Entrevista Hypeness

Youtuber Gabi Oliveira revela estratégias para aliar militância e diversão na rede

por: Kauê Vieira

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Historicamente a comunicação sempre foi uma ferramenta capaz de transformar os rumos da história. Desde que se tem notícia em fatos relevantes para a humanidade uma jornalista estava presente, seja com seu bloco de notas ou em tempos mais modernos acompanhada de um tablet. Não importa, comunicar é poder e por isso deve ser usado em prol do desenvolvimento social.

Atualmente o mundo vive mais um período de efervescência no qual estruturas antes consideradas naturais estão sendo abaladas por uma onda de pessoas e movimentos questionadores. E quem é a grande protagonista? Sim, ela mesma. É por meio de plataformas de comunicação como a internet, por exemplo, que pessoas como como a carioca Gabriela Oliveira discutem racismo, mas não só isso, reclamam um espaço historicamente negado de compartilhamento de sua existência e visões, pilares transformadores do jogo racial brasileiro.

Formada em Relações Públicas pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Gabi, como é conhecida nas redes sociais, utiliza o YouTube como uma forma de colocar a cultura negra em pauta. Seja em assuntos sérios como o genocídio da população negra ou em momentos mais descontraídos como a experiência de morar sozinha, a jovem não deixa de se manifestar.

“Trabalho somente com as minhas redes. Tenho marcas parceiras que trazem uma maior estabilidade”.

“Nunca passou pela minha cabeça a possibilidade de trabalhar com o que trabalho hoje. Eu sempre quis trabalhar em empresa, ter horários certos, não precisar aparecer muito, tudo bem regrado, rs! Porém, depois de começar a estudar mais as questões étnico-raciais na universidade e fazer uma pesquisa sobre o impacto das redes sociais na valorização da estética negra, percebi a necessidade da construção de novas narrativas para escancarar o racismo, estimular a autoestima e normalizar a existência da pessoa negra para além dos estereótipos que sempre nos foram impostos”, conta em entrevista ao Hypeness.

São justamente estas novas narrativas que estão conquistando cada vez mais espaço nas redes. Comumente se tratou o negro, sua cultura e modo de ser de maneira equivocada e repleta de estereótipos. Quem nunca ouviu por aí uma associação direta de pessoas com a pele da cor da noite com o futebol ou música, mas nunca ao mundo dos negócios ou com profissões como medicina? Pois é! O nome disso é racismo, que com uma dose de monopólio da informação, estende suas garras provocando efeitos diversos.

Mas aos poucos este fenômeno vem se transformando. Em entrevista ao Alma Preta Rosane Borges, jornalista, pós-doutora em ciências da comunicação, professora universitária e integrante da Cojira-SP (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial) toca na ferida de uma ideia equivocada sobre o negro vendida pela chamada grande mídia.

“A naturalização da existência da pessoa negra é essencial”, diz Gabi Oliveira

“Os corpos negros são de extremo. E que extremo é esse? Extremo da marginalidade, da pobreza, do bolsa família, ou no outro extremo, do divertimento, da fidelidade, do esporte, do samba. Nós não estamos na linha dos meios, estamos na linha dos extremos. O que seria isso? Seria a vida como ela nas suas múltiplas possibilidades de existência: o médico, economista, profissional liberal, assistente de tecnologia. O que a gente percebe, que essa representação, que é uma representação dos extremos, tende a esse imaginário prévio sobre nós. Ora, no que diz respeito a uma narrativa da criminalidade, causaria muito espanto se do ponto de vista de um discurso jornalístico, a gente apresentasse corpos loiros de olhos azuis”, finaliza.

São justamente estas as batalhas travadas pela mídia alternativa. No caso de Gabi isso se dá com um equilíbrio entre pautas, digamos, mais duras, com a sutileza de temas aparentemente brandos como beleza. Mas não se engane, em todos os momentos ela encaixa as fraturas sociais brasileiras.

“Eu acredito que falar sobre racismo, principalmente nos grandes meios, ainda é necessário, mesmo que seja chato. Porém, em outros eventos, já temos solicitado que estejamos em mesas onde não necessariamente estejamos para fazer o recorte de raça ou falar sobre racismo. A vida de qualquer pessoa negra no Brasil é atravessada pelo racismo, não temos como fugir disso, mas nós somos mais do que ele. Nós temos profissão, hobbies, comidas favoritas, viagens que queremos fazer. Quando eu trago para o meu canal um “Diário de Intercâmbio” ou um vídeo falando sobre um aplicativo de paquera, é isso que quero demonstrar”, pontua.

Já são quase dois anos no ar com Gabi de Pretas e mais de 300 mil inscritos ansiosos pelas postagens de Gabriela. Toda semana ela tenta colocar um vídeo novo no ar em seções como a Papo de Pretas, quando geralmente fala sobre assuntos como a maquiagem certa para a pele mais escura, tipos de penteados para o cabelo crespo, sempre com um sorriso no rosto (sua marca registrada) e fazendo questão de costurar com algum tema do momento.

“Eu, realmente, não lembro de pensar em números quando iniciei o canal. Lembro da minha felicidade de chegar aos 2 mil inscritos e depois aos 10 mil. Acho que foi só a partir dos 50 mil que comecei a pensar em chegar em 100 mil, pra ganhar a tão famosa plaquinha. Agora, do nada, já somos mais de 300 mil. Eu realmente não esperava, mas fico bem feliz, já que isso significa que os assuntos que trato no canal tem possibilidade de alcançar mais pessoas”, explica.

A oportunidade de alcançar mais pessoas é o grande barato das mídias digitais. Segundo dados divulgados pelo IBGE, o Brasil possui 116 milhões de pessoas com acesso à internet e cerca de 63% dos lares brasileiros estão conectados. No caso de negras e negros estes números são fundamentais e incentivam o surgimento de novas figuras, chamadas de youtubers, mas que em comum possuem o objetivo de debater pela internet. Resultado, os grandes veículos acabam sendo pautados.

Foi justamente pelo sucesso nas redes que a jornalista soteropolitana Maíra Azevedo, a Tia Má, foi acoplada do elenco do programa global Encontro com Fátima Bernardes. O mesmo aconteceu com Ana Paula Xongani, que pode ser vista em propagandas e já participou inclusive do programa Super Bonita, do canal pago GNT.

“Nós vivemos anos e anos com um comunicação centralizada, sem a possibilidade de contarmos a nossa história. Foram anos reduzidos a estereótipos, marginalizados, embranquecidos e agora, com a descentralização, temos a possibilidade de usar a comunicação a nosso favor. Acredito que a construção de novas narrativas e a naturalização da existência da pessoa negra é essencial”, defende Gabi Oliveira.

O elo se fecha com a potência da representatividade. Negada pelos detentores da narrativa, ela gera efeitos fundamentais para o processo de libertação dos já citados estigmas provocados por uma sociedade racista. No caso de vozes como a de Gabi Oliveira isso pode ser sentido com a repercussão na barra de comentários de seus vídeos. O que não faltam são pessoas elogiando e confidenciando o quanto estão se conhecendo por meio dos temas propostos pela youtuber. Representatividade importa.

“Quando criei o canal, a minha relação com ser uma mulher negra já estava bem resolvida. Agora, nunca imaginei que tocar em certos assuntos, que antes eram inseguranças minhas, impactaria tanto outras pessoas. Desde que o canal estava bem no comecinho eu percebi quão grande seria minha responsabilidade para com aquelas pessoas”, reflete.

Como tudo o que está em movimento, as mídias digitais precisam de ajustes, mas não há como negar a sua relevância. Mais, não tem como deixar de lado sua influência na quebra de paradigmas históricos. Como diz uma frase que ganhou voz com Jurema Werneck, médica e atual diretora executiva da Anistia Internacional, ‘nossos passos vêm de longe’.

Não dava para terminar sem os canais que Gabi mais gosta de assistir:

“Eu assisto muito o Youtube e gosto de variar bastante. Não perco um vídeo do canal “De Mudança”, que é pra quem tá saindo de casa.  Assisto bastante um canal chamado “Metaforando”, que o foco análise de comportamento. Vejo sempre a Ana Paula Xongani, a Xan Ravelli, gosto também da Flávia Calina e do WebTvBrasileira.”

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Fotos: Reprodução/Facebook Oficial


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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