Matéria Especial Hypeness

Como a revolta de Stonewall, em 1969, empoderou o ativismo LGBT para sempre

por: Vitor Paiva

À época das grandes manifestações que dividiram o Brasil de 2013 para cá, entre os que exigiam a derrubada da presidenta eleita e os que defendiam a manutenção do resultado das eleições, as manchetes de jornal disputavam sobre qual teria sido a maior manifestação política da história do país. Entre coxinhas e mortadelas, os milhões nas ruas eram contabilizados a fim de ser decretado tal título.

Um meme que então se popularizou, no entanto, respondeu à disputa de forma inesquecível e precisa: “O maior ato político da história segue sendo, sim, ela mesma, a parada gay”. Colocando cada vez mais milhões de pessoas espalhadas por centenas de países anualmente, a parada gay é, sem dúvida, a maior manifestação política do mundo desde o final dos anos 1960 até hoje.

Os milhões que compareceram à Parada Gay em São Paulo em 2018

Apontar o real início dessa luta é praticamente impossível – a homossexualidade é tão antiga quanto a própria humanidade, e sua história é a história da sexualidade humana em sua absoluta e incontornável diversidade, e provavelmente assim também é a história do preconceito. Mas olhar para o horizonte da história, mesmo que somente até o tempo recente onde nosso olhar alcança, é o melhor meio para se dimensionar a necessidade, a contundência e o profundo significado de lutas que ainda se fazem necessárias e urgentes hoje.

E se a história moderna das paradas gays e da própria luta pelos direitos LGBTs possui um início formal, esse início aconteceu na madrugada do dia 28 de junho de 1969, em um bar no bairro do Greenwich Village, em Nova York, chamado Stonewall Inn. O que ficou conhecido como as Rebeliões ou Revoltas de Stonewall é visto como o acontecimento mais importante para a liberação do movimento gay e a luta pelos direitos LGBT nos EUA e no mundo.

O Stonewall Inn no final dos anos 1960

Antes de sequer começar a contar sobre as chamadas “Rebeliões de Stonewall”, vale lembrar que qualquer prática homossexual era considerada crime em todos os estados americanos até 1962 – e a punição variava entre longa pena em regime fechado, trabalhos forçados ou mesmo a pena de morte. Logo, o que aconteceu em Stonewall se deu em um país que havia “legalizado” (com toda ironia e repúdio nessas aspas) o amor entre pessoas do mesmo sexo somente sete anos antes.

Se o sistema judiciário americano praticava a homofobia abertamente até poucos anos antes de 1969, naturalmente que, à época, eram raros os bares ou estabelecimentos que recebiam pessoas abertamente gays nos EUA – e os que o faziam eram frequentemente achacados ou mesmo fechados pela polícia. Localizado entre os números 51 e 53 da Rua Christopher, no Vllage, o Stonewall Inn se tornara o único bar gay de Nova York. Para manter tal negócio, a Família Genovese – mafiosos proprietários do local – pagavam semanalmente uma alta propina à polícia nova-iorquina. O bar não tinha licença para comercializar bebidas alcoólicas, não tinha saídas de emergência, não correspondia às exigências sanitárias legais, mas era o único bar abertamente gay em toda cidade, e que tinha como seu principal atrativo a dança – nele aos homens era permitido dançar.

Jovens em frente ao Stonewall Inn à época das rebeliões

Ainda assim, as batidas policiais no Stonewall Inn eram constantes, frequentemente prendendo funcionários, clientes sem identificação ou simplesmente homens trans ou vestidos como mulheres (a lei nova-iorquina previa prisão para homens travestidos). Quando, às 1h20 da manhã do dia 28 de junho de 1969, quatro policiais decidiram invadir o local, o que se esperava era que a batida fosse mais uma operação policial padrão. O que se deu, no entanto, não podia ser mais diferente – e mais radical, transformador, violento e simbólico da necessidade de mudanças pela qual não só os EUA como todo o mundo precisava passar.

Havia pouco mais de 200 pessoas presentes no bar quando as luzes foram acesas e a música desligada, como indicativo de que a polícia estava presente. As saídas foram fechadas, e o procedimento padrão de alinhar os clientes, conferir seus documentos e separar os “vestidos de mulher” para que policiais femininas pudessem conferir seus sexos não aconteceu conforme o previsto, diante da recusa por parte dos clientes de se identificarem. A decisão inicial foi de levar a maioria dos presentes para a delegacia. O desconforto foi se transformando em revolta conforme uma pequena multidão de clientes e curiosos começou a se aglomerar ao redor do bar.

A única foto conhecida da primeira noite das rebeliões

Antes que chegasse o primeiro camburão a multidão havia aumentado em dez vezes e, com isso, elevou-se também a tensão. Rapidamente após o primeiro grito de “Poder gay!” e o entoar dos primeiros versos da clássica canção de protesto “We Shall Overcome” (Nós vamos vencer, em tradução livre), uma briga entre uma mulher e um policial estourou. A mulher, que estava sendo tratada com violência pelos oficiais, convocou a multidão a fazer algo para ajuda-la – e foi assim que a pólvora da injustiça acendeu a explosão.

Segundo relatos dos presentes, a multidão foi tomada por sentimento coletivo de que não deviam mais aguentar tal abuso. Moedas e garrafas começaram a ser atiradas contra as viaturas, como gestos que exigiam a liberdade, em uma revolta popular instantânea e espontânea. Pessoas ainda estavam detidas dentro do Stonewall quando pedras, tijolos e lixo em chamas começaram a ser atirados contra as janelas e a porta do bar. A multidão invadiu o local, a polícia ameaçou atirar, mas rapidamente o incêndio começou. Tudo durou cerca de 45 minutos, até que novas viaturas chegaram junto com o corpo de bombeiros para conter a confusão.

Enquanto pessoas eram presas, a multidão resistia – e zombava dos policiais com danças e cantos. Era a primeira vez que um imenso grupo homossexual se amotinava e, mesmo com as prisões, conseguia humilhar a indevida ação policial. Às 4 da manhã as ruas estavam vazias, o bar estava destruído – mas a eletricidade permanecia no ar.

Uma multidão ainda maior se reuniu na noite seguinte, com uma diferença de postura gritante: já que haviam perdido o local secreto e escondido em que podiam demonstrar seus afetos, agora o fariam em público. Mesmo em ruínas, entre casais gays aos beijos pelas ruas de Manhattan, o Stonewall abriu suas portas na noite seguinte, mas o que havia era uma imensa multidão, que se espalhou por diversos quarteirões ao redor. A policia chegou em massa, a confusão se instaurou e a luta nas ruas novamente atravessou a madrugada.

As revoltas que tomaram as ruas do Village nas noites seguintes

Uma das mais celebres testemunhas dessa segunda noite foi o grande poeta norte-americano Allen Ginsberg. Abertamente homossexual e uma das mais ativas vozes pela causa, o maior nome da geração beat visitou então o Stonewall pela primeira vez, e o que viu o comoveu.

“Você sabe, os caras lá estavam tão lindos. Eles perderam esse olhar de medo que todas as bichas tinham há 10 anos”, disse Ginsberg.

Por cerca de cinco dias, novos focos de revolta aconteceram na região, até que o caos foi finalmente contido – mas não havia mais ponto a se voltar: era a primeira vez que gays, lésbicas e trans se uniam e resistiam com toda força contra as leis e a violência homofóbica do estado americano. No contexto da luta negra pelos direitos civis e do levante feminista do fim dos anos 1960, o movimento gay se tornava enfim uma força incontornável.

Militantes marchando por Nova York nos dias seguintes às revoltas

Em poucos meses, praticamente todas as cidades americanas passaram a ter fortes organizações pelos direitos homossexuais e, no aniversário de um ano da Revolta de Stonewall, no exato dia 28 de junho de 1970, as primeiras marchas do orgulho gay aconteceram nos EUA.

A primeira parada gay, em Nova York, em 1970

Em poucos anos, as marchas ganhariam todo o mundo, tornando-se, como lembrou o meme, uma das maiores e mais importantes movimentações políticas de todo o mundo. Em 2016, o então presidente Barack Obama estabeleceu o local onde ficava o Stonewall como Monumento Nacional da história norte-americana.

Placa atual lembrando o local como “berço da liberação moderna de lésbicas e gays”

Curiosamente o Brasil, país onde mais ocorrem crimes de ódio contra LGBTs no mundo, foi a primeira nação das Américas a descriminalizar a homossexualidade e uma das primeiras em todo o mundo: ainda durante os tempos do Império, em 1830, ser homossexual deixou de ser crime por aqui.

A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo começou somente em 1997, mas rapidamente se tornou uma das maiores do mundo, sendo hoje o evento que mais reúne turistas na capital paulista (e o segundo do Brasil, perdendo somente para o carnaval carioca). É por conta das revoltas de Stonewall que o evento – que hoje acontece em todos os continentes e em boa parte dos países do planeta – se dá quase sempre em junho.

O local do Stonewall Inn hoje em dia

Ainda que o ativismo gay naturalmente não tenha começado naquela noite, o fato é que todo mudou depois de Stonewall. Tal qual o gesto de Rosa Parks, em 1955, de se negar a ceder seu lugar em um ônibus e ir para os fundos do veículo onde ficava o espaço segregado para os negros desencadeou o início do movimento pelos direitos civis nos EUA, a Rebelião de Stonewall fez o mesmo pelo movimento gay e pelos direitos LGBTs no mundo. Como bem definiram os historiadores Dudley Clendinen e Adam Nagourney, “daquela noite em diante a vida de milhões de homens gays e mulheres lésbicas, e a atitude na direção deles da ampla cultura em que viviam, começou a mudar rapidamente. As pessoas passaram a aparecer em público como homossexuais, exigindo respeito”.

É preciso lembrar as rebeliões de Stonewall pelo que de fato foram: o levante de uma população em revolta, depois de ser violentada ao limite, em nome de duas coisas que não só devem ser vistas como direitos essenciais mas também como premissas fundamentais de qualquer sociedade justa: o direito das pessoas serem quem quiserem ser, e o amor.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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