Minha Profissão é Hype

Thiago Ventura, criador da ‘Pose de Quebrada’: ‘Quando você acerta, a comédia é um amor infinito’

por: Rafael Oliver

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Criador da “Pose de Quebrada”, difundida nas redes sociais por Neymar, Gabriel Jesus, mas também por Mbappé e o piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, o humorista Thiago Ventura é hoje o principal nome do stand up comedy do país.

De Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo, Ventura conquistou o público brasileiro justamente pelo seu jeito despojado, despretensioso, sincero. As histórias vividas na quebrada viraram temas de piadas. Família (principalmente, a mãe) é citada diversas vezes no show. Temas polêmicos são abordados: maconha, criminalidade. Bingão, como é chamado pelos mais íntimos, tem facilidade para fazer o público rir. Mas segundo ele não foi fácil: os primeiros shows foram um fracasso. O cenário mudou quando percebeu que seu jeito natural era o estopim que faltava para explodir nos palcos e na internet, acumulando milhões de seguidores. No YouTube já são mais de 2 milhões de inscritos.

Encontrei com Ventura e o acompanhei em uma maratona de shows. Aos sábados, ele se apresenta em 3 sessões: começa em Campinas, corre para São Paulo para integrar os “4 Amigos” e finaliza no shopping Frei Caneca com seu solo “Só Agradece”. Durante os intervalos entre os shows, trocamos uma ideia, que você confere agora, nessa entrevista exclusiva ao Hypeness.

22h: Thiago chega ao camarim do teatro Santo Agostinho para seu segundo show, vindo de Campinas. Dos quatro humoristas presentes, era o mais animado e empolgado. Ao me ver, abriu um sorriso, me deu um abraço e agradeceu minha presença. “Pô, mano, que bom que você veio”. Perguntei se estava pilhado pros próximos dois shows que ainda restavam. “Vixi, lógico… É top, ladrão.” – brincou.

Começa uma troca de informações entre os humoristas presentes. E eu aproveito para começar a entrevista.

Hypeness – O tema da noite é “Dia dos Pais”. Thiago, vocês sempre fazem esse ritual de cooperação?

Thiago Ventura: O brainstorm é normal. Principalmente nessa nova geração de comediantes.  A gente se ajuda e se divulga, não só nas piadas como na vida também.

Qual a melhor e pior coisa da sua profissão?

É como qualquer outra profissão que você trabalha por conta, você é seu chefe, faz seu horário. Na comédia, eu não sei nem definir se eu sou feliz. Eu sou privilegiado, então esqueço da felicidade e foco no privilégio. Penso: “Caralho, consigo fazer os outros rirem e vou fazer isso pro resto da vida”.

Já a pior coisa da profissão é fazer uma piada e ninguém rir. Você se prepara pra caralho e ninguém dá risada. Foda. Você achou que o que escreveu era uma piada, mas se ninguém riu, não era. A piada tem como objetivo o riso. Se você não atinge, você não a fez. E dói. É ruim, viu? Mas quando acerta… Porra! A comédia é um amor infinito. Anota essa frase aí… (risos)

 

Fim do segundo show. Partimos para o shopping Frei Caneca. No carro, ligo a câmera para começar a registrar. Thiago me interrompe: “calma aí,  cuzão, deixa eu colocar o boné”. Em seguida, peço para ele contar sobre o tema de seus shows.

Meu primeiro show solo é o “Isso é Tudo Que Eu Tenho”. Fala sobre a importância da comédia na minha vida.

O “Só Agradece”, sou eu dizendo tudo que a comédia me proporcionou. Venho dizer obrigado, por vários motivos, e assim vou compondo o show.

O outro solo que to escrevendo, acho que vai se chamar “POKAS”. Eu gosto do nome, porque é poucas ideias. Eu falo muito essa frase. Vou colocar minha opinião sobre a vida no geral.

Por último vai ter o “Porta de Entrada”,  um especial abordando a legalização da maconha, dizendo o porque sou a favor. Se eu conseguir escrever uma hora sobre legalização, vai ser uma parada legal na minha trajetória. É um assunto que gosto. Eu vou estar me posicionando sobre um tema que precisa ser abordado.

Ou seja, existe uma linha de pensamento, um show liga o outro, é uma transição.

Você acha que já passou da hora de legalizar a maconha?

Já passou demais! Eu fui fazer show em Amsterdã. Lá é legalizado. Eles geram impostos, geram empregos, diminui o tráfico. Eu fui num coffe shopp onde a dona não fumava maconha. Imagina: você tem um produto num país como Brasil, que você pode explorar pra caralho e vai diminuir o crime, não tem porque não legalizar.

Qual sua visão sobre o stand up comedy?

Acredito que quando você começa a fazer stand up, começa a entender porque é engraçado. Depois de um certo tempo de estrada, começa a entender o que quer com a comédia. Eu acho que o comediante não precisa fazer apenas a piada pela piada, ele consegue levar um pouco da sua opinião para as pessoas. Se você consegue fazer a pessoa rir e ao mesmo tempo refletir, é sensacional. Quando o espectador gosta do comediante porque concorda com o jeito que ele vê a vida, ou acha interessante como ele encara as coisas, é mais legal ainda.  É mais ou menos como funciona lá fora. As pessoas aqui ainda tem que estar um pouco mais abertas a isso. A comédia stand up ainda está engatinhando aqui no Brasil, mas cedo ou tarde a gente vai conseguir passar essa maturidade que tanto buscamos.

 

Chegamos no camarim do seu último show. De cara, um produtor entrega cópias de seu livro para ele autografar. O título  leva o nome do seu primeiro solo: “Isso é Tudo que Tenho”.

Esse livro é o meu primeiro (já estou escrevendo o segundo). Eu mandei pra todas as grandes editoras de São Paulo. Nenhuma leu. Cheguei a ir pessoalmente. Me falaram que eu não  tinha notoriedade pra vender livros. Porra, eles tinham que se preocupar com o conteúdo, não com a venda. Mas depois eu fiz por conta própria. Vendeu mais de 10 mil. Num país onde apenas 20% da população é leitora assídua. Da hora, né? Na vida é sempre assim: tem um montão de NÃO por aí. Mas qual o tamanho do SIM que você quer? Então é “Pokas”…Eu fiz o bagulho e deu certo. Tenho o maior orgulho.

Acha que seu sucesso se deve ao fato de você ser uma inspiração? Um moleque que saiu de Taboão e hoje arrasta multidões pelo Brasil.

Não sei, mano. O que sei é que ninguém falava de quebrada como eu falo. Aí eu comecei a movimentar uma grande galera. Quando eu conto minha história, de como o bagulho aconteceu, como me planejei pras coisas acontecerem, então sim, acaba inspirando. Mas nunca tive a intenção de inspirar, sacou? Só fui sincero. Quando as pessoas falam que eu inspiro eles pra caralho, fico surpreso. Eu só contei minha vida. Espero que eu seja apenas o primeiro comediante a falar de quebrada, que surjam outros aí… Na real já tão surgindo, mas não posso ficar pensando que é por minha causa, se não acabo sendo prepotente, que é algo que não faz parte da minha essência.

Você se considera um influenciador digital?

Não posso me considerar. Mas não posso me isentar da responsabilidade. Quando peço pras pessoas assistirem algo, eles vão lá e assistem. O influenciador não: coloca uma opinião e faz as pessoas pensarem como eles.

Duas da manhã. Fim do último show. Ainda no camarim, Thiago me chama para tirar uma foto e postar em seu Instagram. Fico lisonjeado. A noite ainda está longe de terminar. Uma multidão o espera do lado de fora do Teatro. Ele faz questão de atender a todos. Tira fotos e pergunta, um a um, se gostou do show.

Thiago me surpreendeu. Não apenas pela sua humildade. Achei que iria rir o show inteiro. Mas também me emocionei com suas histórias. Assisti ao melhor show solo do país. Conversei com o melhor comediante da atualidade. Sem dúvidas Thiago Ventura é um fenômeno. Sem dúvidas sua profissão é Hype.

Aí, Bingão… Como você mesmo diz: Só agradece.

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Agradecimentos a Wilton Lanzillo, Alex Sandes, Lugão, Show 4 amigos, Márcio Donato, Dih Lopes, Afonso Padilha. Fotos: Will/divulgação.


Rafael Oliver
Publicitário de formação, com passagens por grandes agências, também atua por vocação na área da comédia. É redator, roteirista e humorista . Encontrou em San Diego, na Califórnia, seu segundo lar. Está sempre por lá. Vive uma busca incessante por novas experiências. E está longe de parar.

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