Matéria Especial Hypeness

EUA cria memorial para jamais esquecer a vergonha da escravidão. Brasil deveria fazer o mesmo

por: Kauê Vieira

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Registros históricos dão conta de que os primeiros negros transformados em objetos de venda pública desembarcaram em Portugal por volta de 1444. A partir de 1492 o tráfico de pessoas escravizadas entre o Atlântico se intensifica e promove uma integração entre África, as Américas e Europa em um processo contínuo até meados do século 20.

Como relata em seu livro A Crítica da Razão Negra o escritor camaronês Achille Mbembe, a “transnacionalização da condição negra é um momento constitutivo da modernidade, sendo o Atlântico seu lugar de incubação”.

Ao lado do Brasil e de países como o Haiti e Jamaica, os portos dos Estados Unidos foram grandes receptores de famílias de negros escravizados despidas de suas culturas e costumes. Estima-se que os primeiros escravizados tenham desembarcado no país norte-americano em 1619 e de início a presença estava na casa das 500 mil pessoas.

A concentração de negros escravizados se deu sobretudo nas regiões Sul e Sudeste, principalmente na Geórgia e Carolina do Sul. Aliás, foi por meio da mão-de-obra negra que os produtores sulistas conseguiram a libertação dos ingleses e reuniram condições para criar uma nova dinâmica econômica nos EUA. A escravocrata.

Neste momento se inicia o que ficou conhecido como período de segregação racial nos Estados Unidos. Segundo Achille Mbembe, que atualmente leciona na Universidade Witwatersrand, em Joanesburgo, emerge também o “capitalismo mercantil”, fruto do acúmulo riqueza por meio das plantações.

Achille Mbembe enxerga o período da escravidão como fundamental para o capitalismo

Desde então muita coisa se transformou nos EUA e o surgimento de figuras como Rosa Parks, que se recusou em ceder o seu lugar para uma pessoa branca no Alabama racista dos anos 1950, Martin Luther King Jr. e Malcolm X, reforçaram o espírito de aglutinação dos negros.

Recentemente os EUA, que até pouco tempo governados pelo primeiro presidente afro-americano de sua história, revelaram ao mundo o Memorial Nacional pela Paz e pela Justiça, dedicado às pessoas negras vítimas de todo o tipo de violência de supremacistas brancos desde 1800 até meados do século 20.

Localizado em Montgomery, no Alabama – um dos estados mais segregacionistas do país, o local conta com os nomes de mais de 4 mil pessoas assassinadas e esculturas impactantes relatando as violências sofridas por homens, mulheres e crianças.

Já na entrada, os visitantes se deparam com uma escultura de bronze do ganês Kwame Akoto-Bamfo, com seis figuras humanas, em tamanho real, desesperadas e presas com correntes. Em entrevista ao Hypeness, Luka Franca, jornalista, feminista e paraense radicada em São Paulo, destaca a importância do museu no combate ao racismo e conscientização dos efeitos nefastos da escravidão.

“Quando vi que haviam construído esse memorial a primeira coisa que me veio à cabeça é de que finalmente em algum lugar no mundo há o reconhecimento do que significa o racismo para uma parte considerável da população mundial e que esse tema não é algo do nosso passado, mas está é real no nosso presente. Inspira a resistência contra o genocídio que sofremos em vários países do mundo e a disputa dura que travamos contra o encarceramento em massa e a guerra às drogas. Por fim, ter um memorial desses em uma região dos EUA que atrocidades sem tamanho foram cometidas contra o nosso povo demonstra que é possível sim que o Estado e a branquitude reconheçam seus erros e desenvolvam formas para que eles não sejam esquecidos e nem repetidos sem serem paternalistas ou condescendentes”, analisa.

A luta de advogados rendeu em um espaço significativo para os negros

A consumação deste espaço de memória e resistência é inspirada no Memorial do Holocausto, na Alemanha e no Museu do Apartheid, que fica na África do Sul. Fruto do levante da comunidade negra dos Estados Unidos, aqui representados por um grupo de advogados que atuam desde a década de 1990 pela igualdade racial.

“O debate sobre violência racial nos EUA tem ganhado cada vez mais fôlego nos últimos anos, tanto que temos o surgimento do Black Lives Matter, o debate sobre a agenda de desencarceramento tem ganho força e mesmo a disputa contra a política de guerra às drogas ganhou a opinião pública naquele país. Creio que a principal lição e inspiração a ser tirada com essa notícia é o fato de que lidar com o racismo é uma necessidade de uma disputa política da estrutura da sociedade de classes”, explica Luka.

Historicamente a sociedade norte-americana se recusa em jogar luz sobre o período escravocrata e segregacionista, que na prática dura até os dias atuais, mas foi perdendo força no início da década de 1970. Em entrevista ao jornal New York Times o advogado Bryan Stevenson, líder da ONG Iniciativa por Justiça Igualitária, ressalta a importância das figuras impactantes para as gerações futuras.  

“Ao passo que os cadáveres linchados eram erguidos e expostos para que toda a comunidade afro-americana visse, de acordo com o advogado, muitos dos descendentes dos autores desse tipo de violência nunca tiveram que confrontar essa brutalidade e falar sobre ela”.

Seguindo a mesma linha Luka Franca, que não acredita que a discriminação racial tenha sido mais explícita por lá, cobra uma revisão histórica deste porte no Brasil. Para a jornalista o genocídio de negros brasileiros é enfrentado até a atualidade.

“Foram de formas diferentes, mas no próprio Brasil o processo vivido no pós-abolição era de segregação em boa parte das cidades brasileiras. Mas acho que o fato de haver o Memorial Nacional para a Justiça e Paz em um país que massacrou e massacra sua população negra é um passo importante para que as próximas gerações não esqueçam do que significou a diáspora para nós, sabe? É um marco simbólico importante na disputa de corações e mentes contra o racismo. Seria algo muito bom se houvesse algo similar no Brasil, lembrando o que significou o processo de escravidão para a negritude e indígenas, a expropriação das terras e o genocídio que enfrentamos até os dias atuais. Algo assim garante a memória e a verdade sobre os crimes da supremacia branca e racista nos EUA”.

O memorial está em uma área ocupada por um antigo mercado escravocrata

Tal como nos EUA, os portos brasileiros foram uma grande porta de entrada de negros africanos em condição de escravos. Só na Bahia aportaram quase 2 milhões de pessoas e perto de 200 mil morreram no Atlântico durante a tortuosa travessia. Os efeitos deste processo racista, abolido oficialmente em 13 de maio de 1888, são sentidos até hoje.

De acordo com estudos feitos pela Anistia Internacional a condição de vulnerabilidade da população negra brasileira ainda atinge níveis alarmantes. Para se ter ideia dos impactos o Mapa da Violência divulgado há poucos dias demonstrou que a taxa de homicídios de negros subiu 18%, enquanto a de brancos caiu 12% .

Entre os especialistas e defensores dos direitos humanos a ausência de políticas antirracistas e principalmente de um debate educacional – passando pela construção de museus e espaços de memória como nos Estados Unidos, contribuem para uma sensação de cordialidade racial.

“Os efeitos tão demonstrados nos dados do último Atlas da Violência que foi lançado este ano, uma aumento brutal dos homicídios de jovens de negros e dos feminicídios de mulheres negras. Não nos acertamos realmente com o que significou a escravidão para negros e indígenas no Brasil abre espaço para que se diga que racismo é piada ou opinião, quando tem efeitos diretos na garantia de terras, de vida, de direitos como um todo. O Brasil tem um problema enorme em não conseguir superar diversos momentos assombrosos de sua história, passa pela escravidão e pela ditadura civil-militar, por exemplo, tanto que nossa democracia ao longo de todos os anos 1990 e esse início de século XXI tivemos dezenas de massacres no campo e na cidade que atingiram, especialmente, indígenas, negritude, trabalhadores rurais e defensores de direitos humanos. Superar nossa história com reparação real é um passo fundamental para combater os absurdos que vivenciamos nos dias de hoje”, pontua em conversa com o Hypeness a jornalista e feminista Luka Franca.

Negras e negros formam quase 54% da população do Brasil, entretanto poucos são os museus determinados em debater não só a escravidão, mas principalmente em exaltar os aspectos que envolvem a cultura negra. Em São Paulo, por exemplo, o Museu Afro-Brasil exerce este papel graças aos esforços incomensuráveis de seu gestor, o baiano Emanoel Araújo.

“Pra mim há dificuldade por conta de não lidarmos com o racismo como um problema estrutural da sociedade. Ganhamos as ações afirmativas, mas para elas serem efetivas precisamos de garantia de permanência e assistência estudantil nas universidades, de programas a combate ao racismo institucional nas autarquias que implementaram cotas em seus concursos públicos. Não existe pensar as políticas públicas de combate ao racismo se não se implementa de forma concreta as leis 10.639 e 11.645, ou quando não pensamos o combate ao encarceramento em massa, a desmilitarização da nossa segurança pública e uma série de outras medidas que combatem o racismo em sua raiz”, analisa Luka.

 

Por séculos a economia sulista nos EUA foi baseada na escravidão

Representatividade importa e no caso brasileiro ela é fundamental para uma sociedade mais igualitária e livre de preconceitos, ou seja, é importante que haja um espaço na comunicação, por exemplo, para esta pauta tão importante.

“Não existe pensarmos igualdade racial se não pensamos um processo efetivo de regulamentação e democratização da comunicação no país. É uma das questões importantes para se combater o racismo estrutural, para além disso é fundamental mudanças no nosso modelo de segurança pública, garantia de educação emancipadora e antirracista e uma saúde pública que realmente olhe pro que é a maioria da população brasileira. Garantir direitos iguais passa, pra mim, necessariamente por termos políticas universais que pensem o universal que realmente existe em nossa sociedade e não colocar como universal o estereótipo branco, masculino, hetero e cis que é imposto ao longo dos séculos como padrão de humanidade”.

Cultura é arma antirracista

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Fotos: Wikimedia Commons


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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