Matéria Especial Hypeness

‘Pode estar chovendo ou 40 graus, eu vou para a praça esperar pelas crianças’, diz Tia Lily

por: Kauê Vieira

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A complexidade da educação está de acordo com o seu peso para o desenvolvimento da sociedade. Para ser consumada, a geração de conhecimento depende de uma gestação que passe pelo afeto.

A relação entre professor e aluno é uma combinação de sentimentos estimulados pela troca de emoções e subjetividades. Sabe aquela professora que fica marcada pelo resto da vida? É a afetividade em pleno movimento. Apesar de muitas vezes permanecer alojado no inconsciente, este método transforma o cotidiano dentro e fora da sala de aula.

Rosely Santos, ou como ela prefere ser chamada, Tia Lily, é certeira em defender o amor pelas crianças como alicerce para o aprendizado. Criada no Rio de Janeiro desde os 2 dias de vida, a carioca moradora do Cachambi, resolveu sair da inércia e oferecer aulas gratuitas aos sábados.

“Eu tenho esse projeto há muito tempo. Pensei que se eu colocasse obstáculos, nunca ia realizar o projeto. Quando chegou um sábado eu disse, pode estar chovendo ou um calor de 40 graus, eu vou para a praça ficar esperando pelas crianças e ajudá-las da melhor forma possível”, disse em conversa por telefone com o Hypeness.

Não dá pra perder a fé em uma sociedade que tem pessoas como Tia Lily

Se você estiver passando pela Praça Jardim do Méier numa manhã de sábado, certamente vai dar de cara com a barraca montada por Tia Lily. Livros, cadernos e carinho, são os instrumentos selecionados por ela, mãe de dois filhos e formada em pedagogia, para exercer a psicologia do afeto a partir das 11h.

“Eu vejo as crianças como vejo meus dois filhos. O meu projeto é a união do A de amor e o E de educação. Você não pode querer dar educação sem amor. A criança sente quando alguém faz algo com prazer. Eu estudo por elas e pra elas. Posso não ter dinheiro, mas amor eu tenho transbordando”, garante.

Desde a divulgação da história na página do Quebrando o Tabu no Facebook, a vida de Tia Lily se transformou. A educadora, que acumula ainda uma pós-graduação no currículo, diz ter recebido uma infinidade de manifestações de solidariedade não só de educadores e psicólogos, mas, sobretudo, de gente querendo ajudar.

“Confesso que fiquei assustada. Jamais imaginei que chegaria a esse ponto. Achei tudo muito lindo, porque as pessoas não me conhecem, mas estão me dando uma palavra de conforto, oferecendo livros, material escolar pedagógico. Eu estou ali para receber, basta chegar e se identificar. Meus planos são de no futuro ter uma equipe”, finaliza.  

Praça do Méier: Pense num lugar aconchegante para aprender…

Moradora da Zona Norte do Rio de Janeiro, assim como outras mulheres negras, Tia Lily teve que enfrentar obstáculos diversos impostos pelo racismo. Entre eles o de passar para os dois filhos o amor pela educação. “Eu sempre falei para meus filhos que tínhamos que ter orgulho do que nós fazemos. Não importa, se você faz com amor, aqui pode não ter importância pra ninguém, mas tem pra você”.

Orgulhosa, Tia Lily reconhece o tamanho da sua representatividade, especialmente para as crianças negras. A sociedade brasileira ainda insiste em associar a figura do negro ao crime, por isso o fato de uma mulher negra se dispor em oferecer amor e educação em um local público do subúrbio, é motivo de esperança em dias melhores.  

“O nosso país diz que não, mas discrimina bastante. Já aconteceu de crianças me perguntarem sobre cor. Eu sempre valorizei. Não importa a cor que você tenha, você é lindo. É especial. A gente por ser negro têm algumas barreiras, eu converso com as pessoas e me coloco como exemplo. Não agora. Eu passei por muita coisa. Pra você ter ideia, eu tenho uma faculdade de pedagogia, tenho uma pós-graduação, faço direito e não estou inserida no mercado de trabalho pela minha cor e pela minha idade. Mas não desisto. Você tem que dar sempre essa palavra para as crianças”, salienta.  

Se depender da determinação de Tia Lily, a educação brasileira está em boas mãos. Para o futuro os planos são de levar o método de ensino para outros estados e atrair patrocinadores para a confecção de uniformes. Atualmente cursando direito para atuar na vara da infância e da juventude, ela está aberta para ajuda e colaborações.

“Eu não coloco obstáculo para o que eu quero e tenho a pretensão de ajudar em outros estados. Posso ensinar porque tenho carinho e amor”.

Ficou interessado em colaborar ou frequentar as aulas de Tia Lily? Visite seu perfil no Facebook e saiba mais.

 

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Fotos: foto 1: Reprodução/Facebook/foto 2: Wikipédia


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.

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