Entrevista Hypeness

Um brinde ao feminismo: Conversamos com a sommelier brasileira vencedora do ‘Oscar da Cerveja’

por: Kauê Vieira

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Cerveja é assunto sério. Parece até uma frase qualquer flutuando sobre mesas de bares das cidades do Brasil. Não é. Há algum tempo a produção e sabor da bebida alcoólica favorita dos brasileiros se tornou assunto de teses e profissão.

Se você está pensando na atuação do sommelier acertou em cheio. Impulsionado pelo crescimento do mercado de cervejas artesanais, que em apenas três anos dobrou – saltando de 356 para 679, a ocupação se tornou imprescindível e um trunfo para a resolução da crise vivida pelas principais distribuidoras de bebidas alcoólicas no país.  

Com seu conhecimento profundo sobre tudo o que envolve a bebida – sabores, combinações, cores e aromas, o sommelier contribui  e muito para a geração de uma cerveja qualidade e em sua apresentação aos consumidores.

Apesar dos avanços o espaço ainda é dominado por uma maioria sensível de homens, refletindo os efeitos do machismo no mercado de trabalho. Mas, alavancada pelos debates sobre questões feministas e uma penetração maior de mulheres em diversos setores profissionais, a coisa está se transformando.

As mulheres são maioria entre os sommeliers de cerveja na Ambev

Você já ouviu falar de Beatriz Ruiz? Não? Então devia, pois ela é a primeira brasileira a receber o certificado Cicerone, um dos mais importantes do universo cervejeiro mundial, por sua atuação enquanto sommeliere.

Para saber mais sobre este segmento, o Hypeness conversou com Beatriz, atualmente Sommelier da Cervejaria Ambev, que não foge do debate sobre o empoderamento feminino por meio da cerveja.

Formada em Letras pela PUC-SP, Beatriz Ruiz trabalhou por três anos na área de marketing, relacionamento e construção de marca com o consumidor. Algum tempo depois se interessou pelo universo cervejeiro e nunca mais conseguiu largá-lo.

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“Em 2013, me formei como sommelier e mestre em estilos de cervejas pelo Instituto da Cerveja Brasil e passei a atuar no mercado de cervejas artesanais entre importadoras, projetos especiais e cervejarias. Hoje, atuo como gerente de conhecimento cervejeiro na Ambev, onde fundei o projeto Goose Island Sisterhood, uma confraria de mulheres que busca discutir Empoderamento Feminino e Cerveja”, conta.

Capitaneado por Beatriz, o projeto representa uma inovação na luta contra a estigmatização entre mulheres e cervejas. Por muito, mas muito tempo, as mulheres tiveram apenas seu corpo associado com consumo deste tipo de bebida alcoólica. Quem não se lembra das campanhas machistas com mulheres de biquíni desfilando enquanto serviam cerveja para grupos de homens nos bares.

Neste sentido, a Goose Island Sisterhood reúne mulheres para estimular o engajamento em causas sociais, além de criar cervejas especiais com renda revertida para grupos atuantes pela igualdade de gênero. Entre os destaques está a bebida Carolina, que faz referência à escritora brasileira Carolina Maria de Jesus, mulher negra e tida como um dos principais nomes da literatura brasileira. Aliás, as reuniões em grupo se provaram eficazes, pois o rótulo surgiu por meio de uma sugestão da ativista e feminista negra Stephanie Ribeiro, participante da confraria.

“Existem muitos projetos aparecendo na nossa área, muitos coletivos e confrarias, mas sempre para mulheres que já participam do mercado. Minha intenção foi criar algo que mostrasse para outras mulheres que elas também poderiam participar desse universo, que  conta com o predomínio do público masculino”, ressalta.

Gênero, raça e empoderamento por meio da cerveja!

A liderança e preocupação de Beatriz Ruiz com o aumento da presença feminina na produção e no consumo independente de cervejas é certeira na defesa do debate sobre a necessidade da multiplicidade de vozes. É preciso que o protagonismo seja entregue na mão de que tem o direito. Só desta forma a sociedade conseguirá atingir um ponto de evolução benéfico para todas e todos.

“Eu comecei o projeto – e continuo nele – para mudar o mundo. É um trabalho de formiguinha e está mudando a cabeça de apenas algumas pessoas, mas está acontecendo e trazendo outras pessoas para esse lado. Esse também é o sonho de Ambev e na empresa todos gostam muito da Goose Island Sisterhood, já que um dos nossos mandamentos diz: “Bring people together for a better world”. Trabalhamos com cerveja, que une pessoas em momentos especiais, e trabalhamos por um mundo melhor”, conta com alegria a sommelier Beatriz Ruiz.

A presença feminina se reflete em outros quadros da Ambev. A equipe nacional de sommeliers da gigante soma 18 mulheres entre os 26 especialistas em cerveja e o melhor é que o trabalho não fica limitado somente a degustação. Ou seja, além de provar, estas sommeliers vendem, treinam garçons e lidam diretamente com o público.  

“Na Ambev grande parte dos cargos de liderança são ocupados por mulheres. As especialistas não só entendem de cerveja, mas também ajudam a divulgar as marcas e vendê-las: Fazem negociações, indicam a cerveja certa de acordo com o cardápio da casa e das pessoas que frequentam o local”, revela.

A mudança de rumo é perceptível e irreversível, entretanto, como lidar com as insistentes manifestações preconceituosas e machistas que insistem em dizer absurdos com ‘mulher não entende de cerveja?’. O reconhecimento é um caminho.

“O certificado Cicerone  me proporcionou uma satisfação pessoal e profissional e reforça a minha paixão por cerveja e por esse universo tão fascinante. É um reconhecimento de que estamos no caminho certo para dar mais visibilidade às mulheres brasileiras em um universo que ainda sofre preconceitos”, afirma.

Beatriz revela que o apoio da família foi fundamental neste percurso. “Eu aprendi a beber cerveja com meu pai, a cerveja sempre esteve presente nos encontros da minha família, apesar do sangue italiano. Eles gostam e se orgulham do meu trabalho, buscam aprender um pouco também com o que tenho a dividir”.

Cerveja é, sim, coisa de mulher e o trabalho exercido por Beatriz Ruiz dentro e fora da Ambev escancara esta máxima. Inflado pela conquista de um dos prêmios mais relevantes do mundo das cervejas, a jovem tem muito para oferecer na quebra de paradigmas.

Então, um brinde ao feminismo: Saúde!

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Foto: Divulgação


Kauê Vieira
Nascido na periferia da zona sul de São Paulo, Kauê Vieira é jornalista desde que se conhece por gente. Apaixonado pela profissão, acumula 10 anos de carreira, com destaque para passagens pela área de cultura. Foi coordenador de comunicação do Projeto Afreaka, idealizou duas edições de um festival promovendo encontros entre Brasil e África contemporânea, além de ter participado da produção de um livro paradidático sobre o ensino de África nas Escolas. Acumula ainda duas passagens pelo Portal Terra. Por fim, ao lado de suas funções no Hypeness, ministra um curso sobre mídia e representatividade e outras coisinhas mais.


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