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No Brasil, Malala pede: ‘Vocês precisam levantar suas vozes, trazer a mudança na política’

por: Gabriela Rassy

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A notícia da vinda de Malala ao Brasil causou frisson desde o primeiro anúncio. Como jornalista, fiquei emocionada com a oportunidade de estar perto de uma pessoa de ideais e luta tão lindos e necessários. Não demorou para a notícia se espalhar e para amigos com trabalhos pela educação começassem a buscar formas de estar no evento organizado para que a ativista paquistanesa pudesse trocar experiências com jovens, professores e entusiastas de suas ações.

Malala Yousafzai é a pessoa mais jovem em toda a história a receber um Prêmio Nobel da Paz – na época, com 17 anos. Sua história de luta começa antes ainda, em um momento que o Talibã proibiu as meninas de estudarem. Ela, na época com 11 anos, insistiu em ir à escola, da qual seu pai inclusive era dono. Um jornalista local da BBC pediu ao pai de Malala indicação de jovens que estariam dispostos a falar sobre essa situação. Foi então que a menina começou a escrever o blog “Diário de uma Estudante Paquistanesa”, sob um pseudônimo.

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, em visita à capital paulista, participou de evento no Auditório Ibirapuera

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, em visita à capital paulista, participou de evento no Auditório Ibirapuera

A história logo ganhou as páginas de jornais no mundo todo e, em 2011, ela já foi cotada para o Nobel. No ano seguinte, dois homens entraram no ônibus escolar, a chamaram pelo nome e dispararam contra ela e outras duas garotas. O tiro na cabeça a levou a uma cirurgia e o caso ganhou mais notoriedade ainda. Ela foi transferida para um hospital em Birmingham, na Inglaterra, passou ainda por mais uma cirurgia e se recuperou impressionantemente sem sequelas. Falou em público alguns meses depois, na Assembleia de Jovens da ONU, quando reforçou que não seria silenciada por ameaças terroristas.

A vinda ao Brasil

Esta foi a primeira vez de Malala no país. Dentro do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, o clima era de emoção. Olhos brilhantes e corações abertos esperavam a corajosa garota para trocar experiências e buscar melhorias na educação brasileira. Na plateia, representes de organizações educacionais, da infância, dos direitos humanos e estudantes de escolas públicas.

Evento com Malala lotou o Auditório Ibirapuera, em São Paulo

Evento com Malala lotou o Auditório Ibirapuera, em São Paulo

No palco, o papo com a ativista era composto por outras mulheres que trabalham pela educação: a escritora mineira Conceição EvaristoTia Dag, fundadora da Casa do Zezinho; Tábata Amaral, ativista por uma educação de qualidade para todos os brasileiros e cofundadora do “Movimento Mapa Educação”; e Ana Lucia Villela, presidente do Instituto Alana e primeira mulher a integrar o Conselho de Administração do Itaú Unibanco. A conversa foi mediada pela jornalista Adriana Carranca, autora do livro “Malala, a menina que queria ir para a escola”.

Além de ter recebido muitas cartas e pedidos para que viesse ao Brasil, Malala diz que um grande motivo de sua vinda é que 1,5 milhão de meninas do país não têm acesso à educação. “Também fui provada da educação quando tinha 11 anos. Eles entenderam que o empoderamento da mulher vem através da educação e por isso proibiram as mulheres de frequentar a escola. A educação é muito mais do que ler e escrever; é sobre emancipação e empoderamento da mulher”, disse. Assim, seu objetivo é o acesso global de mulheres à educação, inclusive no Brasil. Sua vinda tem esse objetivo: garantir que todas as meninas estudem e tenham condições de contribuir com o país. “Não beneficia só as garotas individualmente, mas também a economia, melhorar a democracia e trazer estabilidade aos países”, completou.

Educação é a melhor forma sustentável de investimento a longo prazo que devemos nos focar

O debate começou falando sobre leitura, começando com uma fala da Conceição Evaristo, que reforçou os benefícios também da escrita na formação. “Vivemos num país onde vale o que está escrito, então as pessoas que não têm acesso à leitura e à escrita têm uma cidadania incompleta. A gente espera que a sua presença aqui fortifique esse ideal e esse compromisso que cada um de nós e que o estado brasileiro tem que ter com a alfabetização”, disse a escritora mineira. Conceição falou ainda sobre como a leitura amplifica a visão, mas que a escrita te dá o poder de intervenção no mundo.

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, defende que a educação é o melhor investimento

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, defende que a educação é o melhor investimento

Na família de Malala, ela que lê para sua mãe e não o contrário. “Com seis anos, ela precisou vender os livros e não pôde estudar, mas agora voltou a ler e aprender. Sendo uma filha lendo para uma mãe, tenho um sentimento maravilhoso. Ela é uma inspiração para mim e um dos motivos pelos quais sigo lutando pela educação. Ela me lembra todo dia como o conhecimento é importante para a independência. Quando mudamos para a Inglaterra para meu tratamento, ela não podia ler as placas, chamar um táxi, ligar para o médico, sair para fazer compras, várias coisas básicas que não damos valor, mas quem não tem acesso à educação não pode fazer”, conta.

A plateia participou do debate com boas histórias e referências de outras partes do país. Meninas de Minas Gerais e da Bahia contaram sobre seus projetos locais para a inclusão de todos da educação. Falou ainda, a rapper de 12 anos, Mc Soffia, que fez uma linda fala sobre a importância de empoderar as meninas para lutar contra a discriminação racial. “As pessoas me dizem ‘você é muito nova para falar de racismo’. Mas o racista não vai pensar na sua idade para fazer racismo com você”, disse.

Malala falou ainda sobre as eleições que se aproximam. “Vocês estão decepcionados por conta da política, da situação econômica. Mas seu ativismo, sua luta, sua voz tem o poder de fazer a mudança. Vocês precisam levantar suas vozes, trazer a mudança. Não esperem alguém vir e falar por vocês. Acreditem nas suas vozes e falem por si”.

Projetos para o Brasil

Outro motivo que a trouxe ao Brasil foi um projeto, anunciado um dia depois do encontro no Auditório, para integrar três brasileiras à Rede Gulmakai, uma iniciativa do Fundo Malala que patrocina homens e mulheres que incentivam ou promovem a educação de meninas em vários países. Nós somos os primeiros na América Latina receber o projeto que já contempla Afeganistão, Líbano, Índia, Nigéria, Paquistão e Turquia.

As garotas escolhidas para integrar a Rede são Sylvia Siqueira Campos, presidente do MIRIM (Movimento Infantojuvenil de Reivindicação), de Recife, que luta pelos direitos fundamentais de crianças, adolescentes e jovens, combatendo a discriminação de raça, gênero, origem, condições de vida, credo religioso e ideologia política; Ana Paula Ferreira de Lima, coordenadora da ANAÍ (Associação Nacional de Ação Indigenista), que atua para aumentar o número de meninas indígenas que terminam os estudos no estado da Bahia, e Denise Carreira, coordenadora adjunta da Ação Educativa, de São Paulo, e ativista de direitos humanos, que luta também pela revogação da Emenda Constitucional 95/2016, que trata do teto dos gastos públicos.

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Fotos: Rovena Rosa/Agência Brasil


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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