Roteiro Hypeness

Como eu, blogueiro de turismo LGBT, fui recebido na Namíbia, país onde é proibido ser gay

por: Rafael Leick

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Imagine um país de 2 milhões de habitantes espalhados em um território imenso de mais de 825 mil km², ou seja, 2,2 habitantes por km². Imagine que esse país tem paisagens surreais como dunas encontrando oceanos, pedras com gravuras rupestres, cidades abandonadas invadidas por areia, cemitério de árvores petrificadas em meio a dunas gigantescas e muito contato com animais selvagens.

A imagem que você acabou de formar em sua cabeça é da Namíbia, país africano de colonização alemã, mas que fala inglês por já ter feito parte da África do Sul. Foi para lá que eu fui há pouco mais de um ano, por conta de uma promoção imperdível de passagem aérea.

Depois da passagem comprada, me questionei se, sendo gay, eu teria uma boa experiência naquele país. Sendo editor do Viaja Bi!, um blog focado em turismo LGBT, como eu iria disfarçar caso a imigração implicasse comigo? Afinal, a Namíbia é um país onde a relação entre homens é ilegal e a condenação é por sodomia, sem sentença definida, sendo a ILGA. Não há informação sobre relações entre mulheres. A única proteção que eles têm à comunidade LGBT é que a Instituição Nacional de Direitos Humanos inclui orientação sexual em seus trabalhos no país. E só!

A Namíbia, na África, é um país bastante machista, o que tem a ver com LGBTfobia? - Foto: Viaja Bi!

A Namíbia, na África, é um país bastante machista, o que tem a ver com LGBTfobia? – Foto: Viaja Bi!

Antes de ir, descobri também que é um país bastante machista e que, apesar de a homossexualidade não ser um grande tabu para turistas, a população local não pode ser assumida. Como em toda sociedade machista, rola a hipocrisia de que eles podem sair à noite para curtir com outro cara desde que ninguém fique sabendo. À noite, tudo é permitido, mas no dia seguinte, nada aconteceu. Vai entender…

Dado esse cenário, parece assustador, mas foi uma das viagens mais sensacionais que já fiz na vida e faria de novo várias vezes, sem dúvida. Com tão baixa densidade populacional, será raro encontrar alguém pelo caminho, caso você alugue um carro e viaje por conta própria, como eu fiz, ou se fizer passeios com agências locais. Então, são menores as chances de sofrer discriminação mesmo com esse cenário.

Como a LGBTfobia, se cavocar um pouco, tem suas raízes no machismo, vou contar aqui de uma experiência que tive lá na Namíbia visitando a tribo dos Himba, um dos últimos povos semi-nômades da África que sobreviveram à colonização alemã e ao genocídio do começo do século 20, sem absorverem os costumes europeus pois migraram para regiões desérticas que ocupam o norte da Namíbia e passa pela fronteira com a Angola. Tá, mas o que uma coisa tem a ver com a outra? Vem comigo que te explico.

Visita à tribo Himba

Fiz essa viagem com meu amigo, também Rafael e também blogueiro no Seu Mochilão (e autor de algumas das fotos aqui), e sabíamos que a visita à tribo Himba era uma das coisas que não poderia ficar de fora do nosso roteiro de 9 dias pelo país. Ouvimos de algumas pessoas que fazer uma visita dessas era como ir a um safári ou zoológico humano. Mas acredito que tudo depende da forma que encaramos as visitas e procuramos evitar esse tipo de comportamento ou de passar essa sensação. Tentamos, então, encontrar a tribo que fosse a mais realista e menos turística possível. Num país como a Namíbia, tão grande, mas tão espaçado e que está aprendendo a viver do turismo (melhor que o Brasil em alguns pontos), foi difícil de achar.

Tribo Himba perto de Kamanjab, na Namíbia - Foto: Viaja Bi!

Tribo Himba perto de Kamanjab, na Namíbia – Foto: Viaja Bi!

Por fim, encontramos uma que fica perto da cidadezinha de Kamanjab. Ela fecha para visitantes às 18h, então aceleramos pela estrada para chegar antes do acampamento fechar. Montei barraca e dormi ali, encostado em uma pedra só tendo meu amigo na barraca do lado e mais ninguém por perto. Foi (in)tenso.

No dia seguinte cedo, a guia do passeio veio nos buscar, conhecemos a pequena escola da comunidade, que tem como lustre uma garrafa pet cheia de água enfiada em um buraco no teto, para que a luz se espalhasse. Não havia cadeiras. Algumas das crianças vestiam roupas da tribo, outras tinham roupas das que estamos mais acostumados a ver, mas todas ficaram excitadíssimas de poder cumprimentar os dois estrangeiros que chegavam ali.

A iluminação da escola da tribo Himba, na Namíbia, vem de uma garrafa pet com água no teto - Foto: Seu Mochilão

A iluminação da escola da tribo Himba, na Namíbia, vem de uma garrafa pet com água no teto – Foto: Seu Mochilão

As crianças da tribo Himba, na Namíbia, vindo cumprimentar o gringo (eu) - Foto: Seu Mochilão

As crianças da tribo Himba, na Namíbia, vindo cumprimentar o gringo (eu) – Foto: Seu Mochilão

Normalmente essas aldeias são formadas por uma única família. Ao entrar na tribo em si, me senti um invasor. Apesar de eles já estarem acostumados com o turismo e, de certa forma, viver dele, não era um cenário montado para turista. Era realmente como viviam e dava para sentir isso no ar.

As construções eram feitas de barro e cobertas com palha e se postavam ao redor de uma área circular demarcada com troncos de madeira. Essa área central era ligada, por uma linha imaginária à moradia principal, do chefe da tribo (o homem mais velho) e, entre os dois locais, uma outra área dedicada aos rituais. Nenhum visitante pode cruzar essa linha imaginária sem autorização. Quer passar para o outro lado? Dê a volta na moradia principal.

As crianças da tribo Himba, na Namíbia, brincando - Foto: Viaja Bi!

As crianças da tribo Himba, na Namíbia, brincando – Foto: Viaja Bi!

Cercado ali no meio ficavam o gado e as galinhas, mas que naquele momento estavam com os homens da tribo em outro lugar. Aparentemente, os homens passam o dia fora, seja para coletar água, pastorar o gado ou conseguir comida e frutos e as mulheres ficam a cargo de botar a tribo em ordem e lidar com os turistas. Portanto, foram só elas que conheci.

Todas estavam com os seios à mostra e exibiam adornos no pescoço, nas pernas, ao redor dos seios e na cabeça. Cada um deles tem um significado diferente, relacionado à idade e ao seu status social. Dependendo do que cada uma usa, pode significar que ainda não menstruou, que já menstruou mas não tem filhos, que já tem um filho ou mais de um e que é casada. Todas as fases reprodutivas estampadas em seus acessórios. 😮

Os acessórios das mulheres da tribo Himba, na Namíbia, indicam sua idade e status social - Foto: Viaja Bi!

Os acessórios das mulheres da tribo Himba, na Namíbia, indicam sua idade e status social – Foto: Viaja Bi!

Mulher rindo na tribo Himba, na Namíbia - Foto: Viaja Bi!

Mulher rindo na tribo Himba, na Namíbia – Foto: Viaja Bi!

O cabelo é dividido em várias “mechas” cobertas com argila. De tempos em tempos, elas desfazem essas mechas, limpam o cabelo com cinzas e refazem todo o processo que, segundo elas disseram, é bem doloroso, pois puxa bastante os fios no couro cabeludo e fica bastante pesado com a argila.

Essa argila, aliás, tem várias funções e é uma mistura de gordura e ocre. Além do cabelo, também é usada como cosmético feminino. As mulheres passam na pele “porque faz bem”, para dar coloração, para proteger a pele do sol e também porque o cheiro forte ajuda a afastar os insetos. Elas passaram um pouco na minha mão e o cheiro realmente é forte e, por dias depois de sair da tribo, continuei com o cheiro na minha mente, me lembrando dessa experiência na tribo Himba.

Uma das mulheres da tribo Himba passou a mistura que usam na pele no meu braço - Foto: Viaja Bi!

Uma das mulheres da tribo Himba passou a mistura que usam na pele no meu braço – Foto: Viaja Bi!

Eu com a matriarca e outras mulheres da tribo Himba, na Namíbia - Foto: Seu Mochilão

Eu com a matriarca e outras mulheres da tribo Himba, na Namíbia – Foto: Seu Mochilão

Sentado no chão dentro da moradia do chefe da tribo junto com a guia e uma das mulheres, fiquei sabendo que os homens não são monogâmicos e que as casas à direita dessa são das mulheres do “cacique”. A casa prinicipal é da primeira esposa. A próxima casa é da segunda esposa e assim por diante. Os homens podem ter quantas mulheres quiserem, mas têm a obrigação de dormir cada noite com uma, sem falhar. As mulheres são amigas e se ajudam na criação dos filhos uma da outra.

Lá dentro, as duas me mostraram a bolsinha de cosméticos com dois compartimentos, um com argila e um com cinzas, e um objeto de madeira esquisito que fui saber depois que era o travesseiro do homem. Ressalto que é dele porque o travesseiro da mulher é o braço do homem, não tem um objeto daquele para ela. Ou seja, ela depende do marido para dormir direito.

Travesseiro dos homens e bolsa de cosméticos das mulhers na tribo Himba, na Namíbia - Foto: Viaja Bi!

Travesseiro dos homens e bolsa de cosméticos das mulhers na tribo Himba, na Namíbia – Foto: Viaja Bi!

Dentro da moradia principal da tribo Himba, mulher demonstrou como elas tomam banho com fumaça - Foto: Seu Mochilão

Dentro da moradia principal da tribo Himba, mulher demonstrou como elas tomam banho com fumaça – Foto: Seu Mochilão

Elas também demonstraram como tomam banho e lavam roupa. Mas, calma, não é nada obsceno. Elas tem uma cumbuca com brasas onde colocam umas ervas. E a fumaça que sai dali é o que usam para “tomar banho”. A fumaça, para eles, purifica, limpa odores e mata parasitas. Até as partes baixas elas limpam dessa maneira, agachando em cima da cumbuca (mas isso ela não demonstrou, tá?). Também sentam com as pernas em volta da cumbuca e baixam para limpar o rosto e o cabelo. Mas vale lembrar que os homens têm reservado para si água para o banho.

Essa mesma cumbuca pode ser usada para “lavar roupa”. Em cima dela, é colocado um cone vazado feito de madeira, que serve como varal para as roupas serem colocadas em cima e serem “defumadas” pela fumaça da limpeza. Muitas das roupas são de couro de animal e assim são limpas.

Souvenirs vendidos pelas mulheres da tribo Himba, na Namíbia - Foto: Viaja Bi!

Souvenirs vendidos pelas mulheres da tribo Himba, na Namíbia – Foto: Viaja Bi!

Meu amigo comprando souvenirs das mulheres Himba - Foto: Viaja Bi!

Meu amigo comprando souvenirs das mulheres Himba – Foto: Viaja Bi!

Um pouco mais tarde, grupos de vários turistas gringos chegaram à tribo com suas máquinas fotográficas em uma excursão, passeando entre o círculo formado pelas mulheres sentadas no chão com peças de artesanato à venda, seja um animal de madeira, como o elefante que eu comprei, ou pulseiras feitas de cano PVC, que são vendidas em todas as lojas de artesanato do país, ou uma outra feita com a mesma pedra usada nos adornos que as mulheres usam no calcanhar.

A saudação também é diferente: Moro Periwi Naua, três palavras que significam algo como “olá”, “tudo bem?” e “tudo certo”. Você dá sua mão e diz “Moro”, segura o polegar do seu interlocutor e fala “Periwi” e volta para o cumprimento que conhecemos e diz “Naua”.

Para mim, essa visita à tribo Himba foi um choque atrás do outro. É bizarro pensar em tanta coisa diferente da nossa realidade de uma vez. Mulheres dependendo do marido em uma microsociedade machista numa espécie de submissão. E eles vivem assim, muito bem, obrigado.

 

Reflexões pós-visita sobre machismo e LGBTfobia

Saí da visita meio anestesiado, pensando no quanto estamos evoluídos do lado de cá em tantas questões, mas o quanto nos distanciamos do contato com a natureza e o que ela nos oferece e também dos cuidados com nossa essência espiritual, independentemente de religião.

Não é fácil administrar os pensamentos e digerir a visita. De um lado, meu lado humano acha bizarro que as mulheres sejam submetidas a esses tipos de situação e pensa que a felicidade delas é por pura ignorância de não perceber a diferença feita com e pelos homens. Esse lado tem vontade de gritar “miga, deixa de ser trouxa”. De outro, fico intrigado e em certa maneira encantado com as formas que cada povo, seja de uma mega cidade ou de uma pequena aldeia como essa, se organiza para viver bem.

Mulher Himba com seu filho na tribo namibiana - Foto: Viaja Bi!

Mulher Himba com seu filho na tribo namibiana – Foto: Viaja Bi!

E em todas as sociedades, inclusive na nossa, o machismo continua operando livremente, mesmo que as mulheres tenham, aqui, direito ao seu próprio travesseiro.

Mas o que toda essa história tem a ver com a LGBTfobia? Bom, pense que sociedades machistas entendem que numa relação entre duas mulheres, sempre “falta algo” e entre dois homens “tem uma mulher da relação”. De uma maneira ou de outra, o homem é a solução de todos os problemas que esse pensamento cria e o feminino é sempre tratado como algo negativo e/ou inferior. Então, o machismo é a base para a discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero.

Mulheres Himba vendem souvenirs aos turistas junto com seus filhos - Foto: Viaja Bi!

Mulheres Himba vendem souvenirs aos turistas junto com seus filhos – Foto: Viaja Bi!

Me peguei pensando, ao sair da tribo, em coisas que vão um pouco além. Imagine que um daqueles homens da tribo seja gay ou bissexual. Qual o espaço que ele tem para ser quem ele realmente é?

Isso me fez pensar qual o espaço eu quero ocupar na sociedade. Ser um cidadão passivo vendo a vida passar e as coisas acontecerem ou ser proativo e, de fato, promover e provocar mudanças? E você, qual papel quer ter?

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Rafael Leick
Criador do Viaja Bi!, primeiro e principal blog de viagens LGBT do Brasil. Publicitário paulistano, fez intercâmbio em Londres e lá começou a escrever sobre viagem. Trabalhou com órgãos de promoção turística da Argentina, Espanha, Reino Unido, Curaçao, entre outros, e empresas como AccorHotels. Ministrou palestras no Brasil e no Peru e foi Diretor de Turismo da Câmara LGBT do Brasil. E, claro, é pai do Lupin.

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