Entrevista Hypeness

Comunidade negra debate colorismo e expõe traumas causados pelo mito da democracia racial

por: João Vieira

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Nos últimos anos, um dos debates mais intensos e polêmicos dentro da comunidade negra tem sido em torno do que se ficou acostumado a chamar de colorismo. O assunto vai e volta na medida em que novos fatos que destacam o conceito surgem publicamente.

Antes de mais nada, cabe a explicação: o termo colorismo é utilizado para denominar as vantagens que o negro de pele mais clara possui contra o de tom mais escuro no posicionamento social, além de outros aspectos físicos que se distanciam das características tradicionais da afrodescendência, como os olhos destacados, os lábios grossos, o nariz largo e o cabelo crespo. Isso não quer dizer, porém, que qualquer integrante da comunidade negra esteja livre do racismo, mas que, quando colocado ao lado de um negro de pele escura, o de pele clara possui maior chance de visibilidade e aceitação por estar mais próximo do padrão europeu.

O colorismo brasileiro 

No Brasil, o colorismo é especialmente complexo. A inter-racialidade existe por aqui desde o período de colonização portuguesa, quando colonos violentavam mulheres negras escravizadas, dando origem a novas gerações que misturavam características da descendência europeia com traços de origem africana.

Além disso, não se pode ignorar a mesma violência cometida pelos portugueses contra comunidades indígenas, dando origem a descendentes de pele mais escura, porém não de descendência africana.

Tudo isso faz com que diversas classificações tenham sido criadas para tentar se abrigar os mais diferentes grupos étnicos existentes por aqui, o que dá uma falsa visão de democracia racial e esconde o problema envolvendo o colorismo.

O caso Fabiana Cozza e a “rivalidade” entre negros

O debate voltou a pipocar na comunidade negra após a morte de Dona Ivone Lara, a mais importante mulher do samba, que nos deixou no dia 16 de abril deste ano, aos 96 anos. Uma das amigas recentes mais próximas da sambista, a cantora e atriz Fabiana Cozza foi convidada a interpretá-la no musical Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro, honra que compartilhou com seus seguidores no dia 30 de maio.

Dona Ivone Lara morreu aos 96 anos.

Fabiana cantou com Ivone Lara em algumas oportunidades nos últimos anos. A proximidade fez a artista lamentar profundamente a morte da dama do samba em suas redes sociais na época do ocorrido. “Choro a sua partida, mas levo-a comigo no peito ardido, no corpo, e na voz onde quer que eu desembarque. Te amo, Dona Ivone Lara! Obrigada, muito obrigada por tanto”, disse ela.

Acontece que Fabiana é filha de uma mãe branca com um pai negro, o que a fez nascer com a pele negra mais clara, além de outros traços físicos distantes da afrodescendência, apesar do cabelo crespo. Assim, sua escolha acabou recebendo diversas críticas e alertas nas redes, uma vez que Ivone Lara, como se sabe, era negra de pele retinta.

Fabiana Cozza recusou o papel como Dona Ivone Lara

Cozza reconheceu o problema e resolveu renunciar ao papel, mesmo contra a vontade da família de Dona Ivone. Ela, porém, criticou o fato do colorismo criar uma rivalidade entre os próprios negros. “Renuncio porque vi a “guerra” sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas”, afirmou ela.

A influência do contexto na negritude 

A definição de afrodescendência fica bastante complexa quando se tem diversas gerações de negros que tiveram suas origens sequestradas. No fim das contas, a decisão de ser ou não negro fica nas mãos da sociedade branca e dos traumas que ela protagoniza no cotidiano da comunidade.

“Dependendo do contexto, essas pessoas [de pele clara] são vistas como não negras, e dependendo do contexto elas são vistas como não brancas. Vou te dar um exemplo: eu tenho um irmão encarcerado, que tem o tom de pele parecido com o meu, talvez até um pouco mais claro. Ele me disse uma vez: ‘dentro do presídio, eu sou claro, eu pareço mais branco. Fora do presídio, a polícia me chama de neguinho, e as pessoas me chamam de neguinho.’ Depende muito do contexto onde as pessoas de pele clara estão inseridas para que elas se aproximarem mais da negritude ou da branquitude”, explica a jornalista, escritora e doutoranda em Ciência da Informação pela ECA-USP Bianca Santana.

Bianca Santana (à esq.)

Mulher negra, Bianca, assim como boa parte da comunidade, se aproxima de sua identidade racial através das feridas provocadas pelo racismo. “É triste que a gente se reconheça mais pela opressão, mas a história da minha vida é a história das mulheres negras. Eu nunca fui para o trabalho doméstico, mas minha mãe foi empregada doméstica, minha avó foi empregada doméstica, e isso é muito marcante, né? Eu cresci em uma família sem pai, o chefe de família era minha mãe. [Tive] marcas de violência e perda desde a infância”, afirma.

Ela não acredita, porém, que a vasta identidade física do negro brasileiro coloque alguns grupos no limbo dos “sem raça”. “Acho que o que vem depende do contexto em que estamos, mais perto de branco ou mais perto de negro. Acho difícil alguém falar por exemplo que eu sou branca, é mais fácil a pessoa falar que eu não sou negra”, explica.

O “branqueamento” da sociedade 

O Brasil foi historicamente ensinado a branquear sua sociedade. A identidade da população é vendida como indefinida, apesar de 53% dessas pessoas se declararem negras ou pardas. Além disso, a exclusão da descendência indígena é mais um indicativo da fragilidade do conceito de democracia racial.

Assim, gerações atravessaram os séculos tendo a discussão sobre raça reprimida pelo padrão social, o que faz com que, até hoje, uma boa parte da população não se sinta confortável sequer para pronunciar a palavra “negro”, dando origem a termos como “mulatos”, “moreninhos” e “queimadinhos de sol”, como explica o youtuber Spartakus Santiago em um de seus vídeos.

“De fato, o Brasil tem um projeto em disputa de séculos de branqueamento da população. E quando o mito da democracia racial ainda vicejava, e as pessoas ainda acreditavam nele, não significava que as pessoas negras não fossem subalternas, inferiorizadas, ou não vivessem a pior parte do Brasil. Significava que ninguém ia falar sobre isso”, opina Bianca. “O racismo do Brasil é muito sofisticado, e parte dessa sofisticação tem a ver com não nomear, com silenciar. Isso significa que eu não me afirmar mulher negra não me torna branca, não me determina um lugar social. Mas quando eu me afirmo negra, eu evidencio, eu nomeio e tenho a possibilidade de consolidar em mim uma luta antirracista. Isso é uma conquista do movimento negro”, celebra.

A importância do YouTube

Desde a explosão de youtubers no Brasil, diversos assuntos começaram a se tornar absolutamente acessíveis para a população, em especial a faixa mais jovens, maioria no ambiente virtual. Para o bem e para o mal, o que youtubers mais populares pregavam em seus vídeos, acabava ganhando força nos debates via redes sociais.

Dentro desse grupo, a presença da comunidade negra, representada por nomes como Nátaly Neri, Ana Paula Xongani, Gabi Oliveira e o próprio Spartakus Santiago, tem colaborado para que temas subjugados, como o colorismo, sejam colocados em relevante destaque entre os negros brasileiros.

Gabi Oliveira é um dos relevantes nomes da comunidade negra no YouTube

Uma das pessoas que tem utilizado o canal para comentar o tema é a youtuber e estudante de direito Enoá Oliveira, dona do canal EnoáTV. A jovem é uma mulher negra de pele clara, e tem como um de seus vídeos mais famosos o que fala justamente sobre colorismo.

“De fato, a minha pele é clara, mas eu carrego o estigma e a herança negra também, ainda que sofrendo preconceito de forma mais branda e em menor frequência. Entretanto, hoje, após toda a reflexão que eu tive sobre o tema, me identifico muito mais com a definição de ‘afrodescendente’ do que ‘negra’. E o vídeo que comento foi muito importante para que eu chegasse a essa conclusão”, explicou ela.

Uma das consequências do debate sobre o assunto é o questionamento dos negros de pele mais clara sobre ser ou não parte da comunidade negra. Este outro lado da moeda não tem o mesmo peso psicológico que as consequências da falta de visibilidade dos negros de pele retinta, mas não deixa de ser um ponto de atenção. “Realmente, pra pessoas com características físicas como as minhas, a sensação de estar perdido e não pertencer a nenhum grupo é desconcertante. Se a pessoa se declara parda, está renegando as suas raízes e tentando se embranquecer; se a pessoa se declara negra, está se apropriando de causas alheias e sendo oportunista”, opina ela.

A falta de visibilidade do negro de pele escura se reflete no YouTube, na visão de Enoá. “Hoje, eu penso que quando uma pessoa como eu se diz negra, ela acaba inviabilizando quem tem a pele retinta. No próprio YouTube é possível ver isso. Existem inúmeros canais de pessoas de pele preta falando sobre questões raciais, mas que não conseguem tanta visibilidade quanto, por exemplo, Afros e afins, da Natali Nery”, acredita a estudante.

Porém, a proximidade com a identidade negra surge em Enoá, mais uma vez, através de traumas provocados pela sociedade branca. “O momento em que eu vi que o racismo é real foi com relação à mãe do ex-namorado que comento no vídeo, depois de ele ter me contado a reação dela ao receber a notícia de que o filho estava namorando comigo: ‘não tinha uma menina branca pra você namorar não?‘. Este foi o meu momento de ‘choque’ e em que eu caí na real de que se comigo, que mal tenho melanina na pele, podem acontecer situações racistas, imagine o que acontece com as pessoas de pele escura”, contou.

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Fotos: foto 1: Sambabook/Divulgação; foto 2: Divulgação; foto 3: FLUP/Facebook/Reprodução; foto 4: YouTube/Divulgação


João Vieira
Com seis anos de jornalismo, João Vieira acredita na profissão como uma ótima oportunidade de contar histórias. Entrou nessa brincadeira para dar visibilidade ao povo negro e qualquer outro que represente a democracia nos espaços de poder. Mas é importante ressaltar que tem paixão semelhante pela fofoca e entretenimento do mais baixo clero popular.

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