Entrevista Hypeness

Quebrada Queer sonha com LGBTQs se sentindo seguros rimando e mandando rap

por: João Vieira

Os anos 1990 foram determinantes para o rap brasileiro. A mixtape Holocausto Urbano, lançada no primeiro ano da década por quatro homens negros das periferias paulistanas, moradores das zonas sul e norte mais especificamente, foi o começo de uma onda que tornou a cena mais acessível e a colocou em lugares até então inimagináveis, como a MTV e as rádios mais populares do país afora.

Os quatro homens eram Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, que preferiam ser chamados de Racionais MCs. O flow do conjunto trazia uma deliciosa soma de samples irresistíveis de sucessos da música negra nas décadas anteriores, com rimas que apresentavam aos bairros do centro a realidade da favela, de uma forma direta e bastante didática.

O sucesso dos Racionais criou um buraco na barreira formada pelo preconceito racial que separava a indústria musical do rap. Por esse buraco, o mundo finalmente viu, do lado de lá, preciosidades como Pavilhão 9, DJ Hum, Fausto Fawcett, Thaíde, MC Jack, Código 13 e tantos outros.

DJ Hum e Thaíde nos anos 1980

Chegou a hora de uma nova barreira ser violada.

Se o debate em cima da democracia racial é pilar fundamental do rap, o machismo e, principalmente, a homofobia, são defeitos da cena ainda em discussão extremamente embrionária.

É aqui que começamos a falar do Quebrada Queer.

Murillo, Guigo, Lucas Bombeat, Tchelo e Harlley formam o Quebrada Queer

O grupo de MCs, formado por Guigo, Harlley, Lucas Boombeat, Murillo Zyess e Tchelo Gomez,  aproveitou o mês do orgulho LGBT para abalar as estruturas do rap brasileiro e lançar seu primeiro single, que leva o nome do conjunto, e apresenta um verdadeiro manifesto da comunidade com um flow tão intenso quanto Racistas Otários, o maior sucesso da primeira mixtape dos Racionais.

O grupo lançou seu primeiro single no começo de junho

A falta de atendimento do rap a esse setor da sociedade provocou uma grande comoção em torno das rimas proferidas pelos MCs. A identificação instantânea que boa parte do público sentiu, levou o single dos rapazes ao topo do top 50 de virais brasileiros do Spotify na primeira semana do mês.

Hypeness foi atrás do Quebrada Queer para entender como eles têm enxergado esse momento de mudança no rap brasileiro e o que esperar para o futuro. Conversamos com o Guigo e parte do grupo, e você pode ler a entrevista completa abaixo:

Hypeness – Como foi o processo de formação do grupo? Vocês já se conheciam?

Guigo – Todos nós já tínhamos um trabalho na música individualmente e acabou que essa junção foi bastante orgânica. Eu já tinha a colaboração do Murillo em Dandara (música autoral do Guigo em parceria com Murillo Zyess) e depois fizemos Liga o Mic ( música de Murillo, onde Guigo e Glória Groove participam). Harlley também já tinha uma parceria com Murillo em Me Devora (música autoral do primeiro EP de Harlley).

O que acontece é que nosso cenário era muito restrito e isso criava um contato entre nós! Tchelo e eu já conversávamos pelas redes sociais e acompanhávamos um o trabalho do outro, e o Lucas está prestes a lançar um trabalho solo mas já tinha um trabalho importante na música, trabalhando com outros artistas da cena. Ou seja, rapidamente fomos ligando os pontos e isso automaticamente criou o fio condutor. Nós decidimos que seria bacana juntar as vivências e fazer disso um coletivo. E o resto é música!

Quando realizaram a capacidade de cada um como MCs, o que serviu como gatilho pra vocês encararem a homofobia e machismo intensos que existem no rap pra darem a cara como rappers assumidamente LGBTQs? 

Guigo – Acreditamos muito na importância da representatividade e na responsabilidade que o artista tem com seu público, e esse foi o principal motivo. Entendemos que em nossa geração não haviam grandes nomes de representatividade pra nós no rap, e isso foi o ponto inicial.

Precisávamos penetrar nesse meio e cavar oportunidades, uma vez que elas não existiam. Pra nós, Quebrada Queer é exatamente isso, é a representatividade que os próximos rappers gays ou de qualquer sigla terão pra se sentirem seguros, pra pisar nesse solo seco e machista! Estamos tentando reparar esses danos, que há anos tem se tornado uma ferida aberta na música.

O rap sempre fez parte da vida de vocês?

Guigo – Acho que pra maioria de nós ele sempre existiu. Murillo vem de uma família bastante inserida no meio, acompanhava as batalhas de MC’s e seus primos participavam dela inclusive. Lucas também tem uma grande bagagem e experiência no assunto. Harlley e Tchelo, apesar de terem trabalhos bastante diferentes que flertam com o R&B e sonoridades afro, escutam artistas do gênero e carregam uma bagagem que vem do rap dos anos 1990.

No meu caso não, eu nunca escutei efetivamente, embora sempre soubesse que a métrica das minhas músicas automaticamente me levavam pro rap, eu sempre fui muito resistente ao estilo, exatamente por conta da falta de representatividade.

Como vocês se viam representandos na cena? 

Guigo – O que acho que é um consenso entre todos nós é que o rap sempre foi a fonte, mas havia algo nele, algum espaço a ser preenchido. É inegável que o som se comunica conosco de diversas outras formas. Afinal, o rap é muito abrangente em seus princípios, e existem outros pontos dos quais nós ainda pretendemos falar a respeito, que já são bastante discutidos. Como questões relacionadas com desigualdade social, política e etnia.

Mas a representatividade no que diz respeito a orientação sexual, o rap sempre deixou a desejar! E é exatamente por essa carência que precisávamos falar o que falamos no Quebrada Queer.

Quebrada Queer juntou novos artistas da música negra brasileira

Vocês compõem o primeiro grupo de grande impacto e assumidamente LGBT a surgir no rap brasileiro. Nos anos 1990, os Racionais quebraram uma barreira que existia entre o estilo e o mercado e mudaram completamente o futuro da cena. Vocês conseguem se imaginar tendo um impacto semelhante na comunidade? 

Guigo – Esse impacto já existe, e agora estamos trabalhando muito pra que esse legado se estabeleça na cena. Pode parecer presunção nossa dizer isso, mas a forma como esse som se conectou com pessoas incrédulas, que já haviam desistido do rap e voltaram a acreditar que ainda é possível falar de realidade com bons argumentos é absurda. Nossa missão agora é fazer com essas pessoas voltem, que se sintam seguras novamente, além de tentar cicatrizar a ferida que esse tal som feito pra homens vestido como rap tem cultivado em nossa comunidade.

Eu quero dizer é que a comunidade LGBTQ, em sua maioria, nunca se conectou com o rap por terem criado uma casca, uma barreira que distanciava todo e qualquer LGBTQ da cena. E eles fazem tanto parte disso quanto qualquer outro outro indivíduo!

A nossa missão é resgatar essas pessoas, tornar essa cena que sempre teve como discurso o acolhimento, algo verdadeiro novamente! Um lugar seguro na música pra nossos irmãos e irmãs! E faremos isso!

Quebrada Queer já está em turnê

Desde o lançamento do primeiro single, vocês receberam apoio de algum nome de peso do rap brasileiro? O quanto vocês julgam importante serem abraçados pela cena pra conseguirem prosperar? 

Guigo – Na realidade, acredito que o mais importante pra nós é ser abraçado pelas pessoas, de uma forma geral sabe? São elas as principais responsáveis por tudo o que aconteceu. E pra nós, mais importante do que qualquer validação de algum nome de peso, é a validação do público. Mas o apoio de artistas dos quais nós somos fãs é algo muito bacana pra nós enquanto indivíduos, entende?

Nós somos pessoas normais, feitas de carne, osso e coração como qualquer um. E ter esse apoio de artistas dos quais nós nos inspiramos nos ajuda a entender o quão importante é o que estamos fazendo. Essa semana tivemos a honra de ser convidados a assistir o show do Criolo, que é sem dúvida um artista do qual todos nós somos grandes fãs. Ele nos recebeu em seu camarim e nos deu todo o apoio e amor que poderíamos receber. Foi um artista que nos marcou muito com palavras de boas vindas e um abraço honesto e sincero. Isso foi um momento extremamente importante e que significa muito pra todos nós.

Criolo recebeu o Quebrada Queer em seu camarim

Quais são os planos daqui pra frente? Vem lançamento de CD, novos singles, turnês? 

Quebrada Queer – Nós fomos pegos de surpresa com tudo o que tem acontecido, e estamos nos estruturando pra que tudo aconteça. Nós temos um repertório de show que unifica nossos trabalhos solos com os próximos lançamentos e é nisso que a princípio vamos trabalhar. Existem muitas musicas boas em nossos repertórios solos que são tão representativas quanto o som que lançamos, que queremos apresentar para as pessoas, musicas como Dandara, Liga o Mic, Me empoderei, Filho do capão e até mesmo a recém lançada Guerreiros e Guerreiras, de autoria do Lucas Boombeat.

Essas músicas estão em nosso setlist e queremos poder apresentá-las para as pessoas. São musicas dos nossos trabalhos individuais que resolvemos aliar ao nosso trabalho enquanto Quebrada Queer, e que trabalharemos em shows. As turnês já estão sendo organizadas, os shows já estão prestes a acontecer e no que se refere a singles… Vocês ainda não viram nem o começo. Eles também estão a caminho!

 

 

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João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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