Matéria Especial Hypeness

‘Resistência sem perder a ternura’, Rita Batista reflete sobre caminhos da comunicação

por: Kauê Vieira

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Salvador é uma cidade marcada pela presença predominante de corpos negros. Experimente só tomar um ônibus na Praça da Sé em direção ao extremo da orla de Itapuã.

Passando pela efervescência da Avenida Sete de Setembro, logo se tem ideia do que esta predominância significa. Mercadores, gritos, cenas que fazem lembrar mercados como o de Kumasi, em Gana. Dali um pouco o passageiro é cumprimentado pelo mar e seus tons de azul flertando com traços de esmeralda. Impossível não se lembrar das belezas retratadas por Dorival Caymmi e Vinicius de Moraes.

Em números a capital baiana, terceira mais populosa do Brasil, abriga cerca de 2 milhões e cem mil afrodescendentes de acordo com dados do Censo. Entretanto, até que ponto esta abundante presença de peles da cor da noite se traduz na comunicação praticada pelos principais veículos soteropolitanos?

Rita ao lado de Luana Assiz, comunicação negra além de estereótipos

Neste sentido Rita Batista, um dos principais rostos e vozes da comunicação exerce papel importante ao se colocar como uma mulher negra que não abre mão de suas características. Plural e presente em quase todas as plataformas de mídia, esta moça formada em publicidade, mas jornalista por exercício, falou ao Hypeness sobre as dores e delícias do jornalismo.

“[A comunicação] Sempre fez parte da minha vida. Eu não me lembro de eu não me comunicando. Eu sempre fui uma criança que me comuniquei muito. Tanto que sempre andei com crianças mais velhas, me impacientava as crianças mais novas, que não acompanhavam meu ritmo, pois eu era de fato uma criança acelerada. Sempre fui.

E eu gostava muito da convivência com adultos. Sempre gostei. De adultos, pessoas mais velhas do que eu. Eu acho que tem a ver com a oralidade africana, moradora do subúrbio. A minha identificação foi desde de muito cedo vendo Glória Maria”, destaca.

Ao longo de sua carreira Rita, criada em Periperi – bairro do subúrbio ferroviário de Salvador, afirma que o grande objetivo sempre foi conhecer pessoas. Aliás, a pluralidade de vozes é uma das máximas do jornalismo.

“Eu digo que eu sou Rita Batista sempre querendo saber quem é você. Então a pessoa que se apresenta desse jeito quer saber das pessoas. Quer conhecer as pessoas. Eu acho que contar histórias faz parte do meu ofício. Nem sempre são histórias boas, bonitas. São histórias de luta, reivindicação. De reclamação de direitos, boa parte das vezes. Mas cada pessoa é de um jeito, cada história tem sempre alguma coisa que nos acrescenta. No fim das contas quem ganha sou eu”, pontua.

“Menino, ser preto na Bahia não é fácil não, viu?”

Atualmente os principais veículos de comunicação do Brasil vivem sobretudo do noticiário policial. Ao andar por cidades como São Paulo e Salvador, por exemplo, é fácil se deparar com estes programas apresentando incansavelmente casos e mais casos de violência.

A pergunta que não quer calar é, até que ponto este segmento de comunicação contribui para o arrefecimento da violência? Recentemente a ONG Andi Comunicação e Direitos mapeou mais de 15 mil irregularidades em jornais policialescos exibidos por 28 emissoras do Brasil. Entre as violações mais comuns estão a exposição indevida, desrespeito a presunção de inocência e o estímulo à violência.

Falando ao Brasil Atual Flávia Lafèvre, membra da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, a Proteste, ressalta que neste universo negros e menos favorecidos socialmente são os mais afetados.

“Apesar de muita gente dizer que não há discriminação racial, os negros têm seus direitos mais desrespeitados, o que é injustificável”, pontua.

Para Rita Batista, que atualmente é a âncora do principal jornal da hora do almoço da TVE Bahia, é preciso haver um cuidado ao ouvir as reivindicações sociais. Não é uma questão de não tratar, mas de como o assunto é abordado.

“O jornalismo por obrigação é pautado pela sociedade. A rigor é isso. E estas temáticas são urgentes e se tornam mais em um ambiente cada vez mais intolerante, reacionário”.

“Se vende muito isso da cultura negra, da contribuição dos negros e negras para a cultura da Bahia”

A apresentadora chama atenção também para a necessidade de se alinhar com as novas mídias digitais, mas sem se deixar levar pela noção de que são espaços de liberdade absoluta.

“Com o advento das redes sociais veio a pseudo permissividade que as pessoas falam o que querem, ofendem. Não procuram debater, simplesmente elas jogam conteúdo e às vezes se valendo de um pseudo anonimato, porque é muito pueril, ingênuo achar que a internet é um terreno sem comando. Que as pessoas estão lá e ninguém vai saber o que você fez. Ledo engano.

Então eu acho que o jornalismo tá cada dia mais próximo disso. Você veja, por exemplo, agora com essa história dos boatos hoje chamados de fake news, acontece no meu celular, no seu, na minha rede social. Na sua rede social. E vira notícia. O desvendar daquilo se torna uma pauta, uma notícia. Tá todo mundo ligado, todo mundo interligado.  Porque as pessoas também receberam aquilo e começam a se tocar de que aquilo é verdade e/ou mentira”, encerra.

Diante deste cenário, enquanto comunicador ou comunicadora negra é preciso, além de assumir uma grande responsabilidade, pelejar contra um sistema que insiste em ir pelo caminho dos estereótipos. Tais estigmas estão presentes no engessamento do profissional, especialmente por meio do apagamento de características como o sotaque, tipo de cabelo, corpo ou roupa.

“É resistência a todo o tempo. Sem perder a ternura. Enfim, eu apresentava telejornal com cabelo trançado. Fazia questão de fazer isso. Eu apresentei programa de televisão de torço na cabeça quando as pessoas não utilizavam torço do modo que utilizam hoje. As meninas inclusive. E fui muito criticada por isso. Muito, sabe?”, relembra Rita.

Glória Maria é referência no jornalismo Brasileiro

 A fala de Rita Batista, que encontra tempo para comandar um programa na Rádio Metrópole e acumula passagens pelo programa A Liga, exibido pela TV Bandeirantes, vai de encontro com a relevância da representatividade, fundamental para a alteração da ordem das coisas.

Daí entra a figura de Glória Maria. Com mais de três décadas de carreira, a jornalista global é uma das precursoras entre mulheres negras na mídia. Sua atuação, seja na reportagem ou no comando de programas como o Fantástico, da TV Globo, pavimentou o caminho para nomes como Maria Júlia Coutinho, Zileide Silva, Joyce Ribeiro, Vânia Dias e a própria Rita Batista.

“A identificação com o povo preto é imediata. Porque é aquilo né, é possível. Mesmo com todas as questões. Todos os problemas, é possível. Representatividade importa. Importa muito. Eu sempre me senti representada por exemplo por Glória Maria na televisão. E hoje eu vejo que sou representação para muitas meninas e meninos pretos que querem também estar na TV ou no rádio. Ou que somos tão próximos porque falamos de coisas muito nossas, né? Independente da classe social, da região em que nasceu e que foi criado no país ou mesmo fora do país, as questões, as ligações que nos unem, nós povo preto, são muito particulares. Peculiares. Então eu acho que isso nos torna mesmo. Somos todos nós lá. Onde quer que estejamos”, assinala.

Citando o cantor *Lazzo Matumbi, Rita diz que é preciso seguir em frente  e que “a coisa vai ficar preta de verdade. E se a coisa tá preta, a coisa tá boa, já dizia o Desabafo Social”.

Para a jornalista muitas coisas ainda vão se transformar na forma de fazer jornalismo, mas para que isso aconteça é preciso um envolvimento social maior. “O jornalismo é pautado pela sociedade. Se a gente se mobiliza, se a gente reclama, reivindica, se as políticas de estado começam também a olhar para tudo isso. É inevitável. A gente vai ter que falar disso. A gente vai ter que tratar destes assuntos”.

*Rita fez referência ao sucesso do cantor Lazzo Matumbi, Alegria da Cidade:  

“Apesar de tanto não tanta dor que nos invade. Somos nós alegria da cidade. Apesar de tanto não, tanta marginalidade, somos nós alegria da cidade”.

 

 

 

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Fotos: Reprodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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