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Há 60 anos, Brasil superava ‘viralatismo’ para vencer 1ª Copa com futebol arte

Vitor Paiva - 29/06/2018 | Atualizada em - 02/07/2018

Antes da derrota de 1982, da final de 1998, mas, principalmente, muito antes do 7 a 1, o Brasil precisou superar outro trauma, que muitos enxergam como o maior da história do futebol, para se tornar o grande campeão em todos os tempos: o “Maracanazzo”, a derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950.

Em pleno Maracanã abarrotado com mais de 200 mil pessoas (recém inaugurado para o quarto mundial, sediado aqui), a vitória era tão certa que o então presidente Getúlio Vargas convocou pelo rádio a população para a festa do título antes mesmo da partida começar.

Ghiggia comemora o segundo gol uruguaio na final de 1950

O futebol, no entanto, só acontece no campo, de forma inclemente e, nas quatro linhas ao longo dos 90 minutos, o Brasil viu a certeza da vitória se transformar em uma irrevogável derrota pelos pés de Alcides Ghiggia, ponta-direita que sacramentou a virada uruguaia, garantindo o segundo título da celeste por 2 a 1.

Para ser o maior campeão da história dos mundiais de futebol é preciso necessariamente ser também o que melhor supera as maiores (e mais traumáticas) derrotas. E se na Copa de 1954 o que ainda imperou foi o que o dramaturgo (e cronista esportivo maior brasileiro) Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata” e o sentimento da derrota de 1950, na Copa de 1958 o Brasil não só superou o trauma do “Maracanazzo” como abandonou o “viralatismo” para se tornar (utilizando outra expressão cunhada por Nelson) a “pátria de chuteiras”, conquistando o primeiro título mundial de futebol brasileiro.

Pôsteres oficiais da Copa de 1958

Como se não bastasse a conquista maiúscula e histórica, goleando a anfitriã Suécia na final, a seleção de 1958 trazia como estreantes dois jovens jogadores que viriam a se tornar nada menos que os dois maiores nomes da história do esporte: o ponta-direita Mané Garrincha, e um meia-atacante de então 17 anos chamado Pelé. E esse triunfo inaugural da gloriosa história de vitórias da seleção brasileira completa hoje 60 anos.

Os dois maiores do futebol mundial: Garrincha e Pelé

Depois de 1950, a camisa branca da seleção foi aposentada e o Brasil passou a vestir a imortal camisa amarela como uniforme. Por conta desse turbulento histórico da seleção de então, o Brasil não chegou à competição de forma alguma como um dos favoritos (Alemanha Ocidental, Hungria, União Soviética e Suécia eram apontados como prováveis campeões). Pelé, que já era um jovem jogador-sensação do Santos, havia se contundido em uma partida contra o Corinthians pouco tempo antes do Mundial, e não participou dos primeiros dois jogos do torneio, assim como Garrincha, que era reserva de Joel.

A seleção de 1958 ainda sem Garrincha nem Pelé

No terceiro jogo da primeira fase, contra a temida União Soviética, Pelé já estava apto a participar e, depois do primeiro 0 a 0 da história das Copas (contra a Inglaterra, no segundo jogo), os próprios jogadores pediram a entrada de Mané no time. O psicólogo da seleção dizia que Garrincha não estava pronto, mas a genialidade do “Anjo de Pernas Tortas” superava até mesmo as explicações freudianas – e, quando Pelé e Garrincha enfim estrearam um ao lado do outro em um mundial, o que se sucedeu foi um verdadeiro assombro.

O jovem Pelé, antes da Copa, com 17 anos

Os soviéticos eram imensos, praticavam o chamado “futebol científico” e garantiam que haviam decifrado o futebol de Garrincha, e que a eliminação brasileira era evidente questão de tempo. O futebol, porém, não é uma ciência exata, e a seleção precisou de muito pouco tempo para enfim começar a superar a derrota de 1950 e, de forma retumbante, realmente dar início a história de vitórias que marcaria as seis décadas seguintes. “A desintegração da defesa russa começou exatamente quando Garrincha tocou na bola”, escreveu Nelson Rodrigues.

Garrincha entortando para sempre a defesa russa

Depois que o juiz apitou o início da partida, aconteceu o que ficou conhecido como “os 3 minutos mais incríveis da história do futebol”: Garrincha entortou em dribles (todos para o mesmo lado) quatro gigantes marcadores e mandou uma bola na trave, Pelé também carimbou as traves soviéticas e Vavá marcou o primeiro gol em somente 180 segundos. Aos 20’ do segundo tempo Vavá marcaria o segundo gol, e o 2 a 0 pavimentaria em ouro o caminho para o nosso primeiro título.

Nas quartas de final, Pelé precisou de somente um inacreditável gol para despachar o País de Gales, com um chapéu sobre o marcador e girando para marcar. Em seguida, na semifinal contra a poderosa França, o que se sucedeu foi, para muitos, a maior apresentação do Brasil na copa. Vavá abriu o placar aos 2 minutos, mas a França aos 8 empatou com Fontaine, no primeiro gol sofrido pela defesa brasileira no mundial. A seleção era liderada pelo grande Didi, mas aos 17 anos Pelé buscou a bola no fundo das redes e colocou no meio de campo – como se ali decidisse não só que o Brasil superaria o gol sofrido, como que ele próprio seria a estrela da campanha. Foi como se naquele momento Pelé colocasse sobre a cabeça a coroa de rei. Didi, Pelé e Garrincha infernizam a defesa francesa, mas nada parecia fazer a bola entrar. Somente aos 39 do primeiro tempo é que um chute forte do pé direito de Didi enfim girou novamente o placar: 2 a 1 para o Brasil.

O Brasil mandava no jogo, e aos 7 do segundo tempo foi Pelé, de canhota, que começou a impor sobre o placar a diferença que se via em campo. Aos 19, novamente ele, agora com o pé direito, após uma grande jogada de Garrincha. Dez minutos depois, o mundo já se colocava de joelhos diante do Brasil, e principalmente de Pelé, que marcou seu terceiro gol na partida e o quinto da seleção, matando no peito e estufando a rede francesa. Aos 39, a França diminuiu, mas a goleada já estava sacramentada – e o Brasil encontraria os temidos anfitriões suecos na final, no dia 29 de junho de 1958.

A seleção que enfrentou a Suécia na final

Enquanto país-sede, os Suecos tiveram a preferência para vestir a camisa amarela e, por isso, foi necessário que o chefe da delegação brasileira comprasse um jogo de camisas azuis e mandasse bordar em cima da hora o escuda CBD (Confederação Brasileira de Desportos) e os números amarelos.

A camisa usada por Vavá na final

Os brasileiros temiam que o novo uniforme trouxesse azar à final, e aos 4 minutos de partida a Suécia abriu o placar. Didi, com a elegância imperial e a liderança efetiva que lhe era inata, repetiu o gesto de Pelé contra a França, buscando a bola no fundo das redes e calmamente atravessando o campo com ela debaixo dos braços, até coloca-la no centro do campo – como que afirmando que o Brasil não se deixaria abalar, que não haveria superstição capaz de parar a seleção. Ele tinha razão.

Pelé entre os marcadores suecos

Foram precisos dois lances similares para que o Brasil virasse o jogo com dois gols de Vavá, o primeiro aos 9 e o segundo aos 32, com Garrincha indo ao fundo e cruzando para a área e Vavá escorando ao gol. Aos 10 minutos do segundo tempo, porém, não só o momento mais emblemático e plasticamente belo de todo o mundial, como um dos gols mais bonitos em todos os tempos: na entrada da área, Pelé recebe a bola, dissolve o imenso defensor sueco com um chapéu perfeito e, sem deixa-la tocar o chão, estufa as redes do anfitrião com fúria e perfeição e, ao mesmo tempo, com a explosiva e transformadora alegria juvenil.

Ali, o futebol se tornava mais do que um mero esporte, como algo maior do que a vida – enfim o futebol era transformado em arte, por um menino negro e brasileiro derrubando um gigante europeu como se ele fosse um poste, uma mera barreira a ser superada com naturalidade feito o gol fosse o desejo essencial da bola quando estava nos pés de Pelé.

A incrível impulsão de Pelé na final sueca

Não é exagero afirmar que o futebol moderno começava ali, com a seleção brasileira reinventando o futebol enquanto os adversários pareciam jogar uma versão ancestral e rudimentar do esporte. Zagallo ainda faria o seu, aos 23 do segundo tempo e, mesmo com a Suécia diminuindo, aos 35, era mesmo o dia de Pelé, de coroar a realeza, de oferecer os louros àquele grupo de artistas que haviam, diante dos olhos do mundo, demonstrado na prática, nos pés, até onde aquele esporte poderia ir.

Aos 45 do segundo tempo, numa justa despedida daquele impressionante torneio, feito fosse um bis em um grande espetáculo, Pelé ainda fez mais um, e a história estava sacramentada: 5 a 2 para o Brasil, que enfim se tornava campeão mundial. O capitão Bellini se tornaria o primeiro a realizar o imortal gesto de levantar a taça na história.

Dali pra frente, a seleção comprovaria que a final de 1950 havia mesmo ficado pra trás, e que, nesse novo futebol inaugurado pela seleção de 1958, não só o Brasil seria um império como Pelé seria seu rei, sendo até hoje o maior artilheiro da seleção, com 95 gols em 115 partidas. Na Copa seguinte, em 1962 no Chile, Pelé se machucaria na primeira fase, e seria a vez de Garrincha afirmar sua grandeza, conduzindo o país ao bicampeonato. O apagão de 1966 não faria marca alguma nesse trilho dourado, pois em 1970 viria a joia final da coroa sobre a cabeça do Rei, com possivelmente o mais emblemático e belo título da melhor seleção em todos os tempos – tendo sempre Pelé como o camisa 10.

Entre Didi e Gilmar, Pelé chora o título de 1958

Os títulos de 1994 e 2002 foram, assim como todo e qualquer título que vier será, uma extensão do que fez aquele grupo de atletas na Suécia há exatos 60 anos, em especial ao longo dos 90 minutos da final do mundial.

Gilmar, Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos e Orlando, Didi, Vavá, Zagallo, Garrincha e Pelé são os 11 imortais que golearam a Suécia naquele 29 de junho inesquecível – o dia em que o próprio Brasil se encontrou com uma de suas mais finas artes nacionais, com um aspecto fundamental de sua identidade cultural, e que o mundo descobriu uma nova forma de arte, e se curvou diante do desabrochar de um rei.

Abaixo, a final contra a Suécia na íntegra:

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, Vitor Paiva é doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores, publica artigos, ensaios e reportagens.

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