Matéria Especial Hypeness

‘Eu não tenho AIDS!’: O goleiro argentino que superou as fake news para brilhar na Copa

por: Breno França

Patrocinado por: Mais que Futebol

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“AIDS é coisa de gay.”

A frase sem autoria era pensamento dominante no auge dos anos 1980. Uma epidemia descoberta nos EUA em 1982 do que primeiro ficou conhecido como “câncer gay” tomava conta do mundo e aterrorizava as pessoas diante da inexistência de qualquer possibilidade de cura.

A ciência também dava sua dose de contribuição. Antes de ser renomeada para “síndrome da imunodeficiência adquirida”, a AIDS foi batizada de GRID, uma sigla para “imunodeficiência relacionada aos gays”.

E – não muito diferente de como ainda é hoje – tudo que era associado aos gays era considerado pejorativo. Sendo assim, o caldeirão que reunia homossexualidade, promiscuidade, doença e morte resultou num prato cheio de argumentos para que as pessoas manifestassem preconceitos de inúmeras formas.

A paranoia ficou tão grande que bombeiros se recusaram a atender vítimas de acidentes que pudessem estar contaminadas. Muitas pessoas não apertavam mais a mão de alguém “suspeito”. Outros não queriam sentar ao lado dos portadores do vírus no transporte coletivo. Alguns sequer aceitavam ficar no mesmo ambiente de trabalho que eles. Quanto mais permitir que um jogador com AIDS vestisse a camisa da seleção para representar um país inteiro.

Foi contra tudo isso que Sergio Javier Goycochea, o Goyco, teve que lutar pelo direito de disputar uma Copa do Mundo. E o pior, sem sequer ser um portador do HIV.

Fake news

Tudo não passava de um boato espalhado por alguns jornais argentinos que não sabiam a verdadeira causa de uma lesão que afastou Goycochea dos gramados. Eles começaram a criar especulações dos motivos que melaram a negociação entre River Plate e San Lorenzo que traria José Luis Chilavert ao gigante de Núñez e levaria Goyco ao time do Papa.

Capa do jornal El Grafico trazia manchete: “A misteriosa doença de Goycochea”

Apesar de afirmar ao El Gráfico, em 2008, que “não houve culpados por este rumor”, foi justamente o mesmo diário que estampou, 20 anos antes, a manchete de capa “A misteriosa doença de Goycochea.” O suficiente para tornar a vida do goleiro um inferno.

Curiosamente, foi por medo de revelar que tinha uma lesão na clavícula e ser acusado de ter artrite (doença que poderia acabar com a carreira de um jogador na época), que Goyco se viu às voltas com rumores muito piores.

Com 25 anos de idade, solteiro, sem filhos e considerado tão bonito que chegou a se tornar galã da novela “Por amarte así” já em 2017, as especulações sobre a vida pessoal de Goycochea eram muitas e, tanto pela versão de que seria homossexual, quanto pela de que fazia sexo com prostitutas, o goleiro foi acusado de ter AIDS.

A partir de então, Goyco se viu isolado. “Percebi quem era meu amigo e quem não era. Tomei consciência de que integrava um meio carniceiro”, num dos momentos mais desesperadores, o goleiro recebeu uma ligação da própria mãe, chorando, pedindo para que ele lhe contasse a verdade. “Aí eu quebrei emocionalmente, larguei tudo o que tinha em Buenos Aires e fiquei perto da família. Na época todos tinham a cabeça muito fechada e dizer que alguém tinha AIDS era o mesmo que dizer que alguém era drogado ou homossexual. Tive que ir até minha mãe para explicar tudo a ela”, contou Goyco.

Capa do jornal El Gente trazia fala de Goycochea como manchete: “Não tenho AIDS”

Enquanto isso, os jornais argentinos continuavam estampando capas com a história de Goycochea. O periódico Gente estampou a manchete “Não tenho AIDS” junto de uma foto do goleiro, mas não foi suficiente para acabar com os rumores. Pelo contrário. Mesmo recuperado da lesão, ainda não havia clima para permanecer atuando na Argentina, de modo que o goleiro foi negociado pelo River Plate com o Millionarios, da Colômbia.

Suas excelentes atuações contribuíram para que o time fosse campeão nacional logo na primeiro temporada e para que Goyco recuperasse, aos poucos, seu espaço na seleção argentina. Mas ainda que suas performances esportivas fossem suficientes para justificar uma convocação, o goleiro precisou de uma certa dose de sorte para conseguir dar uma resposta à altura aos seus críticos na Copa do Mundo de 1990.

Tapa penales

O simples fato de herdar a camisa 12 da seleção já envolveu uma certa polêmica. Isso porque o posto estava reservado para Luis Islas, o mesmo goleiro que havia sido reserva de Nery Pumpido no título mundial quatro anos antes, no México. Mas o ainda jovem jogador do Independiente não aceitou a condição de reserva novamente e foi substituído justamente por Goycochea.

A troca, é claro, causou descontentamento entre os torcedores argentinos, mas por se tratar “apenas” de um goleiro reserva, a seleção foi em frente. Porém, como dizem alguns comentaristas de futebol, o problema de manter um jogador indesejado no elenco é que em algum momento, fatalmente, você terá que utilizá-lo. E foi exatamente o que aconteceu.

Se uma lesão seguida de muita polêmica quase foi responsável por acabar com a carreira de Goycochea, agora, quisera o destino, que uma polêmica e outra lesão fosse justamente aquilo que lhe tornaria titular da seleção argentina em plena Copa do Mundo.

A sorte de Goyco, foi azar para Nery Pumpido. O principal goleiro argentino da época falhou feio no gol de Camarões que fez os argentinos perderam logo na estreia do Mundial e sofreu uma lesão séria no duelo seguinte contra a União Soviética que lhe tirava do restante da competição. Assim, Goycochea foi alçado à condição de titular.

Os argentinos que já cambelavam na competição e se viam às voltas de uma eliminação ainda na primeira fase justamente na edição seguinte ao bicampeonato interpretaram a lesão de seu goleiro titular e a entrada de Goycochea como mais um mal presságio. Mas foi justamente aí que a maré começou a virar, com grande contribuição de Goyco.

Depois de uma classificação apertada na terceira colocação de seu grupo, a Argentina eliminou o Brasil nas oitavas de final, após a seleção brasileira colocar três bolas na trave, exigir várias boas defesas de Goycochea e ver Caniggia marcar o único gol da partida após jogada genial de Maradona.

Nas quartas de final contra a Iugoslávia, mais um jogo amarrado por parte da seleção argentina exigiu boas intervenções de Goycochea para segurar o 0 a 0 e levar a decisão para os pênaltis, onde o goleiro argentino se destacou defendendo a cobrança final e levando a Argentina para a próxima fase.

Ser o responsável por colocar o país entre os quatro melhores do mundo após herdar a titularidade à contragosto da maioria já seria uma história e tanto de superação de Goycochea. Mas o melhor ainda estava por vir. Na semifinal contra a Itália, a Argentina assumiu de vez o futebol defensivo que vinha praticando contra seleções mais fortes e conseguiu levar novamente a decisão para os pênaltis.

Na ocasião, Goyco abandonou o apelido que carregava desde a infância para assumir outro “tapa penales” ao defender não um, mas dois pênaltis decisivos e levar a Argentina à final da Copa, numa reedição de 1986 contra a favorita Alemanha.

Na final, porém, os alemães estudaram a estratégia de Goycochea e, na única oportunidade que tiveram, superaram o goleiro argentino justamente num pênalti, discutível, de modo que a Alemanha conquistou o título com a vitória por um placar magro de 1 a 0.

Goyco, por sua vez, não conseguiu o título nem em 1990, nem em 1994 quando foi novamente convocado para a Copa, mas foi eleito o melhor goleiro daquele Mundial e, o mais importante, calou o preconceito que sofreu anos antes. Até que finalmente desabafou aliviado “ainda bem que um ano e meio depois [do episódio polêmico] pude ter a minha revanche no Mundial. Caso contrário, não sei quanto tempo mais teria carregado essa cruz.”

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