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Mulheres montam o Museu da Empatia Feminista – e é impossível não se emocionar

por: Gabriela Rassy

Certa vez saí na rua para comprar pão. Fazia um dia lindo de calor, desses de sol raiando sem nuvens. Meti logo um vestido longo sem mangas e fui para a rua. Voltei depois de 20 minutos aos prantos. Não foi um, dois ou cinco, mas 15 homens me abordaram na rua para dizer tudo o que tinham vontade. Passei por “elogios” que nunca queria ter recebido e por comentários aleatórios que saíram da boca de homens jovens, velhos, pedreiros, vendedores, enfim, sem padrão. Eu não fiquei triste, incomodada. Fiquei p*ta da vida. Chegando em casa meu pai me ligou e ficou assustado com o tanto que eu estava irritada. “Mas com que roupa você estava?” foi a pergunta. Tem roupa específica para ser agredida na rua? Tem sentido não poder comprar pão em paz sem um macho destilar seus pensamentos mais asquerosos sobre você?

Essa história é minha e é de verdade. Mas o que importa mesmo é que ela é dia a dia de qualquer mulher. Coisa besta, né? Padrão. Coisa que acaba com o dia de um tanto de mulheres, que traumatiza outro tanto. É por dar ouvidos à histórias tão frequentes de abusos, violência, recriminação e agressões sociais que um grupo de meninas entre 17 e 21 anos decidiu montar a mostra Museu da Empatia Feminista.

Leve seus fones de ouvido e abra seu coração

Se o nome te parece comum, não é à toa. O projeto Museu da Empatia, que abriu pela primeira vez em Londres, em 2015, inspirou as estudantes Giovanna Alves Loli Estevo, 18, Maria Eduarda da Mota Oliveira, 18, Patrícia Pereira, 21, Ana Carolina Martins, 17, Silvia Pamela Panobianco, 18, e Jéssica Alves, 17, a criarem seu próprio acervo de histórias. Tanto lá na Inglaterra quanto aqui, a ideia era a mesma: se colocar no lugar do outro.

Como o nome já diz, o objetivo é desenvolver a empatia e reformular as relações humanas. A primeira mostra, lá na Inglaterra se valia da expressão be in your shoes, que literalmente se traduz “estar nos seus sapatos”, significa realmente estar no lugar de alguém. Os visitantes calçavam sapatos disponíveis em uma estante e caminhavam com eles enquanto escutavam a história de seu dono.

A versão feminista apresenta diversos objetos ao lado de um QR code. Em cada objeto, uma história diferente. “Utilizamos muito as redes sociais para buscar histórias, mas a questão do “boca-boca” também foi bem presente, convidando mulheres, divulgando o projeto em diversos lugares”, contam as organizadoras da mostra.

Cada QR Code vem com uma história relacionada com o objeto

Ouvi quase todas. Algumas eram de superação a questões como aceitação do corpo ou de terem conhecimento para tomar as rédeas de suas vidas. Outras contam histórias de agressões feitas por familiares, amigos e companheiros. Nem todas se identificam, mas não faz a menor falta. Me coloquei no lugar de muitas delas. “É uma coisa que acontece no cotidiano de todas as mulheres. A gente sai na rua e já está exposta a um mundo machista”, diz Maria Eduarda. “É muito fácil julgar, mas você não sabe o que as pessoas estão sentido. Elas se excluem da sociedade com medo de serem julgadas e aqui a gente trouxe histórias de muitas pessoas com medo. Tanto que muitas delas são anônimas. Depois que nos mandaram, elas excluíram a gente com medo, com vergonha”.

Elas mesmas se uniram por acreditarem que era um tema em comum a todas. “Nossos caminhos se cruzaram no curso, tivemos como inspiração nossa professoras Keka e Adriana, e uma das integrantes do grupo era feminista”, contam. Giovanna queria fazer um projeto voltado para esse tema, então todas se uniram e foram aperfeiçoando e trabalhando a ideia. “Todas nós achamos muito interessante, todas com o objetivo de fazer algo pelo movimento, fomos ficando cada vez mais unidas, trabalhando juntas, e assim criando um laço, uma conexão entre nós”.

Em outra parte da mostra, alguns manequins apresentam figurinos dos mais diversos: vestido de festa, uniforme de escola, camiseta de futebol, camisa social e até uma roupa de criança. Cada um tem uma frase que toda mulher já ouviu. Até eu, vindo do meu pai. A instalação reforça que o estupro não tem nada a ver com a roupa. “O estupro veio antes da mini-saia” se lê ao fundo.

As frases que doem

As impressões do público também ficam registradas ali. Em um espelho, vários bilhetes falam sobre o impacto da mostra. “Muitas pessoas se sentiram mais fortes, tristes e abaladas por conta das histórias de violência”. Impossível não sair de lá tocada. A empatia é a única forma de entender os sentimentos do outro e evoluir nas nossas relações sociais. A mostra fica em cartaz pouco tempo, mas o efeito segue em mim. Espero que te toque também.

Museu da Empatia Feminista
Senac Lapa Faustolo – Rua Faustolo, 1347 – Lapa, São Paulo-SP
8 a 30 de agosto, das 8h às 21h (sábado, das 8h às 14h)
Grátis
Leve seu fone de ouvido <3

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Fotos: Gabriela Rassy
Arte: Priscila Barbosa Ilustração


Gabriela Rassy
Jornalista enraizada na cultura, caçadora de arte e badalação nas capitais ensolaradas desse Brasil, entusiasta da cena musical noturna e fervida por natureza.

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