Matéria Especial Hypeness

A luta contra a Fifa e o dia em que Camarões botou o futebol para dançar

por: Joao Rabay

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Espanha, 1982: Camarões fazia sua estreia em uma Copa do Mundo, encarando um grupo com Itália, Polônia e Peru. A seleção saiu da copa sem perder, mas também não venceu: os três empates deixaram camaroneses e italianos com os mesmos 3 pontos, e os europeus se classificaram nos critérios de desempate.

A participação não foi tão marcante, mas abriu o caminho para que Camarões se tornasse a seleção africana de melhor desempenho em uma Copa. Aconteceu oito anos depois, na Itália, em 1990, e teve como personagem principal Roger Milla, o fio-condutor de ambas façanhas. O atleta veterano era, aliás, um remanescente da campanha camaronesa em terras espanholas.

A dancinha de Milla se tornou um símbolo da Copa de 90 e do carisma dos jogadores africanos

Antes da dança, o pavor da história

Mas, antes de falar do grande feito de Milla, uma breve contextualização sobre as participações africanas em Copas. Nas primeiras oito edições, apenas o Egito, em 1934, representou o continente na maior competição do futebol.

Vale lembrar que até 1960 a maioria dos países africanos ainda estava sob o domínio de países europeus, o que impedia a filiação à Fifa. Ou seja: Camarões, Argélia, Costa do Marfim e Senegal, seleções que já tiveram destaque em Copas, eram considerados territórios, até então, franceses.

Em 1962, as primeiras seleções africanas, nações recém-independentes, tiveram de lutar pelo direito de disputar repescagens com equipes europeias ou sul-americanas para tentar uma vaga, sem sucesso.

Em 1966, a obrigação de disputar uma única vaga com a melhor seleção asiática fez com que a confederação africana boicotasse a Copa, exigindo uma vaga fixa, algo que a Fifa só acatou em 1970, quando Marrocos representou a África. A desejada primeira vitória de uma seleção africana em Copas viria somente com a Tunísia, em 1978.

1990: é dia de baile

Pois bem, voltamos para 1990. Até então, o melhor desempenho de uma seleção africana tinha sido a de Marrocos, em 1986, que chegou às oitavas de final, mas sem grande brilho.

A estreia de Camarões em 1990 não seria nada fácil: o adversário era a Argentina de Maradona, então campeã do mundo, e que chegaria à final novamente no mundial da Itália. Mesmo com um jogador a menos, Camarões conseguiu a dianteira no placar e manter a vitória – faltando dois minutos para o apito final, outro camaronês seria expulso. A vontade de vencer era tanta que os nove em campo se igualaram aos 11 argentinos.

E aí chegou o momento de Milla começar a brilhar. O jogador, então com 38 anos, tinha se aposentado da seleção três anos antes, mas a admiração do presidente camaronês Paul Biya fez com que sua convocação acontecesse.

Na segunda partida, contra a Romênia, Milla marcou os dois gols da vitória por 2 x 1, que garantiu a classificação antecipada para as oitavas de final. Nem a derrota por 4 x 0 para a União Soviética foi capaz de atrapalhar a campanha camaronesa, que não apenas passou de fase, mas foi a primeira colocada no grupo.

Na partida de oitavas de final, contra a Colômbia, o gol insistiu em não sair. Depois de um 0 a 0 no tempo normal, Milla marcou duas vezes na prorrogação, incluindo o famoso lance em que o goleiro colombiano Higuita achou uma boa ideia tentar driblar no meio de campo com a equipe perdendo por 1 x 0. Redín ainda descontaria, mas Camarões venceria por 2 x 1.

A classificação representou um feito histórico: era a primeira vez que uma seleção africana chegava às quartas de final da Copa do Mundo, um feito que ainda não foi superado (Senegal, em 2002, e Gana, em 2010, igualaram o desempenho camaronês).

A beleza simples do surpreendente time camaronês fez com que a seleção se tornasse a preferida entre praticamente todos aqueles cuja seleção não estava mais disputando a Copa.

O carisma camaronês tinha como símbolo máximo Roger Milla e sua dança cheia de ginga para comemorar os gols junto à bandeirinha de escanteio – a inspiração foi o brasileiro Careca, que havia feito algo parecido, mas com muito menos ginga. A alegria de Milla para comemorar seus gols abriria espaço para muitas outras celebrações cheias de malemolência.

A incrível jornada camaronesa acabaria nas quartas de final, contra a Inglaterra, não sem emoção: depois de saírem perdendo, os camaroneses conseguiram buscar a virada, e pareciam ter chances grandes de chocar o mundo mais uma vez, mas, a 7 minutos do fim, um pênalti garantiu o empate à Inglaterra, que sairia vencedora na prorrogação.

A eliminação chateou os camaroneses, mas o desempenho já havia garantido à equipe um lugar na história das Copas. Roger Milla ainda seria apontado para a seleção do Mundial de 1990, e ele marcaria o nome de vez em 1994, ao ser o jogador mais velho a não apenas disputar uma partida de Copa (recorde só batido em 2014), como também a marcar um gol.

A campanha de Camarões certamente inspirou outras seleções africanas a acreditar que era possível ir longe em Copas. Em 2002, Senegal se classificou num grupo com a então campeã França, e também caiu na prorrogação nas quartas de final.

Já em 2010, Gana esteve muito perto de quebrar a barreira das quartas, mas a inesquecível defesa de Luís Suarez no último minuto da prorrogação e o subsequente pênalti perdido por Asamoah Gyan impediram o feito.

Em 2018, a possibilidade de uma seleção africana ir além das quartas de final é remota, mas Egito, Marrocos, Nigéria, Tunísia e Senegal com certeza miram nos exemplos anteriores com o objetivo de ser a próxima grande surpresa africana em Mundiais.

Já é tempo de pensarmos na dança de Roger Milla, tão importante como autoafirmação, ser deixada no passado. E que venham outros bailes africanos.

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Fotos: Reprodução/FIFA


Joao Rabay
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