Desafio Hypeness

Como aprender a consertar tudo na minha casa me fez ainda mais feminista

por: Marcela Braz

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Até o finzinho deste desafio, estava tudo mara. Tirei fotos do andamento do reparo da tomada e mandei para meu pai, engenheiro eletricista. “Quão orgulhoso você tá de mim numa escala de 0 a 10?”, perguntei na legenda. Pesquisei preços e marcas de ferramentas para montar meu próprio kit. Ofereci meus serviços gerais para dar um tapa no novo apartamento do boy. Fiscalizei desnecessariamente meus remendos de durepoxi na parede, enquanto secavam, e já me vi arrumando tudo na casa.

Vi o futuro também. “Quando a mamãe consertou sua primeira tomada, lá em 2018, não era tão comum as mulheres fazerem esse tipo de coisa”, disse para minha filha imaginária, com uma chave Phillips na mão (aquela de apertar e soltar parafusos). É que após o Desafio Hypeness, eu sei o que é uma chave Phillips, entende? Mas quando chegou o momento de terminar o job, de ligar os fios enferrujados e endurecidos no novo módulo da tomada…

Pausa dramática

Um deles quebrou e meus sonhos foram por água abaixo. Então, se você esperava uma matéria vitoriosa e arrasante, esse texto não é para você.

Esses foram os consertos que escolhi para fazer em casa. Já já mostro qual foi o resultado

Mas antes de entregar o fim, isso tudo começou com uma conversa entre amigos. Comentei ser muito chato não ter meu pai por perto para ajudar a fazer coisas em casa, como trocar a resistência do chuveiro, dar um jeito nas tomadas que estão pulando para fora da parede, entre outras atividades não elétricas. Ele saiu de São Paulo, onde moro, quando tinha 12 anos de idade. Desde então, nosso zelador – e amigo Cícero – foi a ponta firme dos reparos do apartamento da minha mãe.

Agora, morando sozinha, essa necessidade de fazer pequenos consertos se mesclou com minhas daddy issues, as questões de meu pai estar sempre longe. Então, quando meu amigo disse que ainda melhor a ter ele por perto para isso seria aprender a fazer as coisas mesma, fiquei passada. Feminismo, autonomia e empoderamento feminino nem de longe são assuntos novos, principalmente hoje em dia e ainda por cima no meu círculo social.

E, mesmo assim, nunca tinha me ocorrido separar minhas questões com meu pai desse tema e me munir de informações para fazer ou até entender esse tipo de trabalho manual em casa.

Pouco tempo depois, surgiu a proposta do desafio de fazer um workshop e aplicar todo o conhecimento nos consertos em casa. O Deixa Que Eu Faço, do Agiliza Lab, é maravilhoso: sem enrolação, com conteúdo rico e amarrado. Mariana Pavan, criadora do curso, não só explica como fazer as coisas, como também dá o embasamento teórico para entendermos o funcionamento daquele mecanismo, seja de hidráulica, seja de elétrica. Dá tempo de aprender com calma e colocar em prática, a melhor parte. Você logo coloca a mão na massa com materiais novos, bons e didáticos. Para hidráulica, por exemplo, cada dupla tem uma torneira para desmontar e remontar. Fiquei pensando em como eu mesma poderia ter trocado a borrachinha da torneira lá de casa, para acabar com o pinga-pinga.

Workshop Deixa que Eu FaçoMulheres arrasando baldes no workshop Deixa Que Eu Faço

O grupo aprendeu a usar a furadeira, montou uma mini estante, descobriu como faz para cobrir os furos com gesso e qual é a melhor maneira de pintar a parede. Tem até um pedaço para cada aluno fazer sua pintura e entender como molhar o pincel com a tinta, ter paciência para evitar manchas ao repintar uma parte que já começou a secar, entre outros macetes. No fim do curso, você pode montar uma luminária fofíssima do zero e levar ela para casa.  

Esse processo todo é tão empoderador!

Além de entender como as coisas funcionam por dentro, você se sente poderosa o suficiente para fazer seus próprios objetos ou reanimar os que já estavam condenados a “um dia levo isso no conserto”, porque esse dia geralmente nunca chega. Então, cheia de energia, iniciei os trabalhos em casa.

A porta carcomida pelos cupins

Essa tarefa estava ensaiando fazer há tempos. O apartamento foi descupinizado, mas os estragos ainda estavam lá: minha porta tinha furinhos por onde os insetos saíram aos montes no verão passado (e eu sei o que eles fizeram!), além de pedaços destruídos na parte baixo, sempre cutucados pelo meu gato, para minha completa aflição dele entrar em contato com o veneno. A solução foi cobrir com gesso.

Ferramentas: pote plástico, espátula plástica, gesso, água, faca de plástico improvisada para fazer a mistura, chave de fenda para quebrar o gesso seco do pote.

Como funciona: não existe uma regra certa da proporção entre água e gesso, é algo que se faz a olho. Como não sou muito cuidadosa e colocava mais água do que necessário, no fim das contas sempre tinha que colocar mais gesso para não ficar tão líquido. Então recomendo ter paciência para fazer as coisas com calma. Como o buraco da porta estava muito fundo, tampei numa primeira leva, esperei secar e depois apliquei mais uma camada grossa de gesso para nivelar com a madeira da porta.

Dificuldades: quando a primeira leva secou, tentei quebrar o gesso do pote com a faca de plástico e quem quebrou foi ela. Então precisa usar a chave de fenda mesmo ou algo bem rígido. Outra coisa é que partes da lateral da porta estavam quebradas e foi um pequeno desafio moldar a massa e a deixar alinhada com o resto da porta.

Resultado: mexer com gesso é muito divertido e fiquei feliz com o desfecho.

Os cabos soltos da TV a cabo

Meu gato, o Mostarda, destruiu os fixadores para cabo da NET, muito provavelmente porque achou que eram presas e isso foi super divertido para ele (rolling eyes). Tentei contornar o problema com fixadores transparentes, mas apesar de bonitinhos, os adesivos para grudá-los na parede são ordinários e se soltaram com pouco tempo de uso. Isso sem contar o preço salgadinho do pacote com poucas unidades. Os fixadores comuns, pequenos, brancos e de plástico, são baratérrimos e muito mais eficazes.

Ferramenta: martelo, fixadores de cabo (os pregos vêm junto no pacote), gesso.

Como funciona: antes de tudo, tirei os pregos dos fixadores destruídos com a parte de trás da cabeça do martelo e tapei os furos com gesso. Aí sim comecei a fixar os novos. Martelar parece simples e sem segredos, mas na verdade tem alguns segredinhos sim. No workshop a gente aprende que onde você pega no cabo faz toda a diferença: para se ter mais precisão na hora de fixar o prego, o ideal é segurar perto da cabeça. Depois, com os dedos livres do risco de serem amassados, você pode afastar a mão até o meio da haste e isso te dá mais força para terminar o serviço (finish him!).

Dificuldades: como tudo na vida, para melhorar seu desempenho, é preciso prática. Os últimos fixadores foram pregados com muito mais facilidade do que os primeiros. Se o martelo escapar e martelar um pouco a parede, fica tranquila, as manchinhas saem facilmente com sapólio, mas os amassados são para sempre. Brincadeira! Deve dar para nivelar com gesso, mas ninguém quer ter esse retrabalho, né, então cuidado.

Resultado: infinitamente melhor do que com os fixadores transparentes, ficou ótimo! E fica a pergunta: por que não tentei fazer isso antes? A gente deixa de fazer tanta coisa simples porque não sabemos do que somos capazes. Até quando?

O conserto da tomada

Com o tempo, as tomadas parecem se descolar da parede e pular para fora. Isso acontece porque as caixas de luz, onde ficam armazenados os fios, apodrecem e quebram. Essas caixas têm alças onde o módulo da tomada se fixa e, depois, por cima, vem o espelho. No meu caso, essa placa até estava bem fixa no módulo, mas era ele que não estava preso na parede (por meio da alça da caixa). Além de rolar um visual péssimo dos fios, o interruptor estava com mau contato. E eu, plena e animada, escolhi bem essa para consertar.

Ferramentas: chave Phillips, novo conjunto de tomada, alicate universal, fita isolante, durepoxi.

Como funciona: é importantíssimo desligar todas as chaves de luz e testar os interruptores para ter certeza de que não existe uma corrente elétrica prontinha para te protagonizar em um novo choque da uva, piorado e sem uvas. Primeiro se desmonta o espelho ou placa, depois o módulo e os fios. Eu decorei onde cada fio ia para religar no novo módulo, e o curso também te dá todo o embasamento teórico de como funciona. Se for religar as chaves com os fios para fora, eles precisam ser encapados para ninguém tomar choque.

Expectativa: desmontar toda a tomada, encapar os fios com fita isolante, limpar bem a caixa (porque ela fica com terra e sujeiras), fazer lindas alcinhas novas com durepoxi, esperar secar, ligar os fios no novo módulo, fixar a estrutura no durepoxi, fechar com o novo espelho, tirar uma foto bem linda e mandar para todo mundo.

Realidade: até o passo das novas alcinhas, o plano seguiu perfeito. Mas, quando fui desmontar o módulo antigo, notei que o fio branco, vindo de cima, precisava passar pelo interruptor e chegar na tomada. E nesse meio do caminho ele estava completamente enferrujado e podre. Por isso o mau contato (eu acho, porque não sou engenheira ou eletricista ou engenheira eletricista). Essa parte quebrou e o fio ficou bem mais curto. Na hora de desencapar o resto para compensar pela parte que se foi, acabei cortando ele sem querer com o alicate. Ou seja, o maldito fio branco estava ainda mais curto e era ele que precisava passear pelo módulo.

Com menos espaço para trabalhar, sofri muito para tentar enfiar o fio no segundo furo, o da tomada. Quando conseguia, na hora de apertar o parafuso, a chave era muito grande e não cabia entre a tomada e a parede, foi uma loucura. Daí o fio saía para fora e eu precisava começar tudo de novo. Nessa ciranda, fiquei irritadíssima, quis chorar e imaginei quantos caras querem chorar quando não conseguem consertar as coisas, mas não contam para ninguém.

Parei, respirei, voltei, tentei, tentei, tentei e… O fio quebrou de novo. Game over. Eu já estava atrasadíssima para sair de casa. E, agora, derrotada. Quem tem tempo para lidar com fios velhos? Como um bom homem estereotipado, segurei as lágrimas. Como uma boa mulher estereotipada, abri a geladeira e comi as flores de enfeite do bolo da sogra, direto do pote.

Veja bem, não é só uma tomada. Quando uma mulher pega numa chave Phillips, ela não tá apenas soltando um parafuso. Ela tá desconstruindo o patriarcado. Minha vitória sobre a tomada seria, na minha expectativa, um chute no saco da desigualdade de gênero. E, naquele momento de frustração, é como se eu tivesse falhado, e as vozes antiquadas de “isso não é coisa de mulher fazer” estivessem certas.

Mas como vamos esperar desenvoltura e prática das mulheres em atividades que elas são desestimuladas a exercer? A gente precisa de tempo, prática, conhecimento, workshops como o Deixa Que Eu Faço, oportunidades, incentivo. Não vai ser um sábado com a diva da furadeira Mariana Pavan que vai compensar pelos meus 30 anos de ignorância desses temas. Mas ele com certeza pavimentou (e muito bem) o começo dessa minha jornada.

A tomada está funcionando perfeitamente bem, e preciso chamar uma eletricista para me ajudar com o interruptor, além de pedir indicações, porque não é comum encontrar mulheres nessas funções.

E, daqui a uns bons anos, quando minha filha não conseguir terminar algum conserto em casa, quem sabe ela não contrate o serviço sem nem perceber quem virá, se é homem ou mulher?

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Marcela Braz
É jornalista e tem muita dificuldade para se descrever em terceira pessoa. Suas atividades preferidas incluem amassar gatos, comprar plantas, fazer Yoga With Adriene (procurem no Youtube!), decorar a casa, conversar sobre questões filosóficas e rir até seu rosto ficar horroroso.

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