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Pega na mentira: 8 fake news que mudaram o curso da história antes da era Trump

por: Vitor Paiva

No início era o verbo – e logo em seguida veio uma mentira para justifica-lo. Se as últimas duas eleições presidenciais brasileiras foram marcadas por boatos, alegações infundadas, fofocas, notícias falsas e mentiras evidentes – com especial e cômico destaque para a ameaçadora bolinha de papel atacada contra o então candidato José Serra em 2010 – fica cada vez mais evidente que as próximas, em outubro, serão ainda mais. Quem melhor souber conduzir o fluxo e o ir e vir das famigeradas notícias falsas provavelmente se sairá melhor com o eleitorado daqui pra frente, independentemente da importância da verdade ter ficado muito para trás, soterrada na poeira da história.

O auge do atual fenômeno compreendido como “pós-verdade”, no qual a veracidade de um fato simplesmente não importa diante do impacto imediato de uma mentira contada para muitos (especialmente através da incontrolável capacidade de disseminação da internet) foi mesmo a última eleição nos EUA. Não é exagero afirmar que a vitória de Donald Trump (um mitômano evidente, capaz de mentir compulsivamente diante dos olhos do mundo) foi toda construída em cima de fake news ou da negação da verdade. O esvaziado efeito imediato de frases de efeito e afirmações categóricas parece ter passado a importar mais do que a veracidade de qualquer afirmação.

Mas, ainda que possa parecer que as fake news tenha sido inventadas nos últimos anos, e por mais que a internet tenha corroborado e intensificado tal fenômeno, a verdade é que notícias falsas movem a história desde os primórdios da humanidade. No Brasil e no mundo, boatos foram forjados e espalhados a fim de alterar o resultado de eleições, justificar graves golpes de estado, derrubar reputações públicas ou efetivar manutenções de grandes poderes. A roda por trás de importantes capítulos da história foi muitas vezes a mentira, noticiada nos jornais e na boca do povo feito fossem verdades, e deixando a fidelidade dos fatos e o rigor ético no chão.

Para mostrar que as fake news são parte do DNA da história, separamos aqui 11 notícias falsas que, muito antes da era Trump ou das últimas eleições brasileiras, foram criadas e disseminadas sem maiores pudores. A pós-verdade, pelo visto, existe desde a primeira vez que alguém jurou dizer a verdade.

1. As anedotas bizantinas de Procópio

Notícias falsas são de tal forma utilizadas desde os primórdios da política que, no século VI, o cronista e historiador bizantino Procópio de Cesárea já utilizava fake news não só no cotidiano como as imortalizou como autor da versão oficial da história do governo do imperador Justiniano. Autoritário e inclemente no que se diz respeito aos impostos sobre o pobre povo, quando seu reinado chegou ao fim, com sua morte, após 38 anos, o povo respirou aliviado por seguir sem o duro comando de Justiniano. A história, no entanto, foi registrada de forma diferente.

Procópio escreveu seis livros contando a história de Justiniano, e guardou até sua morte o segredo de que havia não só “apagado” detalhes escandalosos dos bastidores do governo como havia também amenizado crises, ampliado conquistas, e iluminado a figura do imperador para muito além da realidade. Tais revelações secretas só foram descobertas depois da morte de Procópio, em escritos que o cronista escondeu por toda a vida. Sua história polida, plena em fake news, tornou-se, ao longo de todos esses séculos, a versão oficial.

2. A descoberta do Brasil

As mais antigas notícias falsas do Brasil existem literalmente desde que existe o próprio país – ou o país “fundado” pelos portugueses. O descobrimento do Brasil é um ninho de fake news, a começar pelo próprio título: tratou-se muito mais de uma invasão do que de uma descoberta, considerando os milhões de nativos que já viviam aqui, e a ideia de que o país “começa” em 1500 é uma ilustração perfeita do descaso que temos pela nossa própria história – o que passamos a chamar de Brasil, afinal, é logicamente muito mais antigo do que isso.

Mesmo dentro da história oficial, no entanto, as mentiras também são muitas, com especial destaque para duas: a de que as embarcações de Pedro Álvares Cabral teriam chegado aqui por acaso, e a própria noção de que o navegador português foi o primeiro europeu a pisar em solo brasileiro. Historiadores hoje já comprovam que não havia muito como Cabral e o rei de Portugal não saberem da existência do Brasil – em especial por não ter sido ele o primeiro europeu a chegar aqui, nem sequer o primeiro português. O navegador Duarte Pacheco Pereira esteve no Pará e no Maranhão dois anos antes de Cabral, assim como o espanhol Vicente Yáñez Pinzón no litoral do Pernambuco, em janeiro de 1500, meses antes do descobrimento oficial.

3. A Guerra dos Mundos

Um dos mais clássicos e conhecidos casos de fake news foi o ataque alienígena que a Terra sofreu em 30 de outubro de 1938, noticiado nas rádios americanas com urgência. A notícia, relatada em diversos boletins que interrompiam a programação normal da rádio, dizia primeiro que uma série de explosões havia sido percebida em Marte; em seguida, que um meteoro havia caído em Nova Jersey, nos EUA, matando mais de 15 mil pessoas; depois, que o meteoro era na verdade uma nave, da qual marcianos haviam sido vistos saindo com armas de lazer na mão – a Terra, portanto, estava sendo invadida por alienígenas.

Orson Welles em transmissão radiofônica

A notícia, no entanto, era somente uma incrível adaptação para o rádio feita por Orson Welles, diretor do clássico filme Cidadão Kane, para o livro Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, no qual uma invasão de seres de Marte acontece. A adaptação era tão convincente, no entanto, que antes mesmo que a transmissão acabasse a população foi posta em pânico – milhares de ligações para a polícia, os bombeiros e os hospitais colocaram os EUA de prontidão para realmente lutar contra os alienígenas. A verdade, porém, é que não passava de uma espécie de rádionovela – que, nas mãos de um gênio como Orson Welles, se tornou uma inacreditável verdade.

4. Incêndio no Reichshtag alemão

Um mês depois de ser empossado como chanceler da Alemanha, no dia 27 de fevereiro de 1933, Adolf Hitler viu no incêndio que tomou conta do Reichstag, o prédio onde funciona o parlamento alemão, a desculpa perfeita para começar o enrijecimento de seu governo e transforma-lo em uma ditadura. O partido nazista colocou a culpa do incêndio em Marinus van der Lubbe, um líder comunista, e passou a declarar que o ocorrido era parte de uma conspiração de esquerda para derruba-lo e todo o governo. A perseguição do chanceler ao Partido Comunista a partir do incêndio no Reichstag ficou compreendida como o passo fundador do que viria a ser a ditadura nazista na Alemanha.

Comunistas foram presos em massa, incluindo todos os parlamentares do partido, fazendo com que os nazistas se tornassem a absoluta maioria no parlamento, e permitindo a Hitler ampliar e consolidar seu poder. A famigerada Lei de Concessão de Plenos Poderes foi aprovada – concentrando todo o poder nas mãos do Führer – Marinus van der Lubbe foi executado, mas até hoje nenhuma conspiração foi remotamente comprovada. Em verdade, boa parte dos historiadores reconhece ter se tratado de uma “operação de bandeira falsa” – quando um governo conduz uma operação de modo a parecer ter sido realizada pelo inimigo. Os nazistas teriam incendiado o Reichstag alemão a fim de justamente criar o ambiente perfeito para a perseguição à oposição comunista e instaurar seu regime.

5. Os “marmiteiros” do Brigadeiro Eduardo Gomes

Corria o ano de 1945 quando uma simples palavra foi utilizada para derrubar a candidatura do Brigadeiro Eduardo Gomes, em pleito contra o General Eurico Dutra. Apoiado por Getúlio, Dutra viria a vencer as eleições, e muito se credita sua vitória a um boato. O brigadeiro não era exatamente popular entre a população mais pobre, e de repente passou a ser alardeado pela oposição que Gomes teria dito que “não precisava do voto dos marmiteiros” – referindo-se aos trabalhadores mais humildes, que carregavam sua comida em marmitas. A fala incendiou parte da população contra Gomes, e fez crescer a popularidade de Dutra. Acontece que era tudo mentira.

Por mais que tenha tentado contornar tal fake news, já era tarde: Dutra passou a ser visto como o candidato dos trabalhadores e, com o apoio de Getúlio, venceu as eleições. Gomes jamais se referiu aos marmiteiros, e pesquisas e historiadores comprovam se tratar de um boato fabricado, provavelmente pelo dono das emissoras de rádio que primeiro propagou a mentira. E assim, portanto, a história foi feita.

6. Atentado no Riocentro

Essa foi uma fake news que não deu exatamente certo, e acabou se tornando uma das mais importantes notícias reais a apressar o processo de redemocratização brasileira na década de 1980, no período final da ditadura militar. E teria sido uma das mais trágicas da história, tanto no sentido humano quanto no sentido, pasmem, musical, pois na noite do dia 31 de abril de 1981 dois militares tentaram plantar uma bomba no Riocentro, no Rio de Janeiro, em um show por comemoração do Dia do Trabalhador. A imprensa de modo geral não retratou, à época, mesmo tendo sido comprovado, quem eram os verdadeiros responsáveis pela tentativa de atentado.

O Puma onde a bomba explodiu no colo do sargento

O plano, a ser executado pelo sargento Guilherme Pereira do Rosário e pelo capitão Wilson Dias Machado, era detonar a bomba e colocar a culpa do atentado em organizações de esquerda. A ideia, elaborada por setores radicais do governo à época, era, com isso, convocar uma nova onda de repressão e paralisar o processo de reabertura democrática (ideia essa já confessada pelos envolvidos). Antes de conseguir chegar até o pavilhão onde o show ocorria, no entanto – em um carro Puma ainda no estacionamento do local – uma das bombas explodiu no colo do sargento, levando-o à morte e ferindo gravemente o capitão. Outra bomba explodiu instantes depois, em uma estação elétrica. Delegados e militares já admitiram em depoimentos que a intenção era não só atingir a imensa plateia que assistia aos shows, como principalmente os artistas: apresentavam-se naquela noite, entre muitos outros, nomes como Gonzaguinha, Luiz Gonzaga, Gal Costa, Chico Buarque, Fagner, Beth Carvalho, Clara Nunes e Elba Ramalho.

7. Comício pelas Diretas Já transformado em festa na TV

300 mil pessoas tomaram a Praça da Sé no dia 25 de janeiro de 1984, em um imenso comício pelas Diretas Já, exigindo eleições diretas em um Brasil ainda governado pela ditadura militar. Tratava-se do maior ato político de todos os 20 anos do regime, reunindo, além da multidão, artistas, políticos, lideranças, sindicalistas e estudantes no palco do evento. O protesto mirava a Emenda Constitucional 22, que permitia desde 1982 eleições diretas para governador, mas mantinha a eleição presidencial de forma indireta, na qual o presidente, em 1985, seria eleito por senadores, deputados e delegados. O povo queria votar para presidentes mas, na hora de noticiar o evento, a TV Globo, apoiadora histórica da ditadura, transformou o imenso ato político em uma inofensiva festa.

No Jornal Nacional daquele dia, o ato político foi anunciado como uma das muitas comemorações pelo aniversário de São Paulo. “A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi o comício na Praça da Sé”, disse o apresentador. A matéria propriamente passou quase todo o seu tempo falando sobre os shows e o aniversário da Catedral da Sé, e somente ao final o repórter mencionou que as pessoas pediam a volta das eleições diretas – como se fosse um grito espontâneo, por acaso, e não o propósito de todo o evento. Desde então por muitas vezes a Globo tentou diminuir ou relativizar tal ato, como se não tivesse acontecido ou fosse somente um erro – somente em 2015 a emissora admitiu a manipulação, mas ainda de forma tímida, sugerindo ter sido um equívoco, e não um gesto intencional.

8. As armas de destruição em massa iraquianas

Para justificar uma guerra preventiva contra o Iraque, iniciada pelos EUA em 2003, o secretário de estado Colin Powell afirmou, diante do Conselho de Segurança da ONU, que sabia que o país possuía armas de destruição em massa. Até mesmo uma apresentação em Power Point foi realizada por Powell, indicando quais seriam e onde estavam tais armas. As informações haviam sido conseguidas através de um informante, apelidado à época de “Curveball”, e justificaram a longa e sanguinária guerra que o então presidente George W. Bush deu início em solo iraquiano.

O então secretário de estado dos EUA, Collin Powell

Acontece que não só as armas de destruição em massa jamais foram encontradas ou sequer confirmadas, como o próprio Curveball, ou melhor, Rafid Ahmed Alwan al-Janabi, a tal fonte de Powell, veio a admitir que mentiu para conseguir liberar o povo iraquiano do regime de Saddam. A verdade não importava, pois, por trás da guerra estava a reação americana aos ataques de 11 de setembro (mesmo o Iraque não tendo participado do atentado) e, claro, o domínio da produção de petróleo na região – além da vingança pessoal do presidente Bush contra Saddam Husseim em nome de seu pai.

Extra: Donald Trump e sua coleção de mentiras

Se as fake news não são exatamente uma novidade na história, é verdade que o termo se tornou incrivelmente popular recentemente pela frequente utilização por parte do atual presidente dos EUA, Donald Trump, como resposta a qualquer crítica. Basicamente, toda e qualquer acusação feita pela imprensa contra Trump vem sendo tratada pelo presidente como sendo uma notícia falsa. A própria imprensa, uma das mais importantes bases da dita democracia americana, é hoje tratada como inimiga. Paradoxalmente, no entanto, talvez nenhum outro político na história moderna tenha mentido tanto e de forma tão inescrupulosa e pública quanto o próprio Trump.

A quantidade de mentiras ou imprecisões que induzem à mentira ou ao erro é tamanha que diversos jornais ou meio de comunicação americanos vêm mantendo uma contabilidade desde o início de seu governo. Segundo o The Washington Post do dia 01 de junho, nos primeiros 497 dias de Trump na Casa Branca o atual presidente já mentiu 3,251 vezes em público (incluindo a mentira de que ele inventou o termo “fake news”, visto na imprensa americana desde o século XIX). Trata-se de uma impressionante média de 6,5 mentiras por dia – somente em um comício no dia 29 de maio Trump mentiu 35 vezes. Para quem popularizou a noção de que tudo contra ele é uma notícia falsa, de que toda a imprensa está contra ele e de que ele propriamente é infalível, nada mais esperado que ele próprio seja um mitômano – um viciado em mentiras, a maior máquina de fake news do mundo.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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