Matéria Especial Hypeness

A influência de Bruce Lee no cinema vai mundo além de ‘Kill Bill’ e das artes marciais

por: Vitor Paiva

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Em uma indústria cultural historicamente dominada pelos países de língua inglesa, com uma quase onipresença de artistas, esportistas e celebridades em geral ingleses e americanos nas telas de cinema, no rádio, na TV e entre os discos mais vendidos, três nomes em especial superaram tal predomínio e se tornaram referências imensas e incontestáveis em suas áreas, mesmo vindo de países ditos periféricos: Bob Marley, Pelé e Bruce Lee. Um jamaicano, um brasileiro e um chinês são ainda hoje nomes maiores que a própria indústria, que seus países, que a barreira de língua e linguagem ao alcançarem o justo status de ícones internacionais da cultura pop.

Em outras áreas, em especial na política, naturalmente que outros nomes também se imortalizaram no inconsciente coletivo, como Che Guevara, Fidel Castro, Gandhi e Eva Péron. Nas artes e na cultura de modo geral, no entanto, poucos alcançaram a imensidão, o impacto e a influência de Marley, Pelé e Bruce Lee – e o lutador e ator chinês nascido nos EUA que tornou-se sinônimo dos filmes de lutas marciais e um dos mais reconhecidos rostos e estilos de toda a história do cinema faleceu há exatos 45 anos, no dia 20 de julho de 1973. A mais óbvia referência hoje da influência de Bruce Lee apontaria diretamente para Kill Bill, de Quentin Tarantino, mas seu impacto, no entanto, vai muito além de somente ter se tornado o maior nome dos filmes de luta da história.

Na clássica canção Um Índio, o compositor Caetano Veloso localizou um Bruce Lee tranquilo e infalível ao lado de Muhammad Ali, o índio Peri e os filhos de Gandhi para significa-lo como a encarnação de uma verdadeira força da natureza – e revendo hoje o impacto e o legado de Lee Jun-fan, nome de batismo do ator, diretor, roteirista, lutador, artista marcial e professor nascido em Hong Kong em 27 de novembro de 1940, é justa a impressão do poeta baiano: Bruce Lee parecia de fato um poderoso elemento da natureza.

Paradoxalmente, no entanto, suas atuações em filmes também possuem um caráter cômico, próximo ao caricatural – e nem por isso são menos especiais. Pelo contrário, talvez seja também por isso que Bruce Lee tenha se tornado um ícone do tamanho que ainda é: pelo profundo entendimento artístico, estético, de entretenimento que possuía a respeito de sua imagem, de seus filmes, de sua relação com o público. Bruce Lee era acima de tudo um grande artista, e por isso se tornou o impávido símbolo internacional das lutas orientais dentro da indústria cultural.

Se engana, no entanto, quem pensa que Lee era um farsante, um mero bailarino capaz de reproduzir movimentos de luta mas incapaz de efetivamente lutar. Antes de estrelar os cinco grandes filmes de sua filmografia – sim, bastaram somente cinco obras para que Bruce Lee se tornasse Bruce Lee – o jovem nascido em San Francisco, mas crescido em Hong Kong em uma privilegiada família na colônia inglesa e filho de uma estrela da ópera na China foi de fato um grande lutador, que começou a treinar Wing Chun e Kung Fu a fim de se afastar das lutas de rua e do universo das gangues que estava se envolvendo em Hong Kong durante sua adolescência.

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Além de se aperfeiçoar em tais técnicas (incialmente sob os treinos de seu pai, e depois do mestre Ip Man), Lee viria a fundar sua própria arte marcial, o Jeet Kune Do.

O jovem Bruce Lee

Para além da distante e sobrenatural capacidade técnica e existencial que costuma formar a aura dos grandes mestres das lutas orientais, há algo muito mais próximo, mundano e caloroso sobre a figura de Bruce Lee em seus filmes que certamente ajudou alça-lo para além de seu sucesso à condição de um ícone: diferentemente do boxe, que exige uma força sobre-humana em corpos inatingíveis – tornando os pugilistas quase uma outra espécie de animal, mais próximo de um urso do que de uma pessoa -, Bruce Lee, por mais atleticamente preparado que fosse, possuía uma figura um tanto normal, um corpo belo e musculoso porém ainda humano, uma imagem simpática e próxima – ao menos até começar a lutar. Era com elegância, eficácia, feito um dançarino que Bruce Lee vencia suas lutas, em nada similar à brutalidade e a truculência habitual de lutas como o boxe.

Acima, Bruce Lee começando a treinar; abaixo, com Ip Man, seu mestre de Wing Chun

E desse ponto podemos perceber outro aspecto comum que une Lee, Marley e Pelé como essa santíssima trindade da cultura pop periférica: nenhum dos três é branco nem europeu. Em suas peles, feições, línguas (pois mesmo o inglês de Bob Marley é profundamente marcado por sua orgulhosa ancestralidade), trejeitos, influências e principalmente na maneira com que realizaram suas artes está a marca de suas origens – países pobres, politicamente complicados, riquíssimos culturalmente, contudo, e que se parecem e soam muito mais com a maioria da população do que os deuses do tradicional Olimpo cultural anglo-saxão.

Em O Besouro Verde, série de TV que significou sua entrada no showbusiness

Da mesma forma que um menino negro e pobre se impôs feito um rei transformando em arte o mais popular esporte do planeta, um compositor e cantor negro, advindo de um pequeno e paupérrimo país situado em meio ao Caribe, seguidor de uma exótica religião cantou a verdade sobre os horrores sofridos pelo povo negro com uma graça, um talento e uma força que o colocam ao lado dos maiores artistas da história da música popular. E assim se deu também não só o triunfo de Bruce Lee nas telas, em cada luta em seus filmes (às vezes objetivamente contra personagens norte-americanos ou de origem europeia) como também em sua própria carreira e no imenso êxito que alcançou. Ainda que esse nunca seja objetivamente o tema tratado na primeira camada de suas narrativas, e pouco importa se as lutas eram coreografadas, seu triunfo é também o triunfo do pária, do marginalizado, do periférico – e a vitória do talento, do conhecimento, da justiça, da poesia e da beleza sobre o poder.

Foi, afinal, pelos filmes de Bruce Lee que os asiáticos e orientais começaram a deixar de serem retratados de forma caricata, preconceituosa, ofensiva e até humilhante no cinema americano. Antes de Bruce Lee, e em especial antes de Operação Dragão,  filme dirigido e estrelado por Lee em 1973, os orientais eram quase que exclusivamente retratados como servos, vilões inescrupulosos, inimigos desumanos sem personalidade ou complexidade, ou figuras caricaturais presentes nos filmes somente para funções cômicas – e sempre como coadjuvantes, nunca como personagens principais. Se as histórias eram passadas no oriente ou vividas por personagens necessariamente de tal origem, ainda assim eram atores ou atrizes de origem europeia ou americana que os viviam nos filmes.

Pôster americano de Operação Dragão

Até entrar em cena Lee, o personagem vivido por Bruce em Operação Dragão – um homem poderoso, orgulhoso, habilidoso, senhor de si, bonito e que, acima de tudo, em nada se parecia ou agia como os heróis do cinema que estávamos habituados. Não são os americanos ou ingleses quem salvam o mundo ao fim do filme, mas sim esse jovem chinês, mais forte e sábio que qualquer outro, e capaz de enfrentar o crime sozinho. Como quando uma minoria triunfa também triunfam todas as outras – assim como triunfam os que desejam um mundo menos preconceituoso e mais justo – não é por acaso que o filme tenha feito tanto sucesso não só entre os orientais pelo mundo, mas também com a população negra, latina, entre as mulheres e com todos aqueles que, mesmo brancos, sentiam-se inferiorizados, fracos, perseguidos ou ameaçados: Bruce Lee vingava a todos, com o carisma que tanto lhe era peculiar – e que necessariamente costuma ser a pessoas que se elevam à condição de ícones.

Lutando (e derrotando) Chuck Norris no Coliseu romano em O Voo do Dragão

Além de ator, diretor e lutador, Lee é também visto como filósofo e até como poeta – ele de fato escreveu poesia ao longo da vida, reunidas postumamente em livros, revelando um lado inesperado de tal figura – mais sombrio, desiludido, como um outro lado de sua filosofia e atuação de vida. Bruce Lee morreu ainda muito jovem, aos 32 anos, de um edema cerebral, possivelmente fruto de uma reação alérgica intensa a um remédio, no dia 20 de julho de 1973. Rapidamente, como costuma acontecer com tais figuras maiores do que a própria vida, rumores, teorias e conspirações nasceram ao redor de sua morte – alegando assassinato, perseguição e até mesmo uma maldição que pairaria sobre sua família.

Estátua de Bruce Lee em Hong Kong

Tudo isso, no entanto, é também fruto de seu imenso impacto – e da dificuldade que temos em ver uma figura tão grandiosa, à qual justamente costumamos dizer serem maiores do que a própria vida, sucumbir diante da inevitável finitude. Operação Dragão foi lançado poucos dias após a morte de sua estrela, e ajudou justamente a pavimentar o caminho de Bruce Lee, já falecido, à imortalidade – e é considerado por muitos como o melhor filme de luta em todos os tempos. Bruce Lee se transformou em sinônimo de tal estilo, abrindo espaço não só para a cultura das artes marciais no ocidente como para as próprias noções de força, sabedoria e destreza tanto ligadas a tal cultura em nosso inconsciente coletivo. Por tudo isso que Bruce Lee é um dos artistas mais influentes de todo o século 20, ajudando a transformar e ampliar o inconsciente coletivo em tantas frentes, e de forma irrevogável e, ao mesmo tempo, bela, única, feito um guerreiro que, ao mesmo tempo, é um bailarino – tranquilo e infalível.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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