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Banca Curva reúne publicações e trabalhos de artistas independentes em São Paulo

por: Brunella Nunes

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Foi-se o tempo em que as bancas de jornais ao redor de São Paulo serviam apenas para vender jornais. Estes simpáticos refúgios no meio de calçadas da caótica cidade ganham nova roupagem e novas funções. Um belo exemplo desse reaproveitamento é a Banca Curva, espaço dedicado a produção de artistas independentes, que ali podem expor, vender e compartilhar suas obras com o público.

O espaço, semelhante à Banca Tatuí, no mesmo bairro, a Vila Buarque, é um cantinho pra lá de charmoso na esquina da rua Dr. Cesário Mota Júnior com a General Jardim. Ao invés de prateleiras, o artista, educador e fundador da empreitada Rodrigo Motta optou por nichos, que são alugados para que as mentes criativas divulguem seus trabalhos. “É um espaço colaborativo, para publicações e arte impressa. O objetivo é valorizar esse material, dar visibilidade, retorno financeiro e ser um espaço interessante aqui no bairro, de convivência”, contou ao Hypeness, numa tarde embalada por jazz e bons papos. Em quase três meses de vida, a Curva conseguiu ser financiada coletivamente em 25% e hoje conta com uma colaboração mensal somada a 10% das vendas dos produtos para bancar os custos com luz, imposto, material de limpeza, sacolas, entre outros.

Ali se misturam técnicas e plataformas, de minúsculos zines a livros; de cadernos a ilustrações; de prints a trabalhos manuais. Quase que irresistíveis, as produções independentes acenam para os clientes que, inevitavelmente, os pegam nas mãos. Porque não há como só olhar. É preciso sentir cada traço que foi feito, cada detalhe curioso que compõe a obra. A riqueza de materiais e formas de produzir arte ou literatura traz mais diversidade do que é encontrado em grandes lojas. Além disso, a curadoria ajuda a ter uma boa seleção de obras das quais vale a pena olhar, tocar, cheirar. E a experiência fica mais interessante.

Por acaso, encontrei com Andrea Tolaini, artista e escritora que acabara de lançar seu livro Mã (editora Novaletra e a venda na Curva), uma carta ilustrada emotiva e sensível dedicada à sua mãe, falecida há 9 anos. Recém-lançado e lindamente ilustrado, discorre sobre a ausência do eterno ventre maternal, além de trazer reflexões sobre a dependência afetiva que tal relação proporciona. Essa carta fala sobre agradecer, honrar, mas romper. Eu aprendi a romper várias vezes com a minha mãe mesmo ela não estando mais aqui e tem sido um aprendizado muito grande pra mim. Escrevi e ilustrei ela inteira, de forma extremamente emotiva e acho que tem um poder muito grande de emocionar, pelo o que tenho recebido de feedback das pessoas.”

O pequeno livro de oito páginas é um mergulho profundo num ventre materno e seguro, mas que não perdura por toda a vida. Recebi mensagens de mães que o receberam, dizendo o quanto está sendo transformador para iniciar algumas conversas de rompimento, desde sair de casa até poder parir o próprio filho de forma mais independente e até a questão da morte, de como romper e aceitar esse rompimento. Estou muito feliz com o resultado”, afirmou.

No mesmo dia, também por acaso, estava passeando pelos nichos o ilustrador Matheus Maturano, que aos 23 anos veio da longínqua Presidente Prudente para São Paulo em busca de oportunidades. Conheço bem o cenário, afinal, passei boa parte da minha vida indo para este pequeno trecho de fim de mundo. Expondo uma série de zines (Hostile Trilogy) e algumas ilustrações inspiradas em cultura pop, mesclando filmes, séries e música. Dessa maneira, ele abre oportunidades para si mesmo enquanto não arruma um emprego na capital.

Esses encontros, esses momentos, talvez (ou com certeza!) não seriam possíveis de maneira online. Lugares como a Banca Curva realmente nos transferem para uma realidade paralela, mais inspiradora, onde a arte passa a transbordar em nós de maneira quase imperceptível. Quando você se dá conta, já se enroscou em linhas. Já não tem mais noção do tempo. Já se perdeu numa infinita sopa de letrinhas e se sujou de tinta. Se lambuza em criatividade.

Vai lá!

Banca Curva
Rua Dr. Cesário Mota Júnior, 340 – Vila Buarque/São Paulo (próximo ao Terminal Amaral Gurgel)
Horários: terça a sexta, das 13h às 19h; sábado das 11h às 15h.

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Todas as fotos por © Brunella Nunes


Brunella Nunes
Jornalista por completo e absoluto amor a causa, Brunella vive em São Paulo, essa cidade louca que é palco de boa parte de suas histórias. Tem paixão e formação em artes, além de se interessar por ciência, tecnologia, sustentabilidade e outras cositas más. Escreve sobre inovação, cultura, viagem, comportamento e o que mais der na telha.

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