Ciência

Já pensou em produzir seu próprios remédios? Este biohacker ensina como fazer

por: Vitor Paiva

Um dos mais maquiavélicos e cruéis campos de atuação do capitalismo é sem dúvida a saúde. Transformar em mercadoria a vida das pessoas (e em monopólio e lucro aquilo que deveria ser direito alienável de todos) é um símbolo dos excessos que o sistema capitalista impõe sobre a população mais pobre – e não só através do acesso a serviços e hospitais, mas também através dos remédios. E foi por isso que o doutor em matemática e biohacker americano Michael Laufer se tornou um inimigo declarado da indústria farmacêutica nos EUA. Para lutar contra essa injustiça fatal, Laufer desenvolveu um projeto que ensina a fabricação caseira de medicamentos.

O biohacker Michael Laufer

Seu lema é claro e direto: uma patente de um remédio não pode ser mais importante que a vida. Foi depois de visitar El Salvador como voluntário da Human Rights Watch que Laufer, que é presidente do Departamento de Matemática da Faculdade de Menlo, na Califórnia, diante do sofrimento e da dificuldade da população em conseguir seus remédios, que ele começou a criar o Four Thives Vinegar. Trata-se de um site que justamente ensina quem não tem dinheiro a fabricar em casa seus medicamentos.

Acima, Michael em Menlo; abaixo, seu escritório, onde se lê “Por favor, não me deixe morrer”.

O termo “biohacker” foi criada para denominar justamente quem subverte a lógica do mercado ligada à medicina e aos remédios. “Existe um choque entre a economia e a moralidade. As pessoas estão morrendo por causa de uma propriedade intelectual. É assim como a economia real funciona? Não precisamos disso”, disse Laufer. Em seu site ele ajuda a sintetizar elementos químicos, construir um laboratório caseiro, desenvolver medicamentos e muito mais, através de soluções simples utilizando computadores e, por exemplo, transformando potes de vidro em conserva em misturadores de fórmulas .

Laufer em uma palestra

O trabalho de Laufer e muitos outros biohackers (o movimento prefere ser intitulado de “biologia comunitária”) se opõe diretamente à prática de empresas como a Turing, farmacêutica que recentemente elevou medicamentos contra toxoplasmose e HIV, entre outros, em até 5.000%. Não por acaso, o presidente da companhia, Martin Shkreli (que recentemente foi condenado a sete anos de prisão por crimes financeiros), é conhecido como “o homem mais odiado da internet”. Para provar a eficácia de seu projeto, Laufer desenvolveu justamente remédio para toxoplasmose e uma injeção de adrenalina caseira chamada Epipencil por preços muito abaixo do mercado.

Laufer com o Epipencil

Mesmo no Brasil, onde o sistema de saúde público oferece medicamentos e tratamentos e o preço dos remédios é regulado pelo governo, a população acaba muitas vezes desassistida e, para esses casos, Laufer vê seu projeto como uma importante opção. Sua maior luta é pela abertura dos códigos de moléculas, substâncias e fórmulas. Para ele, a produção caseira de remédios só tende a crescer, de tal forma que um dia seu site não precise mais existir. “Não seremos mais necessários. Espero que o mundo comece a fazer seus próprios medicamentos, e o movimento de código aberto assuma o controle e encontre maneiras de fazê-lo melhor do que nós.”. Uma dose de anarquia, quem diria, pode ser componente fundamental para a formula de nossa saúde.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.


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