada na vida de um grande amigo seu de infância, um pianista brilhante e tímido, crescendo enquanto homossexual no contexto de perseguição da revolução cubana. O livro se passa durante a crise dos mísseis, em 1962, encontrando o personagem de Fabián com Pedro Juan, alterego do autor, em uma fábrica de trabalhos forçados para os “párias” da revolução. Denunciando a perseguição contra os gays no contexto cubano, Gutiérrez novamente afirma as contradições da revolução como a própria inclemência e o brilhantismo de seu estilo.

Pedro Juan Gutiérrez

Stella Manhattan, de Silviano Santiago (1985)

Talvez o primeiro livro nacional a tratar do tema da transexualidade, Stella Manhattan é uma das grandes obras do imaginário LGBTQI na literatura brasileira. Silviano já era intelectual fundamental e escritor premiado quando de sua publicação, e trata com coragem e inventividade questões de arte e sexualidade no livro, através de um universo de intrigas entre exilados brasileiros nos EUA como uma célula de guerrilha revolucionária à época do regime militar. Um jovem funcionário do consulado brasileiro é também Stella, e a interseção entre um e outro é o universo brilhante em que o livro, escrito nos tempos de AIDS, trata de sexualidade, identidade, conservadorismo e revolução como um dos mais importantes romances da literatura recente brasileira.

Silviano Santiago

Onde Andará Dulce Veiga?, de Caio Fernando Abreu (1990)

Publicado em 1990, o livro conta a trajetória de um jornalista que sai à procura de Dulce Veiga, uma cantora de sucesso que desapareceu anos atrás. Em sua busca, o personagem acaba obcecado pela filha de Dulce, uma cantora lésbica de uma banda punk. Através dos gatilhos dos romances policiais e de mistério, o autor gaúcho atravessa o cenário do submundo da vida noturna paulistana para retratar o contexto da epidemia de AIDS na virada da década de 1980 pra 1990 com o talento emocional e simbólico que tanto caracterizam o gênio de sua escrita. Caio Fernando Abreu viria a falecer em decorrência do vírus em 1996.

Caio Fernando Abreu

Um Útero é do Tamanho de um Punho, de Angélica Freitas (2012)

 

Tendo a mulher como tema central dos poemas que compõem o livro, Um Útero… se afirmou de tal forma como um sucesso de crítica e público (em especial se tratando de um livro de poemas) que se tornou uma espécie de clássico contemporâneo instantâneo, como um dos melhores livros do gênero lançados recentemente. Observando com agudez, ironia e profundidade os limites da identidade feminina, a sexualidade lésbica se faz presente como um fio que conduz a tensão sexual que atravessa os poemas – e uma parte fundamental do sentimento de repressão que o livro também ilumina sobre o “ser mulher”. Superando não só os limites de gênero e de identidade sexual como também de estilo e escrita, o livro é verdadeiramente um marco recente.

Angélica Freitas

Amora, de Natália Borges Polesso (2015)

Vencedor do Prêmio Jabuti em 2016, Amora é objetivamente um livro de contos retratando o amor feminino. Para além do retrato de mulheres homossexuais, o livro se aprofunda em diversos aspectos das identidades e dilemas do feminino hoje, principalmente no que diz respeito à expansão dos padrões, das estruturas, dos tabus e do que é estabelecido como ser mulher – e amar, e desejar, e se relacionar. A afirmação da própria identidade, como mulher e lésbica, é construída tendo a honestidade como norte, para o reconhecimento de uma das mais interessantes jovens autoras brasileiras que é a gaúcha Natália Borges Polesso.

Natália Borges Polesso

E Se Eu Fosse Puta, de Amara Moira (2016)

Amara Moira se identifica orgulhosamente como travesti, prostituta, escritora e doutoranda. Para sintetizar o que esperar de seu trabalho, em suas próprias palavras, ela diz se tratar da escrita de uma “travesti que se descobre escritora ao tentar ser puta e puta ao bancar a escritora.”. Seu livro nasce de relatos autobiográficos, reunidos primeiramente em um blog, e depois lançados em livro debatendo com urgência, visceralidade e crueza o lugar da prostituição e da transexualidade na luta feminina, a partir de um corpo que não tem lugar definido, e que necessariamente questiona as regras sociais, sexuais e comportamentais vigentes.

Amara Moira

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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