Entrevista Hypeness

Conversamos com o estilista responsável pelas roupas de ‘Pantera Negra’

por: Kauê Vieira

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O lançamento de Pantera Negra representa um marco no cinema mundial. O mais interessante é que o super-herói, tema central do filme, acaba ficando em segundo plano. Calma que a gente explica.

Certamente você já ouviu falar sobre o termo representatividade. Por mais que algumas pessoas insistam em minimizar sua importância, esta palavrinha está impactando positivamente a vida de muitos. A luta pelo protagonismo gera frutos valiosos como o aumento da diversidade ocupacional nos chamados espaços de poder, entre eles uma indústria do tamanho e alcance de Hollywood.

Ao fazer um recorte de raça e gênero, percebe-se que o cinema norte-americano, responsável pelo abastecimento da maior parte das salas mundo afora, é capitaneado por um grupo de homens brancos. Durante muito tempo esta realidade reduziu sensivelmente o espaço de pessoas de outras origens. Os poderosos de Hollywood sempre tinham na ponta da língua o argumento de que tal ideia ‘não vendia’.

Os lenços são feitos artesanalmente e evidenciam a cultura do Oeste de África

Por sublinhar o protagonismo negro e oferecer uma visão distante dos estereótipos seculares sobre o continente africano, o longa bateu recordes de bilheteria. E claro, colocou por terra este discurso datado. Ponto para Pantera Negra.

A película dirigida por Ryan Coogler conseguiu penetrar inclusive nos mercados mais fechados do mundo, caso da Arábia Saudita, que depois de 35 anos, autorizou o lançamento de um filme.

Além da atuação de sucesso de nomes como a atriz Lupita Nyong’o, Pantera Negra chamou a atenção de todos pelo figurino. São roupas que ao mesmo tempo em que demonstram o respeito pela história do herói e pelas tradições de comunidades africanas, aqui representadas pelo reino fictício de Wakanda, não deixam de lado conceitos contemporâneos.

Ligado nas novidades, o Hypeness conversou com o estilista nigeriano Wale Oyejide, responsável pela criação de algumas das peças do figurino. Dono da grife Ikeré Jones, Oyejide é conhecido pelos marcadores negros na concepção de sua criação artística. Para ele, radicado nos Estados Unidos, participar de uma produção desta magnitude é motivo de muita alegria.

Wale é considerado um dos cinco homens mais elegantes da África

“Foi muito excitante estar envolvido em Pantera Negra. Como estilista e sobretudo como africano, me senti honrado em ver meu trabalho e cultura representados nas telas de cinema. Diga-se de uma forma tão bonita e honesta”, ressaltou.

From Wakanda, with Love (De Wakanda, com amor), este é o nome da coleção de lenços, que além do flerte com o afrofuturismo, carregam consigo elementos da cultura do Oeste africano. Aliás, esta é uma das principais características das roupas de Wale, que se diferenciam justamente pelo trabalho artesanal e de valorização das raízes e cultura local.

Considerado um dos cinco homens mais elegantes do continente africano, Wale sublinha a conciliação entre futuro e tradição como os principais atrativos do enredo de Pantera Negra.

“O filme apresenta ao público representações da tecnologia em África. Você pode certamente chamar de afrofuturismo. Considero interessante pensar o filme como uma reflexão da sociedade contemporânea”.

Sim, você pode comprar os lenços

Mais do que a oportunidade de estar envolvido em um dos trabalhos cinematográficos mais destacados dos últimos tempos, Wale Oyejide destaca o potencial transformador de Pantera Negra. Vivemos tempos modernos, em que a tecnologia, em todos os âmbitos, pode ser uma importante aliada para o estreitamento de fronteiras. Sim, a África não é um país e é bom que isto fique claro. Mas é preciso ir além. Não há mais espaço para não entrar em contato a criação tecnológica de países como a Nigéria ou a cena das artes visuais de Dakar, no Senegal.

“O Reino de Wakanda é a metáfora perfeita do potencial africano. Nós não precisamos esperar pelo futuro. Wakanda pode acontecer aqui e agora se nós quisermos. Basta nos unirmos enquanto seres humanos e construirmos nossos próprios reinos”.

No livro Crítica da Razão Negra, o autor camaronês Achille Mbembe faz coro com a reflexão proposta por Wale. Para ele o “negro é símbolo de um desejo flutuante e plenamente engajado no ato de criação e até de viver”.

Meritocracia? Não, oportunidade e reconhecimento!

Apesar de não ser um consenso entre artistas e intelectuais, o cinema negro abre espaço para que profissionais talentosos obtenham destaque em grande escala. Você já parou pra pensar no número de pessoas que puderam demonstrar sua criatividade? Pois é, estamos diante de exemplos concretos de empreendedorismo. No caso da grife Ikeré Jones isso pode ser sentido com um ganho expressivo na visibilidade.

“Nós abastecemos o filme com peças de coleções anteriores, o que não nos impediu de pensar em novos estilos. Agora você não tenha dúvidas, muitas pessoas no mundo todo passaram a conhecer nossa marca. Isso se reflete no aumento das vendas”.

Por fim, Wale Oyejide espera que o portfólio abra espaço para colaborações futuras e claro, para o surgimento de novos talentos.

“Ficaremos felizes em trabalhar em novos filmes. Basta os projetos chegarem. O objetivo não é estar em um filme por estar. O projeto precisa ser especial e ter significados culturais para que eu possa colocar meu coração. Sempre foco na criação que represente meu povo com nobreza. A era dos estereótipos chegou ao fim”.

Aqui você pode saber mais sobre a coleção e garantir o seu.

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Fotos: Reprodução


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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