Entrevista Hypeness

‘Nossa relação melhorou’, diz filho de Solimões após ter se assumido gay

por: Kauê Vieira

Publicidade Anuncie

Amor, suporte e respeito às diferenças, são elementos indispensáveis para o desenvolvimento das relações entre pais e filhos. No caso de situações envolvendo a orientação sexual, tais medidas ganham ainda mais peso.

Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), demonstra que 83,3% dos participantes não se sentem apoiados pela família. Mais 59,5% conhecem alguém que foi expulso de casa por causa da homofobia.

Diante de um cenário desanimador, histórias inspiradoras de pais que demonstram na prática o amor incondicional pelos filhos não podem passar batidas. Se tratando de figuras públicas como o cantor sertanejo Solimões, o alcance é ainda maior.

Pai de Gabriel Felizardo, de 20 anos, o artista chamou a atenção ao manifestar sua aprovação ao relacionamento homoafetivo do filho. Por meio de comentários recheados de afeto e carinho, Solimões fez questão de comentar TODAS as publicações do jovem nas redes sociais.

Gabriel aproveita a relação para falar com o pai sobre diversidade sexual

Em entrevista ao Hypeness Gabriel, estudante de cinema e atualmente vivendo em São Paulo, se disse surpreso com a repercussão, já que dentro de casa sua orientação sexual sempre foi aceita.

“Fiquei feliz de ver que as pessoas gostaram bastante disso, mas como já falei, me assustou um pouco também o fato de algo que deveria ser normal ser tão enaltecido assim, que é um pai apoiando seu filho gay. Mas infelizmente isso é raro”, assinala.

Assumido desde os 16 anos, o jovem costuma publicar fotografias artísticas e ao lado do namorado Well, em sua conta no Instagram. Os posts são seguidos de comentários como ‘Deus te abençoe’, escritos, claro, pelo paizão Solimões.

Gabriel conta que está aproveitando a exposição para enfatizar a importância do afeto em questões envolvendo a orientação sexual. A fala vai de encontro com a análise de psicólogos, como João Suzart, que entrevisa ao Mundo Psicólogos, aponta a naturalidade como peça importante.

Solimões faz questão de apoiar o namoro e a felicidade do filho

“Se acolhe for homossexual, bissexual ou heterossexual, porque todas são expressões naturais e saudáveis da sexualidade humana e, como diversos outros aspectos, constituem nossa identidade. Se o filho encontrar em casa uma família que o acolha, o aceite em plenitude e reforce positivamente as descobertas desse período, ele será bem mais forte para enfrentar os problemas em sociedade, pois a família terá criado um lastro protetor muito bom. Acolha, aceite e dê força sempre.”

Apesar de reconhecer a inserção em uma realidade completamente diferente da vivida por grande parte dos LGBTQ, o estudante de cinema procura oferecer uma palavra amiga dentro de seu espaço de privilégio.

“Eu recebi várias mensagens, muitas delas de pessoas pedindo conselhos, ajuda, querendo dicas de como se assumir, como se aceitar, recebi desabafos de tantas pessoas em poucos dias relatando situações dentro de casa, sabe? E esse tipo de situação é totalmente distante da minha realidade, já que eu sempre fui bem aceito na minha família. Reconhecendo minha posição de privilégio, tentei ao máximo ajudar as pessoas que vieram conversar comigo”, refletiu.

O estudante de cinema usa a exposição para apoiar outras pessoas

Solimões mora em Franca, cidade do interior de São Paulo e segundo Gabriel, quando contou ao pai que era gay, teve uma resposta tranquila. O jovem disse que ele chegou a ficar alguns segundos pensativo e na sequência respondeu dizendo que “já esperava isso e estava tudo bem”.

Para o estudante de cinema, o apoio paterno foi decisivo na superação das questões psicológicas que impediram por muito tempo que ele pudesse viver em sua plenitude. Gabriel confessa que o receio de não ser aceito flutuou em seus pensamentos.

“Eu sou uma pessoa meio fechada, mas eu era muito mais antes de me assumir, tinha medo da reação da minha família, medo do que poderia acontecer e acabava me fechando dentro de mim mesmo. Depois que me assumi nossa relação foi melhorando, no sentido de não ter nada pra esconder, poder falar sobre qualquer coisa. Claro que às vezes ainda rola uns desentendimentos, mas num geral, nossa relação hoje é muito boa”.

Mesmo sem entender, lá está Solimões apoiando

“A cara tá boa, mas a legenda tá doida”, escreveu Solimões em uma foto artística do filho. A postura de estranhamento com os experimentos artísticos do garoto é fruto do espaço entre uma geração e outra.

Vivemos tempos de revisões de práticas, processo que engloba inclusive palavras e conceitos enraizados por muito tempo. Alguns podem chamar de excesso de zêlo, entretanto, a verdade é que paradigmas precisam ser quebrados para a evolução social.

Neste sentido, Gabriel Felizardo, reconhecendo as diferenças geracionais, procura conversar com o pai para colocar fim em alguns vícios.

“Por exemplo, ele tem muito o costume de dizer que ele usou tudo o que ele ouviu a vida inteira sobre a baixa estatura dele ao seu favor, e esses dias estávamos conversando e eu consegui fazer ele entender que nem todo mundo tem a capacidade psicológica que a gente tem pra não deixar a negatividade nos atingir”, pontua.  

Depois que me assumi, nossa relação foi melhorando

A atitude de Solimões é um exemplo de que, mesmo que você não entenda todas as nuances envolvendo a diversidade sexual, se tiver amor no coração, já é o bastante. O diálogo e o caminho da compreensão sempre são os mais recomendáveis.

“Pelo fato do meu pai ser de uma outra geração, ser um homem hétero cis, ele não entende bem o peso que certas coisas tem. O movimento LGBT num todo, digo a luta, o posicionamento político, todas essas questões mais militantes são coisas que pra ele não são claras ou talvez não façam muito sentido, e eu sei que não tem maldade nisso porque nossa relação pai e filho, sendo eu um menino gay, é muito boa, é mais uma questão de vivência mesmo, é totalmente fora da realidade dele. Quando ele diz algo que eu acho que não está certo eu tento mostrar meu ponto de vista, o ponto de vista de uma pessoa que é parte da comunidade”, assinala o estudante de cinema.  

Gabriel finaliza ressaltando a relevância dos movimentos de luta contra a homofobia para o rompimento de barreiras. “Principalmente as pessoas que são LGBT, muitas delas escutam tanta coisa a vida toda que ficam sem perspectiva e não aguentam. Então eu acho que é um processo esse entendimento de como a conscientização, a luta, as bandeiras levantadas são importantes!”


 

Publicidade Anuncie

Fotos: Reprodução/Instagram


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

Branded Channel Hypeness

Marcas que apoiam e acreditam na nossa produção de conteúdo exclusivo.



X
Próxima notícia Hypeness:
Batom Vermelho: uma matéria sobre maquiagem, presentes e futuros