Matéria Especial Hypeness

Quando a Copa parou a guerra civil e Drogba marcou um golaço pela paz na Costa do Marfim

por: Breno França

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Ao longo dos quase 90 anos de existência da Copa do Mundo, apenas duas edições não foram realizadas respeitando o intervalo de quatro anos entre cada competição: 1942 e 1946. Nessas ocasiões, a Segunda Guerra Mundial inviabilizou qualquer possibilidade de realizar o torneio já que o planeta estava mais preocupado em combater o nazismo do que disputar uma competição de futebol.

Quando falamos assim, prevalece um sentimento ruim de que a guerra sempre pode vencer o futebol. Mas hoje, às vésperas da 22ª edição do mundial, vamos falar justamente de uma das ocasiões em que o futebol foi capaz de parar a guerra.

O dia é 8 de outubro de 2005. O país é a Costa do Marfim. O herói é Didier Drogba.

Drogba, o atacante

Nascido em Abidjan, capital do país, o atacante Didier Drogba se mudou muito novo para a França, aos cinco anos. Lá, ele cresceu, se preparou, amadureceu e se tornou um dos melhores jogadores de futebol do mundo que, no auge, foi capaz de liderar o Chelsea a um inédito título da Champions League, o torneio de clubes mais importante do mundo, depois de bater potências como Barcelona e Bayern de Munique.

Drogba, porém, nunca se esqueceu das suas origens. E apesar de ninguém duvidar de que ele teria espaço em qualquer seleção do mundo se resolvesse se naturalizar, quando foi campeão europeu em 2012 há muito já tinha protagonizado o episódio mais marcante de sua carreira com a camisa do país onde nasceu e sempre defendeu.

Durante anos, a Costa do Marfim ficou dividida com a região norte, empobrecida, controlada por rebeldes e a região sul, mais rica, controlada pelo governo central

A Costa do Marfim vivia em guerra há três anos. Ainda em 2002, os rebeldes conhecidos como Forces Nouvelles (“Forças Novas”) ocuparam progressivamente a metade norte do país, dividindo-o em duas partes: a norte, controlado por eles; e a sul, controlada pelas Forças Armadas Nacionais.

Em meio ao conflito, a população sofria. Milhares morreram, inúmeras violações dos direitos humanos foram relatadas e por várias vezes intervenções estrangeiras foram cogitadas e algumas até realizadas, sempre sem sucesso. Até que o futebol revelou sua força.

Além de Drogba, o país contava com a sua geração mais talentosa. Uma série de outros jogadores também tinham espaço em vários clubes europeus e juntos formavam um time que brigava de igual para igual com seleções muito mais tradicionais da África, até que em 8 de outubro de 2005, o que todos esperavam finalmente aconteceu: a vitória sobre o Sudão por 3 a 1 rendeu a primeira classificação da história da Costa do Marfim para uma Copa do Mundo.

Drogba, o defensor

O país, tão mal tratado durante anos, esqueceu por um momento o terror que vivera e parou para comemorar. No auge da euforia, porém, Drogba fez questão de lembrar. E, emocionado, ainda no acanhado vestiário na cidade de Omdurman, no Sudão, fez um discurso televisionado para toda a Costa do Marfim que mais parecia um apelo já que, de joelhos, acompanhado de seus companheiros, ele falou:


Homens e mulheres do norte, do sul, do leste e do oeste, provamos hoje que todas as pessoas da Costa do Marfim podem co-existir e jogar juntas com um objetivo em comum: se classificar para a Copa do Mundo. 
Prometemos a vocês que essa celebração irá unir todas as pessoas. Hoje, nós pedimos, de joelhos: Perdoem. Perdoem. Perdoem. O único país na África com tantas riquezas não deve acabar em uma guerra. Por favor, abaixem suas armas. Promovam as eleições. Tudo ficará melhor. Queremos nos divertir, então parem de disparar suas armas. Queremos jogar futebol, então parem de disparar suas armas. Tem fogo, mas os Malians, os Bete, os Dioula… Não queremos isso de novo. Não somos xenófobos, somos gentis. Não queremos este fogo, não queremos isto de novo.

 

Palavras simples e aparentemente espontâneas, mas repletas de significado e capazes de sensibilizar um país inteiro que há muito já não sabia o que era ser feliz, o que era ter paz, o que era ser capaz de celebrar, unidos, uma vitória.

Naquela noite, porém, os Elefantes mostraram como era e Drogba, apenas um jogador de 28 anos conseguiu o que lideranças políticas de vários lugares ainda não tinham conseguido: decretar um cessar-fogo.

Veio a Copa do Mundo e quis o destino que a simpática Costa do Marfim caísse num grupo complicado e fosse eliminada ainda na primeira fase sem, porém, dar nenhum vexame. Pelo contrário. Diante do mundo inteiro e de algumas das principais seleções do planeta, o time liderado novamente por Drogba demonstrou seu potencial e mostrou união mesmo na derrota.

Enquanto isso, a guerra interrompida no próprio país ainda ecoava e quase como um golpe de misericórdia, Drogba, já em 2007, terminou com os pés aquilo que tinha começado com as palavras dois anos antes: exigiu que a equipe jogasse a partida contra Madagascar na cidade de Bouaké, capital da rebelião e sede das tropas rebeldes.

Drogba, o libertador

A exigência causou controvérsia. Muitos temiam que o pior acontecesse numa espécie de atentado ou confusão generalizada, mas novamente Drogba estava certo.

Naquele dia, rebeldes e governistas sentaram lado a lado. Um tanque rebelde conduziu a seleção até o estádio até a multidão onde tropa do exército oficial trabalhavam na segurança. Nem precisava, o clima era de completa festa, celebração e paz. Drogba, por sua vez, fazia questão de cumprimentar todos que passavam por seu caminho e foi recebido de maneira heróica, inclusive, em meio a faixas que lhe colocavam como o verdadeiro “libertador” do país, assim, o atacante liderou a seleção que provou que juntos, as diferenças poderiam fazer o time (e o país inteiro!) mais forte.

Conduzido por um tanque rebelde e escoltado por forças de segurança oficiais, Drogba exigiu que partida da seleção reunisse os dois lados da guerra

 

Depois disso, Drogba consolidou-se como um representante da paz no país. Ele reuniu-se com autoridades políticas dos dois lados do conflito, desenvolveu sua própria fundação beneficente, levantou verba para a construção de escola e hospitais, fez doações milionária para outras instituições de caridade, emprestou sua imagem para campanhas contra a pobreza de modo que, em 2007, teve seu papel reconhecido e virou embaixador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

Anos mais tarde, para o site da Fifa, Drogba declarou: “Acredito que o que vivemos em 2005 foi um momento decisivo, um momento histórico. Não dava para evitar de ser levado pelo fluxo dos acontecimentos, e foi o amor pelo país e a paixão do país pelo futebol que nos fizeram lançar aquela mensagem. E acredito que, por causa dela, conseguimos evitar uma tragédia.”

Dessa forma, Didier Yves Drogba Tébily deixou de ser apenas um jogador de futebol e virou o símbolo máximo de um povo que só queria ter paz. E conseguiu.

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