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Respect: 9 vezes em que a diva Aretha Franklin mostrou ao mundo a potência da mulher negra

por: Kauê Vieira

Aretha Franklin é dona de uma das vozes mais conhecidas de todos os tempos. Considerada a cantora símbolo do soul, a norte-americana nascida em Memphis e criada em Detroit, marcou história em um tempo onde ser mulher e negra aumentavam o tamanho das barreiras a serem superadas.

A Rainha do Soul marcou presença em momentos históricos da humanidade. Durante 60 anos de carreira, Aretha foi responsável por levar o gospel para outro patamar. Franklin também encontrou espaço para emocionar com sua voz. Foram dois momentos, o primeiro no enterro do ativista pelos direitos civis dos negros Martin Luther King Jr. Depois, na histórica posse de Barack Obama, primeiro presidente afro-americano na história dos EUA.

Para celebrar sua memória, vida e carreira, o Hypeness selecionou momentos célebres em que Aretha Franklin usou o microfone, a voz e as artes para ajudar o mundo a ser um lugar melhor para se viver.

1. Amiga de Martin Luther King Jr.

O assassinato de Martin Luther King Jr. foi um grande golpe para a comunidade negra norte-americana e para todos os que defendiam os direitos civis dos afro-americanos. Morto a tiros em um hotel na cidade de Memphis, Doctor King ficou imortalizado como uma das figuras mais importantes para a história da humanidade.

Na vida pessoal, o norte-americano natural de Atlanta, iniciou sua trajetória por meio dos sermões realizados em igrejas evangélicas dos Estados Unidos. Sua morte causou consternação em muitas pessoas, especialmente entre a família de Aretha Franklin.

A proximidade entre os dois clãs era tão grande, que Aretha fez questão de cantar no funeral de King. A diva imortalizou Precious Lord, Take My Hand, uma das canções favoritas de Martin Luther King Jr. Durante os meses seguintes ao fatídico dia, Aretha seguiu unindo seus fãs em torno da memória do ativista. A postura se fez presente por toda sua vida.

Registro histórico ao lado de Martin Luther King Jr.

2. A relação com Angela Davis

Na década de 1970, a feminista negra Angela Davis surgia como uma das principais lideranças negras dos EUA. Claro, sua luta em prol dos direitos civis dos negros chamou a atenção dos chefões do FBI e Angela acabou presa.

Acusada de um suposto ‘linguajar inflamado’, Davis recebeu solidariedade de mais de 200 comitês norte-americanos, além de 67 de outros países. Entre as pessoas exigindo a liberdade de Angela Davis estava Aretha Franklin.

Em matéria publicada nos jornais da época, cantora declarou estar disposta a pagar a fiança de Davis, sem se importar com o valor. “Meu pai diz que eu não sei o que estou fazendo. Bom, eu respeito sua opinião, mas vou confiar em meus instintos”.

Tem mais, Aretha explicou que “Angela Davis deve ser libertada. As pessoas negras precisam ser livres. Você precisa incomodar, quando você não tem sossego. Ela é uma mulher negra que luta pela liberdade dos negros. Os afro-americanos me ajudaram ganhar dinheiro e eu quero usá-lo no que for necessário para garantir a nossa liberdade”.  Angela ficou 16 meses presa.

Aretha Franklin também lutou pela liberdade de Angela Davis

3. Primeira mulher no Hall da Fama do Rock

Estamos em janeiro de 1987 e o Rock and Roll Hall of Fame é alvo de inúmeras acusações pela adoção de uma postura machista. A indução de Aretha Franklin – primeira mulher a integrar o time de figuras históricas do gênero musical, é considerada até os dias de hoje uma das principais conquistas femininas na música.

Nascida em Memphis, considerada a cidade berço do blues, Franklin se destacou pela grande habilidade de cantar músicas com influências do gospel. Mas não se engane, pois Lady Soul imortalizou clássicos de expoentes do blues e jazz. Aretha sempre preferiu interpretar composições de mulheres e se destacou pelas releituras de lendas como Billie Holiday, Dinah Washington e Sarah Vaughn.

Indução mais do que merecida, não é?

4. O retorno com estilo

Em 2014, já imortalizada como uma das lendas da música mundial, Aretha surpreendeu a todos com um novo lançamento. A proposta da norte-americana foi ousada, mas não o suficiente para intimidá-la. Franklin apresentou ao mundo sua versão de Rolling in the Deep, hit lançado pela sucessora Adele.

‘Rolling in the Deep’ foi mais um momento de sucesso em sua carreira

A canção, que destaca como poucas sua potência vocal, causou rebuliço no meio musical. O resultado? Além de apresentações nos principais programas de televisão e a reunião com antigas companheiras de palco, Franklin fez história ao colocar mais uma canção na lista das 100 mais da Billboard. Totalizando 75 hits.

A primeira aparição na Billboard foi ainda aos 18 anos, com Won’t Be Long, que debutou na posição número 76, em março de 1961.

5. Respect: Feminismo e direitos civis

No Dia dos Namorados de 1967, Aretha Franklin se sentou atrás de um piano nos estúdios da gravadora Atlantic, em Nova York, para a gravação de Respect. Talvez ela soubesse que a música escrita por Otis Redding entraria para a história com o toque de sua voz.

A partir da efervescente década de 1960 em diante, Respect se transformou em um hino pela liberdade e independência.

Feminismo, direitos civis, qualidade musical. Quer mais?

R-E-S-P-E-C-T!

Além de ser interpretada como uma declaração emancipatória de mulheres, sobretudo negras, que não suportavam mais a condição de submissa aos homens, a canção entrou no hall das trilhas mais importantes na luta pelos direitos civis dos afro-americanos.

Respect acomodou Aretha ao lado da representatividade da biografia de líderes potentes como Martin Luther King, Angela Davis e Malcolm-X.

Bairros negros, salões de festas, reuniões familiares, em todos os momentos lá estava Aretha, aqui representada pela canção Respect. Assim como disse outra célebre figura das artes, Nina Simone, Aretha Franklin não fugiu do dever de refletir as demandas de seu tempo.

6. Amazing Grace: a imortalização do gospel

Para milhares de estudiosos da música, Amazing Grace é o álbum mais importante do século 20. Protagonizado por uma mulher negra, o disco foi gravado em 1972, em uma Igreja Batista de Los Angeles. Desde o lançamento causou estrondo, tendo vendido só nos Estados Unidos, mais de dois milhões de cópias. Até o hoje o mais vendido da Rainha do Soul.

Agraciada com o Grammy na categoria Melhor Performance de Soul Gospel, Aretha Franklin se afirmava como uma artista completa ao oferecer ao seu público um registro ao vivo, dentro de uma igreja, de um dos ritmos mais ouvidos entre a comunidade negra dos EUA. Aliás, Amazing Grace foi além e até os dias de hoje se coloca como a referência maior de sua trajetória.

Entre os destaques estão interpretações de clássicos como Wholy Holy, de Marvin Gaye e You’ve Got a Friend, de James Taylor.

O gospel ganhou muito com ‘Amazing Grace’

7. O encontro com Ray Charles

O bom de viver muito, é a oportunidade de estar ao lado das pessoas mais importantes do mundo. Bom, pelo menos se você for Aretha Franklin. Quando se trata de uma carreira dessa magnitude, é difícil pinçar os momentos mais interessantes.

Por favor, alguém congele o tempo?

Por outro lado, não tem como deixar de lado um encontro entre ninguém menos do que Aretha Franklin e Ray Charles. Pois é, a colaboração de luxo aconteceu nos anos 1970 e presenteou o mundo com versões belíssimas de Georgia on My Mind e Takes Two to Tango.

O vídeo faz os olhos brilharem. Não só pela qualidade musical. A elegância de Aretha – imponente com seu black power, se destaca ainda mais ao ser combinada com Ray, seus óculos escuros e gravata borboleta.

8. Natural Woman, Obama e lágrimas

Vestindo um longo casaco, Aretha Franklin entrou no palco do Kennedy Center Honors. Com delicadeza, acomodou sua bolsa sobre o piano, respirou e começou o que seria uma das performances mais emocionantes dos últimos anos.

Para homenagear a carreira da amiga Carole King, a Rainha do Soul tocou piano em uma releitura emocionante do clássico (You Make Me Feel Like) A Natural Woman. Mostrando toda sua potência vocal, mesmo aos 73 anos, Aretha deixou a plateia em êxtase.

As letras da música arrancaram lágrimas de ninguém menos do que Barack e Michelle Obama. Carole King ficou descontrolada, talvez incrédula com a homenagem. Viola Davis vibrou aos pulos, enquanto o cineasta George Lucas aplaudia satisfeito.

Ao final, já em pé, Franklin encerrou a performance arrancando o longo casaco. Em um manifesto de beleza e segurança, a estrela revelou um belo vestido. Certamente uma das performances mais sólidas de sua carreira.

9. A celebração negra na posse de Barack Obama

Yes, we can! A eleição de Barack Obama – primeiro homem negro a ocupar o cargo mais importante dos Estados Unidos, foi uma mensagem clara de que sim, nós podemos. Ao longo da campanha, Obama e a mulher Michelle, passaram uma mensagem de esperança em tempos livres de conceitos retrógrados como racismo.

No dia da posse, em 20 de janeiro de 2009, o Capitol Hill, em Washington, reuniu mais de 1 milhão de pessoas. Para muitos, esta foi a maior inauguração presidencial da história, sobretudo pela presença dela.

O que falar de mais esse momento?

Sim, no melhor estilo diva-ish, a cantora norte-americana encantou o público com uma versão emblemática de My Country ‘Tis of Thee (Meu país é teu, em tradução para o português). Com toda a classe e pompa que lhe são peculiares, Aretha Franklin foi a cereja do bolo de um dia histórico.

 

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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