Inspiração

Falamos com uma comediante de stand up brasileira sobre ‘Nanette’: ‘Dá para não jogar o jogo’

por: Rafael Oliver

Já assistiu ao show de Stand Up Comedy “Nanette”, na Netflix? Deveria. É basicamente um excelente show de comédia que vai ganhando contornos de drama e  tons de despedida. Nele a humorista Hannah Gadsby faz duras críticas ao preconceito de gênero, aponta os erros comuns aos colegas de humor – especialmente os artistas e comediantes homens. Claro, principalmente, os privilégios dos homens brancos e héteros. Gente exatamente como eu que escrevi esta matéria.

O ponto é: Não é difícil se enxergar nas situações contadas por Hannah. Não é difícil sentir-se cúmplice de um grande erro.

É um choque. Mas um choque necessário.

E aí que o impacto foi grande. E que coisa maravilhosa essa de um show que é comédia, mas não é. Que é sério, mas faz rir. Rir de privilégios. Rir de mim mesmo.

Então decidi bater um papo com a humorista Carol Zocolli. Ela se tornou referência no cenário da comédia brasileira, mas atualmente vive boa parte do tempo em Toronto, no Canadá. Por lá, construiu uma carreira bem sucedida no stand up comedy, que a levou a ser convidada até para apresentações nos Estados Unidos. Imagina só, uma brasileira na terra dos clubes de comédia? P-A-R-A-B-É-N-S, Carol. Sério.

Para Carol, o show de Hannah vem em boa hora. O humor é um instrumento da sociedade que, de tempos em tempos, sente, naturalmente, uma necessidade de se questionar. E é exatamente isso que a artista australiana faz.

“Se os humoristas tivessem feito seu trabalho corretamente e zombado de um homem que abusou seu poder, quem sabe tivéssemos na Casa Branca hoje uma mulher de meia-idade com a experiência necessária para exercer o cargo, em vez de termos um homem que admitiu abertamente ter agredido sexualmente mulheres jovens e vulneráveis, simplesmente porque podia”, diz a comediante, em dado momento do show da Netflix, se referindo as piadas feitas no passado sobre o escândalo sexual envolvendo Bill Clinton e Monica Lewinsky.

Está tudo errado. Sempre esteve. Existem várias evidências disso. Como Hannah mesma cita: Na história da arte por exemplo, as mulheres já eram retratadas como meros adereços. É difícil, mas temos que admitir. Nós homens somos, sim, culpados pela desigualdade. Já fizemos muita merda. E temos a responsabilidade de sermos os primeiros a mudar isso.

Sobre o poder da comédia e a capacidade de rir de nossos privilégios, falamos mais nas próximas linhas na entrevista com a Carol Zocolli.

Hypeness – Carol, você é considerada uma das melhores comediantes brasileiras. No final dos anos 2000 contribuiu para o crescimento da cultura stand up em nosso país. Por que perdemos você para os gringos? O que fizemos de errado?

Carol Zocolli: Hahahaha… Sempre quis ter a experiência de morar fora, nunca pude porque era pobre. Na verdade, comecei a fazer algum dinheiro por causa da comédia! Meu plano era morar fora, e, como faço comédia, comecei a fazer aqui no Canadá e Estados Unidos.

Qual sua conclusão ao assistir Nanette? Mudou algo pra você?

Primeiro, achei um show muito bem escrito. A maneira como ela começa “como quem não quer nada” e depois desconstrói tudo, desnudando a estrutura da comédia é um tapa na cara. E segundo, ela fala de questões que tocam muitas mulheres, principalmente as que fazem comédia. E com esse assunto, e, apesar desse assunto, o show dela já é considerado um marco no gênero. O que mudou pra mim foi ver que abriu-se a possibilidade fazer algo diferente dentro da comédia, de um jeito diferente. Dá para não jogar o jogo mais, principalmente se você está cansado de perder.

Um dos recursos utilizados para a construção de piadas é o autoflagelo, que nada mais é do que fazer piadas com si próprio. Hanna utiliza outra palavra: autodepreciação. E diz que em certo ponto isso se torna humilhação. Já se sentiu humilhada com seus próprios textos?

No Brasil, apesar de fazer piadas autodepreciativas, estava de bem com isso, mas quando cheguei na América do Norte tive de pensar muito sobre autodepreciação. Aqui sou imigrante de um país de “terceiro mundo”, aqui “represento” uma cultura e um país. A coisa mais óbvia – e que muito comediante preguiçoso faz – é fazer seu povo e sua cultura de saco de pancada, mas acho isso uma sacanagem com o brasileiro. Quero que as pessoas tenham uma visão positiva do brasileiro, muitas vezes sou a primeira brasileira que eles estão vendo na vida. Então dou o meu melhor para incluir o Brasil e a cultura brasileira nas minhas piadas, mas a partir de uma visão enriquecedora, positiva. E também não falo mal do Brasil fora do Brasil – e acho que todo brasileiro deveria fazer o mesmo!

Apesar de me divertir em diversas partes do show da Hannah Gadsby, em outras me senti mal por enxergar minha conivência com o preconceito e desigualdade no mundo em que vivemos. De uns anos pra cá consigo ver mais claramente. Você, como mulher, sempre enxergou isso na comédia?

Com certeza, desde o começo. É um mundo masculino, apesar de eu transitar bem nesse meio e ter grandes amigos, sendo mulher você é “o outro” nesse contexto. A cada passo isso foi ficando mais claro pra mim: quando não era convidada para fazer shows legais fora da cidade com comediantes grandes porque eles viajavam juntos pra depois pegar mulher juntos; quando perdi oportunidades não por “não ser engraçada”, mas por não ser “feminina”, por não ter uma aparência que teoricamente deveria ter; quando você vê os comediantes maiores sendo mentores dos que estão começando e dando oportunidades incríveis pra eles e você percebe que ninguém vai te pegar pela mão, porque você é “o outro” nesse universo. (Só pra deixar claro: recebi ajuda de muita gente, mas vi comediantes grandes sendo mentores de outros e pegando eles pela mão: Gente que hoje tem uma carreira de sucesso porque foi “criado” pelo outro.)

 

O humor  sempre teve a responsabilidade de ser crítico, de meter o dedo na ferida. O próprio stand up comedy tem esse propósito. Sabe-se que desde a década de 50 o estilo de humor usava forte crítica política e social. Você sente que a essência do stand up foi perdendo força? Acha que esse é o momento para resgatá-la?

Não sei se o stand up tem esse dever. Acho que tem essa possibilidade, não dever. Historicamente, os comediantes mais admirados trouxeram crítica política e social, mas Jerry Seinfeld, por exemplo, é considerado um dos maiores comediantes e não fala sobre nenhum tema polêmico nem fala palavrão.


Qual a maior diferença entre fazer piadas para brasileiros e canadenses? E qual povo é mais machista?

Brasileiro é mais machista. Tive que aprender a lidar com heckler (chato na platéia) muito cedo. Porque há homem que se sente muito incomodado quando vê uma mulher com um microfone na mão comandando um bar e eles desafiam a nossa autoridade. Aprendi não só a lidar com esse tipo de cara, mas a humilhá-los! Hahahah. Teve um dia que humilhei tanto um heckler que ele quis brigar e estourou uma briga no bar inteiro e fiquei do palco só olhando.

Já se arrependeu de alguma piada machista que tenha feito?

Acho que como comediante você vai melhorando. Quando você está começando, você meio que fica desesperado pra conseguir risada, e você sai tentando tudo. Então eu já fiz piadas por exemplo, zuando Panicats ou capas de Playboy que hoje não faria. Não acho que as piadas que fiz eram super ofensivas, não faço mais porque sou uma comediante melhor mesmo, consigo fazer piadas com coisas mais interessantes e não só piadas sobre assuntos superficiais que todos estão falando sobre. Se um comediante faz comédia há anos e continua fazendo o mesmo tipo de piada, ele não cresceu como artista.

 


Famosos humoristas brasileiros já foram alvo de polêmicas por piadas consideradas machistas, como aquela feita com a maior doadora de leite materno do país. Qual sua opinião sobre esse tipo de piada? Elas estão perdendo espaço ou ainda há audiência para isso?

Eu tive que pesquisar pra saber qual era essa polêmica! Hahaha. Pelo que li sobre a polêmica, o pior foi o que as pessoas fizeram com ela nas ruas, parece que os homens ficavam xingando ela nas ruas e mandando foto das suas partes genitais para o telefone e redes sociais dela. Nossa! Nesse caso específico, acho que isso foi o pior – e isso é, claro, consequência do machismo. Mas sobre piadas machistas, acho que existe muita audiência para isso ainda. O que parece estar mudando é que agora está aparecendo um interesse por uma comédia que não faz isso.


SPOILER ALERT, LEITORES DO HYPENESS. CUIDADO NAS PRÓXIMAS LINHAS

Verdade ou não, Hannah afirma estar deixando o stand up por não suportar mais fazer humor depreciativo e contribuir com uma cultura machista. Você já teve algum sentimento parecido? Tem medo de que isso um dia aconteça com você?

Com certeza. A sensação que dá é que ainda que você se esforce ao máximo, dê tudo o que você tem, as oportunidades são limitadas. A gente tenta sobreviver e tenta criar as nossas próprias oportunidades. Por exemplo, eu estive agora no Brasil e fiz um show só de mulheres no Clube do Minhoca. Desse show nasceu um projeto de divulgação do humor feito por mulheres no Brasil: o Mamacitas Comedy. A gente tem uma página no Instagram e vamos tentar, juntas, crescer e quebrar as barreiras. 

 

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Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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