Entrevista Hypeness

Como Monteiro Lobato alimentou racismo segundo contador de histórias do povo negro no Twitter

por: João Vieira

Por séculos, a única forma que historiadores no geral encontraram de tornar popular a história do povo negro, foi com foco total no período de escravidão. O mais violento e longo regime de segregação, exploração e aniquilação racial já visto pela humanidade, que deixa traços até os dias de hoje, assassinou gerações e gerações de pessoas vindas de países africanos, dando origem a um vasto grupo de afrodescendentes, que se espalham pelo mundo sem nem ao menos ter o direito de desenvolver uma árvore genealógica.

Mas não é só a lágrimas que a história negra se resume. O historiador, diplomata e membro da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva, defende que a história da África, continente majoritariamente negro, é tão rica quanto a da Grécia, com a produção de recursos fundamentais para a evolução cultural e industrial do mundo desde antes do processo de colonização que tomou terras a torto e a direito de diversos povos nos quatros cantos do planeta.

Por aqui, as pessoas negras veem suas histórias sendo distribuídas pelas escolas sob uma perspectiva de que, diante da repressão do regime escravagista, a postura dos negros era de total submissão e falta de vontade de se levantar e lutar por sua liberdade. Assim, criou-se um dos principais estereótipos racistas dos tempos modernos: de que o negro não trabalha.

Essa visão é um dos alvos de combate de Ale Santos.

Ale Santos é negro e especialista em storytelling

Ale é escritor de SCIFI & Fantasia Afroamericana, publicitário, especialista em gamificação e storytelling e dono da consultoria Savagefiction. Nasceu em Cruzeiro, na divisa de São Paulo com Minas Gerais, cresceu em Taubaté, na região do Vale do Paraíba, e, de origem humilde, foi cotista Prouni.

Ale é negro e grande estudioso da cultura e história de seu povo. Sentindo a necessidade de tornar esse conhecimento mais acessível para a comunidade, passou a utilizar as threads, nome dado ao recurso que o Twitter possui de conectar diversos tweets em sequência, construindo uma narrativa, para contar histórias relevantes e de fácil compreensão na rede social.

“Quando a ideia surgiu, eu não tive a sacada de fazer esse conteúdo, apenas foi acontecendo”, explica ele, em um papo exclusivo com o Hypeness. “Eu já conhecia várias histórias do povo negro, sempre falo sobre isso nas minhas redes sociais, sempre falava isso no Twitter. O que eu não sabia é que fazer thread era tão legal”.

Aos poucos, a utilização do recurso foi ganhando gosto dos seguidores e, através dos retweets, as narrativas desenvolvidas por Ale foram ganhando terreno na internet. “Quando eu criei a thread do Leopoldo, que foi a primeira que bombou, conseguiu 7 mil retweets, aí foi que eu vi que, realmente, contar histórias em formato de threads alcançava bastante pessoas”, diz ele.

A história a qual ele se refere é sobre o holocausto do Congo, promovido pelo rei belga Leopoldo II, no começo do século 20. Foram milhões de pessoas mortas em um longo período de torturas e crueldades, em uma das diversas tentativas de varrer a população negra em extinção.

“Sempre me emociono com as histórias. Me emociono de maneira positiva quando são heroicas, e negativa quando são dolorosas. Acho que todo negro tem na sua psiquiatria um pouco dessa dor”, opina Ale. “Quando vou me conectar a uma história isso vem à tona. Porém, hoje, considero que alguém tem que passar por isso pra contar essas histórias. Não estou me colocando numa narrativa heróica, mas eu entendo que no meu espaço, como comunicador, eu devo trazer essas histórias, porque se não elas não são contadas”.

Um dos objetivos de Ale Santos é mudar o estigma de que a história do negro se resume a dor e sofrimento. Apesar de esse ser um componente fundamental para se entender as origens dessa fatia da população, concentrar-se nela acaba por apagar narrativas heróicas e símbolos que deveriam servir como referência para as novas gerações.

É o caso do conflito intelectual entre Malcolm X e Martin Luther King. Promovendo visões distintas de se lutar contra o racismo – a de Malcolm, combativa, e a de MLK, pacifista -, os dois foram pilares fundamentais para o desenvolvido da luta negra americana no século passado, no que, até hoje, pode se considerar um dos maiores e mais organizados movimentos de revolta popular da humanidade.

“Me preocupa quando a gente só conta a narrativa dos malefícios causados pelo racismo”, afirma Ale. “As narrativas da escravidão colocam a mulher negra, o homem negro, como submissas, e a maior parte das histórias que você aprende em livros de escolas nunca vai falar sobre como o negro se rebelou, ela vai falar somente sobre como ele se conteve, ou como foi contido, ou como nunca conseguiu lidar com a escravidão, como ele foi massacrado por ela. Me preocupa o excesso de histórias sobre isso, porque você acaba criando arquétipos no imaginário coletivo de que o negro não luta pelas coisas“, completa.

Ale vive hoje em Guaratinguetá, no interior de São Paulo

A visão racista promovida por Monteiro Lobato

“Eu cresci na cidade de Taubaté (SP). Escrevi um artigo sobre para o [site] Interessante, trazendo uma visão de como isso me impactou pessoalmente, no meu crescimento, na visão que eu tenho de mim mesmo, de todas essas ofensas que o [Monteiro] Lobato escreveu, alimentando as crianças, alimentando professores, alimentando todas as pessoas ali da época na cidade onde cresci, e como isso era utilizado como arma para me machucar de todas as maneiras.

O escritor Monteiro Lobato

Vários educadores quiseram relativizar o comportamento do Monteiro Lobato, falando que temos que nos atentar ao contexto, época em que ele escreveu tudo aquilo, mas isso é uma falácia. O racismo não aconteceu apenas na época do Monteiro Lobato, ele acontece ainda nos tempos de hoje, e a forma como ele acontece hoje é alimentada por quem escreveu como Monteiro Lobato. E, de repente, a forma com que o racismo pode se propagar amanhã, porque ele não vai acabar de uma hora pra outra, vai ser alimentada, ainda, por coisas do Monteiro Lobato que continuam sendo propagadas nas escolas, na cultura brasileira”.

Eu acredito sim que a gente deva retirar esses livros [de Monteiro Lobato das escolas], porque a gente não pode esperar que as pessoas negras se curem de todo esse trauma da escravidão sozinhas, não podemos esperar a Justiça definir se os livros são bons ou não, enquanto outras crianças continuam passando por esse processo doloroso que é a infância

Como surgiu a ideia de contar histórias por threads?

“Quando a ideia surgiu, eu não tive a sacada de fazer esse conteúdo, apenas foi acontecendo. Eu já conhecia várias histórias do povo negro, sempre falo sobre isso nas minhas redes sociais, sempre falava isso no Twitter. O que eu não sabia é que fazer thread era tão legal. Eu achava bem bobo comentar sobre um comentário seu, sabe? Não parecia uma coisa legal. E aí, quando descobri a thread, pensei ‘cara, por que alguém faria isso?’ Aí fui experimentando algumas coisas. Eu fiz uma thread uma vez sobre herança e genética, aí várias pessoas gostaram, acharam legal. E eu falei ‘cara, talvez seja uma coisa interessante para contar algumas histórias mais dramáticas’. Quando eu criei a thread do Leopoldo, que foi a primeira que bombou, conseguiu 7 mil retweets, aí foi que eu vi que, realmente, contar histórias em formato de threads alcançava bastante pessoas”.

Promover o autoconhecimento para a comunidade negra

“Eu acredito que as histórias que a gente conta moldam o futuro da sociedade. Não só como uma filosofia, mas porque, efetivamente, se você analisar a história, toda nossa civilização é baseada em contextos passados, em crenças passadas. Então, caras que eu estudo, como Joseph Campbell (EUA), que é um antropólogo que associa o monolito a uma jornada do herói, Johan Huizinga (HOL), um historiador holandês que trouxe a literatura do Homo Ludens, que falava sobre como a sociedade foi construída a partir de uma perspectiva lúdica, espírito do jogo… eu sempre venho estudando esse tipo de coisa.

Então, eu creio que a construção social nossa é baseada em narrativas passadas. Mas eu sinto o impacto hoje na comunidade negra, porque eu recebo muitas mensagens, muitos tweets, muitas pessoas falando da importância do que eu tava fazendo. Foi quando eu comecei a perceber que, cara, isso realmente estava atingindo algumas pessoas. Realmente está fazendo algumas pessoas, que eu nunca imaginei, absorverem aquele conteúdo e levarem para as vidas delas. Tem o caso de uma garota que veio me contar que ela confrontou o professor dela de História, quando ele começou a falar sobre holocausto judeu. Ela perguntou ‘ah, por que você não fala também do holocausto do Congo?’ Aí o professor dela falou ‘ah, você tá falando daquela thread no Twitter?’ Quando ela me contou isso, eu dei muita risada e comecei a perceber o impacto que isso tinha nas pessoas. E teve um outro caso de uma seguidora, que veio me contar que ela foi cuidar dos sobrinhos e começou a contar a história do Benedito Meia-Légua, que é uma das threads que eu mais gosto. E, no outro dia, a irmã dela veio falar ‘ah, por que que meus filhos ficaram me perguntando a noite inteira sobre histórias do período da escravidão e dos heróis negros daquela época?’. Isso me fez perceber que realmente tem força, realmente tem impacto na vida das pessoas.”

O impacto emocional de encarar histórias difíceis

“Sempre me emociono com as histórias. Me emociono de maneira positiva quando são heroicas, e negativa quando são dolorosas. Acho que todo negro tem na sua psiquiatria um pouco dessa dor. Uma das primeiras mulheres que veio estudar psicologia social no Brasil, que é a Isildinha Baptista, fala sobre como o racismo criou uma dor nas pessoas negras. Então todas nós temos esse trauma, e eu carrego um pouco disso. Quando vou me conectar a uma história isso vem à tona. Porém, hoje, considero que alguém tem que passar por isso pra contar essas histórias. Não estou me colocando numa narrativa heróica, mas eu entendo que no meu espaço, como comunicador, eu devo trazer essas histórias, porque se não elas não são contadas. Eu me permito passar por um pouco disso, pra que outras pessoas consigam também se conectar e sentir um pouco dessas emoções”.

Os heróis negros dos anos 1990 e 2000

“Meus primeiros heróis eram os rappers. Não tinha internet, né, e quando tinha era aquela internet discada que demorava uma noite pra baixar um mp3, e a TV era repleta de referências egocêntricas, o tempo todo. Foi quando eu comecei a comprar aqueles DVDs piratas de black [music, dos anos] 2000, que do nada me conectou, de alguma forma, com uma primeira imagem de negros poderosos, ovacionados, que tinham sucesso, fama e tudo mais. Então aquilo foi uma das coisas que eu comecei a olhar e querer ser como aqueles caras. Eu era bastante fã do Nelly, quando ele tinha gravado o Nellyville. Comecei a me conectar com o Usher, 50 Cent principalmente, Ice Cube, e aí foi quando eu fui realmente me empoderando.

Nellyville foi lançado em 2002, com sucessos como o hit ‘Dilemma’

Outros heróis que eu me identifiquei muito naquela época foram os caras do filme Jamaica Abaixo de Zero. Esse filme foi tão impactante, tão legal, porque eu via aqueles correndo, com toda a sua história heróica e tal, via as pessoas torcendo por eles. Aquilo me comovia de uma forma tão maneira que eu virei velocista também. Consegui algumas medalhas, índices de campeonato brasileiro, viajei o estado de São Paulo inteiro, passei a juventude inteira competindo. Foi uma outra forma de me ajudar muito na construção da minha autoestima”.

Cena do filme ‘Jamaica Abaixo de Zero’

A cultura negra nos dias de hoje

“Hoje há muitas referências boas na sociedade, e muitas delas não são famosas na televisão. Mesmo em pequenos círculos, talvez hoje eu seja uma referência para algumas pessoas. A internet quebrou essa hegemonia eurocêntrica de referências da cultura. Ela vem trazendo youtubers, blogueiros, twitteiros, pra serem referências de jovens também. E a gente vive em um mundo em que a Netflix já lançou manifesto de representatividade, há muitas séries que eu gosto, como Luke Cage, Raio Negro. Tem muita gente produzindo histórias sobre a cultura negra e com uma perspectiva negra. Tem o Lázaro Ramos também, que tá estourando de todas as maneiras e acaba puxando pessoas para olharem para ele como uma referência. A gente tá muito longe de viver uma sociedade igualitária no Brasil, a democracia falhou com a nossa sociedade, parafraseando Malcolm X. Nossas referências não ocupam nem 20% da cultura pop de massa, que realmente alcança as pessoas. Mas estamos caminhando pra um futuro onde vamos melhorar, ou descobrir nossos próprios caminhos pra nem precisarmos da via comercial tradicional. É o que o pessoal do funk tem feito. Eu olho muito para caras como Kondzilla, porque ele fez o crescimento que ele teve, e eu tento me espelhar um pouco em algumas coisas que ele faz ali”.

A história negra resumida ao período da escravidão

“Me preocupa quando a gente só conta a narrativa dos malefícios causados pelo racismo. As narrativas da escravidão colocam a mulher negra, o homem negro, como submissas, e a maior parte das histórias que você aprende em livros de escolas nunca vai falar sobre como o negro se rebelou, ela vai falar somente sobre como ele se conteve, ou como foi contido, ou como nunca conseguiu lidar com a escravidão, como ele foi massacrado por ela. Me preocupa o excesso de histórias sobre isso, porque você acaba criando arquétipos no imaginário coletivo de que o negro não luta pelas coisas. Você vê políticos falando que o Brasil herdou a malandragem do negro… isso é um arquétipo que existe no imaginário de quem acredita que ele realmente é um malandro, que não faz muitas coisas, que não lutou nem por si mesmo. Então isso me preocupa, eu tento mostrar a perspectiva heróica, porque eu acredito que nós devemos construir novos arquétipos, novos símbolos, repovoar o imaginário coletivo do Brasil inteiro, com símbolos que mostram que nós somos valorizados sim, que somos heróicos, lutadores”.

 

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Fotos: foto 1: Instagram/Reprodução; foto 2: Instagram/Reprodução; foto 3: Divulgação; Foto 4: Reprodução; foto 5: Divulgação


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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