Matéria Especial Hypeness

Dos parabenos ao chumbo: como os cosméticos tradicionais podem afetar sua saúde

por: Mari Dutra

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Aqua, Cocamidopropyl betaine, PEG-80 Sorbitan Laurate, Sodium Trideceth Sulfate, Sodium Benzoate, Citric acid, PEG-150 Distearate, Parfum, Polyquaternium-10, Tetrasodium EDTA, CI 47005, CI 15985.”

Parece aula de química avançada, mas são apenas os ingredientes de um dos xampús para bebês mais famosos do Brasil. Era também a embalagem de produto de higiene/beleza mais próxima quando comecei a escrever esse texto.

Com “água purificada“, “pH balanceado” e “fórmula ainda mais pura“, o xampú passa a imagem de um produto inofensivo, mas é praticamente impossível interpretar os nomes presentes na embalagem. A lista de ingredientes segue o padrão da Nomenclatura Internacional de Ingredientes Cosméticos (INCI), conforme requer a Anvisa.

Foto: Divulgação Cosmetologia do Bem

No próprio site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, são indicados outros dois recursos para quem busca entender as substâncias utilizadas nos cosméticos. Trata-se do Inventário de Cosméticos da União Européia (em inglês) e de um documento em pdf que permite ler a tradução das funções de alguns ingredientes para o português.

Resumindo: a informação é praticamente inacessível ao consumidor brasileiro.

A cosmetologista Roseli Siqueira é autoridade no assunto. Formada na Faculdade de Belas Artes, ela estudou cosmetologia na Argentina e fez especializações nos Estados Unidos, Chile, Ásia e Europa. Entre suas clientes, estão as atrizes Cléo Pires, Zezé Polessa, Mariana Ximenes, e a cantora Fafá de Belém.

Fafá de Belém, por sinal, já comentou em entrevistas que não usa protetor solar por recomendação de Roseli. Se a atitude parece perigosa, é porque certamente você ainda não leu a lista de ingredientes dos protetores vendidos por aí. “O filtro vem com muita química, hormônios, baixa a resistência da pele da pessoa“, diz a cosmetologista

Foto: Divulgação Roseli Siqueira

O produto pode ser facilmente substituído por um óleo natural de coco ou de gergelim. “Mas tem que ser natural. Não adianta usar o sintético, pois 90% dos óleos são sintéticos“, avisa Roseli. A técnica funciona porque o óleo natural aumenta a emulsão epicutânea, que melhora a defesa natural da pele contra a radiação. Além disso, estes óleos não deixam aquela sensação de “fritar a pele” e ainda permitem que o corpo absorva a vitamina D.

Mas nada adianta usar ingredientes naturais se a exposição ao sol não for moderada. “Tem que tomar sol, mas de forma segura, já que o sol pode causar alergia, eritemas, edema de glote. Antes de ir para o sol, hidratar muito bem a pele e tomar o sol lentamente. O correto seria começar com 15 a 20 minutos no sol antes das 10h, sempre com a pele muito bem umectada e hidratada, além da ingestão de líquidos (água e sucos). Vá aumentando a exposição aos poucos (5 minutos por dia) para ganhar aquele bronzeado dourado. Depois de meia hora, tem que ir para sombra/se vestir. Se tomar muito sol em pouco tempo a pele fica ressecada e corre o risco de manchar, pois os melanócitos sofrem com a exposição exagerada“, destaca Roseli.

Foto: Divulgação Cosmetologia do Bem

Roseli não é a única a alertar sobre os riscos que algumas matérias primas oferecem. A dermatologista Andréa Sampaio, da clínica Dermasense, também adverte sobre o assunto: “O uso de determinadas substâncias em cosméticos pode provocar dano à pele e prejuízo à saúde, como o uso de fenoxietanol e ftalatos, sendo esta substância considerada cancerígena. O uso de outras como os parabenos podem gerar lesões na pele como dermatites e irritações, bem como o uso excessivo de sabões que contenham lauril sódico“, comenta.

Dermatologista Andréa Sampaio. Foto: Divulgação

Andréa recomenda que suas pacientes evitem produtos de beleza de origem desconhecida, “que possam conter pigmentos de baixa qualidade, com chumbo em alta concentração em sua formulação. Deve-se evitar também uso de cremes ricos em fragrâncias, que podem gerar desconforto e irritação em peles mais sensíveis“.

O chumbo realmente está presente em diversos cosméticos, como protetores solares, bases, esmaltes de unha, batons e até pasta de dente e pode causar diversos males à saúde.

Dermatologista Andréa Sampaio em atendimento. Foto: Divulgação

O chumbo que pode estar presente em batons e maquiagens em geral é proveniente da contaminação dos corantes e pigmentos utilizados e, por isso, nunca vai estar listado nos rótulos dos produtos, não adiantando portanto tentar identificá-lo dessa forma. Para esse caso, a Anvisa define que o limite máximo permitido para a concentração de chumbo é de 20 ppm, ou seja, 20 partes por milhão. O chumbo é citado como cancerígeno, ligado a tumores de estômago, fígado e de pulmão“, destaca a engenheira química Renata Franco.

O acetato de chumbo também tem seu uso regulado pela Anvisa em tinturas capilades, desde que a sua concentração não passe de 0,6%. “A exigência é que se destaque nos rótulos das tinturas capilares que utilizarem acetato de chumbo em sua composição alertas como: manter fora do alcance de crianças, evitar contato com os olhos, não utilizar durante a gravidez, lavar bem as mãos após o uso e não usar para tingir os cílios, sobrancelhas e bigodes“, comenta.

Ao lado da também engenheira Yara, Renata é criadora do site Cosmetologia do Bem. No site, são compartilhadas informações que visam guiar os consumidores a escolher cosméticos melhores e também a criar suas próprias fórmulações.

Renata e Yara, fundadoras do Cosmetologia do Bem. Foto: Divulgação

Uma área do site do projeto é dedicada a fornecer informações sobre quais substâncias evitar na compra de um cosmético. Vasculhando rapidamente essa parte, descobrimos que até 90% dos cosméticos possui parabenos, uma substância que já foi encontrada em tecidos de mama cancerosos, o que aumenta a suspeita de sua ligação com a doença.

De olho nos danos causados pelos cosméticos convencionais, a relações públicas e empresária Daniela Trolesi Martins, de 36 anos, também decidiu investir em uma opção de desodorante natural após ver uma dermatologista falando que a pele é o maior órgão do nosso corpo e, por isso, merece mais atenção do que damos a ela.

Foto: Cortesia Daniela Trolesi Martins

Vi essa mesma dermatologista falando sobre como os desodorantes causam inúmeras alergias, por conta principalmente do alumínio, dos parabenos e do triclosan (além das pesquisas, ainda não conclusivas, sobre um possível aumento da incidência de câncer de mama por conta do uso constante dessas substâncias). Comecei então a buscar alternativas“, diz Daniela. A jovem passou a comprar desodorantes de marcas artesanais, feitos com ingredientes mais naturais. “Não senti uma diferença prática significativa nessa mudança de hábito, mas pra mim conta muito o fato de ter a consciência de que estou fazendo melhores e mais saudáveis escolhas pro meu corpo de uma forma geral“, conclui.

Além dos desodorantes naturais comercializados no Brasil, há diversas receitas caseiras espalhadas pela internet, como a divulgada pela Bela Gil, ou o desodorante criado pela Cristal Muniz, do blog Um Ano Sem Lixo.

Foto: Divulgação Cosmetologia do Bem

Melhora momentânea

Muita gente acredita que cosméticos com ingredientes que parecem velhos conhecidos, como a vitamina C, sejam necessariamente bons para a pele. Roseli Siqueira, no entanto, discorda: “as pessoas não têm consciência do que acontece com a pele quando aplicam a vitamina C. Na hora a pele estica, pois aumenta a acidez, fecha os poros, suaviza as rugas e aparenta uma melhora. A pele é composta por uma emulsão epicutânea (óleo e água) natural e com o uso abusivo da vitamina C vai comprometendo vagarosamente a saúde das células e acaba perdendo essa proteção natural. Depois de três anos a pessoa vai ter que usar mais cremes e mais hidratantes (ela vai precisar de uns cinco cosméticos a mais), e com certeza ela manchou ou enrugou a pele“.

Quanto aos cremes para o rosto, a cosmetologista lembra que muitos têm uma acidez em torno de 7, enquanto o PH da nossa pele é de 5,5. Com o aumento da acidez, a pele estica, porém enfraquece. Dessa forma, vemos uma melhora momentânea e, dentro de poucos anos, a resistência da pele diminui e faz com que ela apresente mais pintas, rugas, manchas e flacidez – justamente aquilo que se busca evitar ao usar um creme para o rosto. “Geralmente a solução é indicar o filtro solar. E mesmo usando o filtro vai manchar, já que a pele é térmica. Qualquer sensação de calor a mancha vem à tona. A pessoa fica escrava do tratamento, não pode tomar sol, nem sentir calor“, diz.

Foto: Divulgação Cosmetologia do Bem

Entre as principais substâncias e tratamentos a evitar, Roseli destaca a hidroquinona, que estaria associada ao câncer de pele pelo efeito inibidor da melanina; o lauril sulfato de sódio, encontrado em xampús e sabonetes líquidos, responsável por baixar a resistência da pele e dos cabelos; e a vaselina, muito usada em hidratantes, mas que costuma ressecar a pele após o uso.

Para fazer em casa

Entre as substâncias a evitar ao fazer um cosmético em casa, Roseli sugere não usar frutas, pois algumas delas contém muita acidez. “O leite do mamão corrói a pele e se fizer uma máscara com ele pode ficar com cicatrizes. O limão também mancha e dá eritemas“, exemplifica.

Foto: Divulgação Cosmetologia do Bem

Apesar disso, as criadoras do Cosmetologia do Bem garantem que as vantagens de criar seus próprios cosméticos são inúmeras. Além da economia, há o reaproveitamento de embalagens e é possível customizar as fórmulas para que se adequem exatamente ao que a pessoa está buscando. Outro benefício é o fato de conhecer todos os ingredientes que estão sendo usadas na pele e, assim, evitar contato com substâncias perigosas.

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Créditos das fotos sob as imagens


Mari Dutra
Depois de viver na Argentina, na Irlanda e na Romênia, percebeu que poderia carimbar o passaporte mais vezes caso trabalhasse remotamente. Hoje escreve para o Hypeness e mantém um blog de viagens, o Quase Nômade, em que conta mais de suas experiências pelo mundo.

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