Entrevista Hypeness

Entrevista Hypeness: ‘Falar sobre emoções em uma roda de homens é um ato revolucionário’

por: Paulo Moura

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“Falar sobre emoções em uma roda de homens é um ato revolucionário”. Esse comentário feito em um dos encontros promovidos pelo MEMOH, sintetiza bem a proposta desse negócio social criado pelo publicitário Pedro de Figueiredo. A ideia é reunir homens ‘incomodados’ com seu papel em uma sociedade repleta de comportamentos e padrões machistas e ser o gatilho para um processo de transformação.

Fundado em julho de 2017 no Rio de Janeiro, após a especialização de Figueiredo em Desenvolvimento de Negócios Sociais e Inclusivos na ESPM, o MEMOH nasceu para promover o debate entre os homens sobre comportamentos dos quais não gostariam mais de replicar, mas que não sabem de que forma abandoná-los.

A premissa é a de que justamente por meio do compartilhamento de angústias relacionadas a masculinidades que se cria um elo entre os homens que antes achavam que suas questões eram individuais. Esse é um ponto de partida fundamental para que eles puxem para si a responsabilidade sobre suas atitudes e como elas podem impactar a questão da desigualdade de gênero no mundo. “Acreditamos que nós temos capacidade de, por conta própria, reconhecer nossos erros e buscar a mudança de comportamento. Não podemos exigir das mulheres que se responsabilizem por nos “transformar” enquanto se protegem de violência e negligência masculinas, que, como sabemos, afeta toda a nossa sociedade de forma sistêmica. Isso faria com que continuássemos nos esquivando das responsabilidades e deixando só sobre os ombros das mulheres trabalhar a questão”, afirma Figueiredo.

O MEMOH mantém hoje dois grupos fixos formados por 20 pessoas que já realizaram mais de 40 encontros no Nex Coworking, na Glória, e na ESPM, no centro da cidade. A cada encontro, um tema diferente relacionado à masculinidade é proposto a partir de um questionamento ou angústia dos participantes. “Ao longo desses meses, o MEMOH identificou que muitos homens acabam se reconhecendo mais machistas do que imaginavam ser quando ingressaram no projeto. A partir deste autoconhecimento, eles iniciam uma mudança interior que não tem fim. Por exemplo, o sujeito passa a ficar constrangido de participar de conversas preconceituosas, que antes nem percebia como tais, e passa a pensar em formas de se manifestar contra esses assuntos”.

Para estender o debate às empresas, o MEMOH desenvolveu o Workshop Despertar, que visa envolver as lideranças das organizações para iniciar o trabalho de reflexão com os colaboradores e testar a aceitação do tema nas empresas. Outra proposta é a implementação de rodas de diálogo customizadas para as organizações, reunindo colaboradores que queiram ajudar a mudar a cultura da empresa em que trabalham.

Confira abaixo a entrevista que Pedro de Figueiredo concedeu ao Hypeness:

Hypeness – Muitos grupos que acolhem o masculino, hoje, levantam a bandeira (direta ou indiretamente) de que homem também é oprimido. Isso não só embute no masculino um papel de (também) vítima perigoso, como desvaloriza a luta das mulheres, que resistem contra violência, desigualdades e direitos cerceados dos mais diversos tipos. Você toma algum tipo de cuidado para não se colocar neste lugar? Qual(is)?

Pedro – O primeiro cuidado que temos é o de sempre seguir e nos atentar ao propósito de promover equidade de gênero, fazendo o homem refletir sobre seu modo de agir consigo, com o outro e com a sociedade. O surgimento do MEMOH se deu a partir da escuta do que as mulheres estavam nos dizendo e do entendimento que nós homens também somos parte das questões de gênero. A ideia é exatamente apoiar a luta das mulheres, sem roubar o lugar de fala e o protagonismo delas.

Ao entender que reproduzimos um padrão de comportamento para sermos aceitos como “homens de verdade”, percebemos o real problema, que é o de permitir – mesmo os homens “bem-intencionados” – que a violência de gênero aconteça. O homem violenta mulheres, minorias (em relação a poder), outros homens e até ele mesmo. O MEMOH existe para que isso tudo seja questionado e para que possamos rever atitudes que até então considerávamos como “normais”.

Não seguimos o caminho da vitimização, que pode haver em outros grupos, mas entendemos que exercer esse papel de homem que fomos condicionados é, sim, prejudicial para nós mesmos. Mais uma vez, os movimentos feministas nos ajudam, inclusive, a entender isso melhor.

Quando vocês falam em masculinidades, acolhem, por exemplo, homens negros e periféricos? Pessoas que têm uma realidade completamente diferente e que estão lutando pra sobreviver — literalmente, já que a taxa de mortalidade entre jovens negros é alarmante, se comparado a jovens brancos? Que medidas ou ações vocês tem no sentido desta inclusão para um debate completo que transcenda a superficialidade?

Pedro – Sim. Quando falamos que é um grupo de homens, queremos falar com todo mundo que se identifica como tal. Vimos, logo de cara, que, quanto mais diverso, mais rica torna-se a troca. Os participantes ainda são, em sua maioria, homens brancos, heterossexuais, cisgêneros, entre 25 e 35 anos. Ainda como reflexo do meu círculo social particular, que foi o que originou o projeto. Mas isso tem mudado aos poucos. Há, atualmente, diversos homens pretos, inclusive de regiões periféricas. Para que isso aconteça, contamos com a disposição dos próprios participantes de chamar outros homens – essa é a principal forma de captação do MEMOH. A partir do momento que existem homens negros dentro do espaço, fica mais fácil que mais homens negros apareçam. O mesmo serve para homens gays e homens trans. Também há uma preocupação das rodas acontecerem em lugares de fácil acesso. Hoje, os dois grupos fixos que temos, acontecem bem próximos a estações de metrô, sendo um deles no Centro da cidade.

Quais atitudes cotidianas que hoje você se policia para não praticar mais hoje por indiretamente denunciarem algum viés machista?

Pedro – Só percebi recentemente o quão negligente sempre fui com as tarefas domésticas. Assumir a responsabilidade da minha parte é algo que busco fazer como prática de uma mudança da minha postura. Outra atitude que se tornou mais fácil de notar é como interrompia mulheres. Gosto de falar em conversas e acabava, por diversas vezes, não deixando que a mulher terminasse seu raciocínio para já colocar meu ponto de vista. Hoje, me esforço para perceber isso e respeitar o espaço de fala para evitar que o erro se repita.

Uma mudança que percebo em mim é o jeito de me portar em espaços públicos. Mesmo sabendo que não vou fazer nada de errado, sei que, ao cruzar com uma mulher numa rua escura à noite, só a minha presença já representa a ela uma ameaça. Procuro, então, acelerar ou diminuir o ritmo do passo, dependendo da situação, ou até mesmo atravessar para o outro lado da rua.

Há algum feedback das mulheres dos participantes dos encontros que vocês promovem? Como vocês avaliam se as rodas de conversa estão de fato gerando mudanças comportamentais?

Pedro – Não tenho acesso a todas as mulheres que se relacionam com os participantes, mas, as que conheço, já colocaram coisas interessantes. Uma delas disse que o companheiro “só melhorou 50%”. Falou num tom de “ainda falta muito”, mas já foi o suficiente pra me deixar empolgado. Afinal, foi uma melhora, na opinião dela, de 50% no comportamento, em menos de um ano de trabalho, que nos sinaliza um resultado tangível. Uma outra diz que quando o parceiro comete alguma ação que considera machista, ela o alerta falando “olha o MEMOH, hein…”, “isso aí você tem que levar lá pro MEMOH…” colocando o grupo como um lembrete e uma forma de forçá-lo a refletir sobre o que fez/falou. Amigas de um participante mais velho também falaram que “depois que ele começou a ir nos encontros passou a ouvir mais o que a gente fala”. Talvez tenha sido o feedback que mais me chamou atenção.

Há a intenção de gerar algum retorno financeiro do projeto?

Pedro – O MEMOH é um negócio social. A intenção é a de gerar impacto positivo – por isso a nossa preocupação crescente em mensurar o trabalho de formas diferentes. Contudo, não queremos depender de doações para existir e continuar o trabalho, portanto buscamos ser autossustentáveis financeiramente. Para isso, temos um modelo de negócios baseado no subsídio cruzado. Ou seja, promovemos gratuitamente esses espaços de troca entre homens e, por outro lado, oferecemos serviços para empresas, instituições e organizações de uma maneira geral para envolver os homens em questões de gênero no ambiente corporativo do qual fazem parte. Assim, visamos ter recursos para sustentar e expandir o alcance do projeto como um todo.

Quem tiver interesse em participar de uma reunião do MEMOH o que deve fazer? Quais são os próximos encontros?

Pedro – No nosso site temos um mini formulário que serve também para manifestar o interesse em participar. Hoje temos dois grupos fixos – muito em breve serão três – com encontros quinzenais, ambos na cidade do Rio de Janeiro. Um grupo acontece às segundas, no Nex Coworking, na Glória, e o outro às terças, na ESPM, no Centro da cidade. Se a pessoa tiver disponibilidade, basta se inscrever no site e poderá participar.

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Paulo Moura
Jornalista paulistano que adotou o Rio de Janeiro como casa. Possui mais de 15 anos de experiência em comunicação corporativa e é sócio-diretor da Agência VIRTA. Apreciador de cerveja, comida ogra, mar e tudo aquilo que combina ou remete a ele.

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