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De Jobim a Hermeto: 7 discos brasileiros de jazz que você deveria conhecer

por: Vitor Paiva

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Nascido na virada entre o século 19 e o século 20 nas comunidades negras de Nova Orleans, nos EUA, da fusão entre a música clássica europeia e os ritmos e culturas africanas, o jazz é visto como a forma de arte norte-americana por excelência – espécie de baseball da música popular.

Uma das forças mais revolucionárias da música de modo geral é, no entanto, desconhecer fronteiras e se permitir a mistura, a contaminação e a renovação feito um vírus que passa pelo ar – e, assim, o fato do jazz ser um símbolo da identidade cultural e artística dos EUA não impede em nada que o estilo possa se afirmar com grandeza em outros países, como por exemplo o Brasil.

A banda de Buddy Bolden, considerado o inventor do jazz (ele é o cornetista ao lado do baixo, atrás do violão) em 1905

Não há dúvidas que Brasil e EUA são os dois maiores produtores de música popular em todo o mundo, e naturalmente que a força do jazz também alcançou os ouvidos brasileiros de forma incontornável – e sem a “influência do jazz” por aqui c não haveria, por exemplo, a Bossa Nova da forma que ela se deu. Não é por acaso, portanto, o impacto imenso da própria Bossa brasileira nos EUA, e o sucesso de alguns dos nossos maiores nomes por todo o mundo.

Tom Jobim, João Gilberto e Milton Banana no lendário show de bossa nova no Carnegie Hall, em 1962

A verdade é que, no fim das contas e no deleite dos nossos ouvidos, um ritmo tão abrangente como o jazz rapidamente se torna um ritmo do mundo – e como temos por aqui uma boa parte dos maiores músicos do planeta, é natural que o Brasil também tenha sua coleção de clássicos insuperáveis do estilo. É claro que tudo se transforma, se amplia e se mistura (algo que a música brasileira sabe fazer como ninguém) e o jazz no Brasil oferece elementos, possibilidades e inovações próprias, que o diferem das tradições norte-americanas e ampliam seus limites – essa é parte importante de sua força e graça. No Brasil quase que necessariamente o jazz é significado pela mistura com ritmos, sons e estilos nacionais.

Assim, separamos aqui 7 grandes discos brasileiros de jazz, que merecem ser descobertos, redescobertos, ou simplesmente ouvidos como exemplos a serem celebrados das possibilidades infinitas que a música possui, e que o Brasil sabe exercer tão bem. Não se trata de uma lista fechada ou definitiva – se você sentiu falta de algum álbum, comente e amplie a seleção. E não esqueça de dar play em cada um desses clássicos do jazz brasileiro – e, consequentemente, da música universal.

1. Getz/Gilberto – João Gilberto e Stan Getz (1963)

 

Não é exagero afirmar que o encontro entre o saxofonista americano Stan Getz e o violonista brasileiro João Gilberto revolucionou tanto a música brasileira quanto a americana, e colocou a Bossa Nova no mapa mundial de forma incontornável e perpétua. Um dos discos de jazz mais vendidos em todos os tempos (com mais de 2 milhões de cópias somente em 1964), Getz/Gilberto tem em seu sucesso de crítica proporção equivalente ao de vendas.

Tião Neto, Tom Jobim, Stan Getz, João Gilberto e Milton Banana

O minimalismo do violão, dos ritmos e da voz de João Gilberto (com as nobres presenças de Tom Jobim nos pianos e maioria das composições, Sebastião Neto no baixo, Milton Banana na bateria, Astrud Gilberto nos vocais e o grande Phil Ramone como engenheiro de som completando o time) se misturam ao lirismo melódico e a improvisação onírica dos sopros de Getz para forjar aquilo que se tornaria a definição estética da Bossa Nova para os ouvidos do mundo – através do charme cool da voz de Astrud. Getz/Gilberto venceu os Grammys de Melhor disco instrumental de Jazz, Melhor Gravação e Disco do ano.

2. Coisas – Moacir Santos (1965)

Misturando jazz com ritmos africanos e brasileiros com elegância, experimentação, singularidade e força, Coisas, o primeiro disco do gênio Moacir Santos é provavelmente o maior disco de jazz do Brasil. Lançado em 1965 (quando a Bossa Nova já era uma força consolidada no mundo), Coisas traz suas dez faixas como forças musicais amorfas, que não podem ser nomeadas para não serem reduzidas ao significado banal de um mero título.

Moacir Santos

É por isso que as faixas são intituladas “coisas” numeradas, e no entanto apresentadas fora da ordem sugerida: “Coisa Nº 4” abre o disco com elegância, que se encerra com a deliciosa “Coisa Nº 8”. Melodicamente brilhante, ritmicamente riquíssimo em timbres e harmonias inovadoras e amplas (e um dos LPs mais raro e caros do Brasil em sua versão original) Coisas, de Moacir Santos é uma obra-prima do jazz em qualquer língua, país ou época.

3. Wave – Tom Jobim (1967)

Após se libertar das amarras estilísticas e comerciais do título de “pai” da Bossa Nova, o nome maior da música brasileira passou a realizar uma música só sua, que lhe permitia superar estilos e ritmos com a fluidez e a contundência concedida somente aos grandes gênios de todos os tempos. Wave, disco de Tom Jobim de 1967 com arranjos e regências do maestro alemão Claus Ogerman (e, na ficha técnica, nomes como Ron Carter no baixo, Dom Um Romão na bateria, Urbie Green no trombone), é seu trabalho de maior sucesso comercial nos EUA.

Tom Jobim

Tendo alcançado o 5º lugar das paradas de jazz da Billboard, clássicos como a faixa-título e “Triste” ganham em Wave seu primeiro registro. Com uma das mais lindas capas de todos os tempos, o disco remete à Bossa Nova mas explora sentimentos estéticos e rítmicos tão variados e amplos quanto seria o sol da música que Tom Jobim ofereceria ao mundo – concedendo ao jazz a honra de também estar presente entre as forças musicais que regeriam a imensidão melódica desse gênio maior.

4. A Bad Donato – João Donato (1970)

 

O compositor acreano João Donato garante que quando entrou em estúdio para gravar seu oitavo disco simplesmente não sabia muito o que queria – e, influenciado pela explosão do soul e do funk americanos de nomes como James Brown e Sly Stone, acabou por experimentar com a psicodelia através de sonoridades mais eletrônicas através do piano, órgãos e teclados. Com o estímulo do grande Eumir Deodato (que, após ouvir algumas demos do que viria a ser o disco, se ofereceu para fazer os arranjos) desse primeiro impulso então indefinido nasceu um dos discos mais influentes da música brasileira.

João Donato

A Bad Donato, de 1970, promove o encontro de ritmos brasileiros com o jazz, o rock, o funk, o fusion, a música negra e o eletrônico. Autor de todas as faixas, Donato contou com a participação de músicos como Bud Shank, Oscar Castro Neves e Dom Um Romão para forjar A Bad Donato, nascido do desejo bruto e do acaso, mas que mesclou a música brasileira com a força e a contundência do funk e da música negra da época como nenhum outro.

5. Prelude – Eumir Deodato (1973)

Para se medir a dimensão do trabalho de Eumir Deodato, basta olhar a lista de artistas com quem esse pianista, arranjador, compositor e produtor brasileiro já trabalhou (ou ouvir qualquer um de seus discos). Deodato produziu ou arranjou para nomes como Tom Jobim, Aretha Franklin, Frank Sinatra, Tony Bennett, Roberta Flack, Wes Montgomery, João Donato, Wilson Simonal, Kool & The Gang, Björk – e a lista de fato nem começou. Em 1973 juntou-se aos gigantes Ron Carter, Stanley Clarke, John Tropea e Billy Cobham para realizar Prelude.

Eumir Deodato

Impulsionado pelo imenso sucesso de sua versão funkeada para “Also Sprach Zarathustra (2001)”, de Richard Strauss (que chegou a 2a colocação na Billboard, atrás somente de “Killing Me Softly”, de Roberta Flack, que tinha também arranjo de Deodato), o disco vendeu milhões de cópias, levando ao mundo o piano elétrico e rítmico de Deodato como condutor das ricas texturas, as belas cordas e sopros sobre a sempre grooveada base rítmica que fizeram desse disco um imenso sucesso – e um clássico.

6. Africadeus – Naná Vasconcelos (1973)

 

Reduzir a música do grande Naná Vasconcelos a um rótulo como “jazz” é sem dúvida um crime estético inafiançável. Mas, se o jazz no Brasil se tornou sinônimo de mistura de ritmos, através também da afirmação da força percussiva tão peculiar à música de cá em encontro com outros estilos, seria imperdoável deixar Naná Vasconcelos de fora. O maior percussionista do mundo em todos tempos (eleito 8 vezes o melhor do mundo pela revista especializada DownBeat) e vencedor de 8 grammys, Naná é um desses milagres da arte e da música – um gênio que iluminou o sem-fim das possibilidades a que a musicalidade brasileira e mundial pode chegar.

Naná Vasconcelos

Africadeus é seu primeiro disco solo, no qual o berimbau conduz a afirmação da cultura africana como a espinha dorsal de toda nossa cultura – ocidental, das Américas, brasileira. Uma obra-prima profundamente brasileira da música universal, para além de qualquer rótulo.

7. Slaves Mass – Hermeto Pascoal (1977)

 

Mestre multi-instrumentista e espécie de guardião de toda a pluralidade infinita que a música universal (sempre a partir da música brasileira) pode alcançar, se alguém pode ser chamado de gênio esse alguém é Hermeto Pascoal. “Quando toco jazz, sou um músico de jazz”, ele disse, e em Slave Masses, seu quinto disco, de 1977, Hermeto toca praticamente tudo – flauta, sax, guitarra, piano, Fender Rhodes, clavinete, gaita, violão e mais.

Hermeto Pascoal

Juntam-se a ele outros grandes, como Airto Moreira, Ron Carter, Raul de Souza, Chester Thompson, Flora Purim e mais, para fazer de Slaves Mass um caldeirão de fusões rítmicas e estilísticas vanguardista, trazendo samba, baião, choro ao encontro com o jazz – através da experimentação e o improviso que fizeram com que até Miles Davis, que gravou duas músicas de Hermeto, declarasse publicamente sua imensa admiração pelo bruxo de Alagoas.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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