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Por dentro do barco pirata: a experiência a bordo da programação paralela mais inusitada da FLIP

por: Bárbara Fonseca

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Há 16 anos a Festa Literária Internacional de Paraty proporciona uma vivência diferente às margens do rio Perequê-Açu.

A mistura de literatura, debates, experimentações e histórias com o bucólico cenário das construções coloniais da cidade de 30 mil habitantes, traz à cidade o dobro de pessoas  durante os 5 dias de evento.

A escolha de Hilda Hilst como homenageada do ano deu a dica de como seria o evento de 2018: com mais mulheres, mais libertário e com mais visibilidade para causas sociais.

A ideia do barco, que fez parte da programação paralela da FLIP 2018, surgiu na FLIP 2017, enquanto o editor Caue Ameni (Autonomia Literária) representava algumas editoras independentes na Casa Amarela, conhecida por ser um espaço mais descolado dentro do evento.

Caue notou a dificuldade de atrair o público e os altos custos para ter um pequeno espaço dentro da festa: “Estava difícil de atrair público por que as casinhas são muito parecidas, as ruas não têm nome, as pessoas não conhecem as editoras, fica tudo muito lotado e estava muito caro”. No ano passado, o pequeno espaço custou R$ 15.000 e, nesse ano, dobrou de valor para os cinco dias de evento.

Foi então que surgiu a ideia de fazer de um jeito inovador: dentro do canal, que é um dos pontos principais da cidade, e contra a especulação imobiliária. Caue também faz parte da Rizoma, uma livraria nômade que fica dentro de um ônibus, em São Paulo, e tem o mesmo conceito de fugir do capital imobiliário especulativo.

Diante da alta demanda por espaços durante o evento, os preços dos aluguéis sobem a cada edição, fazendo com que as editoras independentes tenham muitas dificuldades de participar da maior festa literária do Brasil. E foi tentando fugir dessa especulação que o editor teve a ideia de alugar um barco do outro lado da ponte, ao invés de uma casa, para levar as publicações da sua editora e de outras de fora do bloco literário que domina o mercado editorial.

O aluguel de um barco de um pescador ou caiçara local é muito mais barato do que o de uma casa no centro histórico de Paraty e ainda proporciona a fuga do capital rentista imobiliário, que retém quase todas as propriedades do centro histórico da cidade.  

A ideia do barco também tem uma filosofia política por trás, e reside na obra Utopias Piratas. O livro, de Hakim Bey, trabalha a tese de que os piratas que surgiram com as grandes navegações do século 16 foram os precursores da organização do proletariado. As fábricas da época seriam os navios e os barcos piratas, as fábricas ocupadas, dominadas por marujos rebelados que começaram a piratear as riquezas das repúblicas corsárias – com um viés político contra a coroa e a igreja, uma visão mais libertária.

Foi assim que surgiu a FLIPEI – Festa Literária Pirata das Editoras Independentes.

Conseguir apoio não foi um problema para ancorar o barco. Editoras e fundações cooperaram financeiramente (com muito menos do que o esperado, por conta da crise) e outras empresas viabilizaram o evento através de permutas (impressão de jornais, anúncios, cartazes e cenografia). E, para fazer acontecer, a tripulação foi formada por um grupo de pessoas com um viés político autogestionário que participaram ativamente do Centro Acadêmico de Ciências Sociais da PUC – SP, fazendo ações políticas, lúdicas e festas.

A estibordo, no balanço lateral do rio Perequê Açu, aconteceram as mesas que trouxeram para o público, que ocupava um gramado no continente, temas importantes para entender e discutir tanto o cenário literário quanto a economia atual.

As discussões propuseram debates sobre as editoras e as publicações independentes, as dificuldades do mercado editorial formal, o feminismo negro, a economia, a intervenção militar no Rio de Janeiro entre outros temas. O barco foi até palco para shows, saraus e slams. As pautas da FLIPEI, assim como a sua existência, não poderiam deixar de ser polêmicas e subversivas se comparadas com os acontecimentos do outro lado da ponte.

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Fotos Guilherme Ziggy


Bárbara Fonseca
Cervejeira, feminista e torcedora de arquibancada, não perde a oportunidade de levar o protagonismo feminino para esses espaços. Cientista social, é de humanas, mas não tem medo de planilha. Recentemente, mergulhou de cabeça em sua paixão: assina as criações da Cervejaria Catimba e integra o coletivo cervejeiro feminista Sailorina.

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