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8 museus para se visitar antes que sejam tomados pelo descaso ou pelo fogo

por: Vitor Paiva

Em um momento em que o obscurantismo parece em vias de tomar conta de tudo e que a demonização do estado não reconhece as consequências disso num país como o Brasil, um incêndio destruir o mais antigo e mais importante centro de ciências do Brasil é uma metáfora sombria e literal demais.

O fogo que consumiu boa parte das mais de 20 milhões de peças que compunham o acervo do Museu Nacional parece ser o mesmo que consome qualquer possibilidade de um futuro melhor e mais próspero para os brasileiros, diante de uma eleição que pode sublinhar ainda mais o abandono, a violência e a ignorância com que tratamos nossa própria história, nossas possibilidades de progresso e melhoria, a nós mesmos. O Museu Nacional em chamas, o mais antigo do país com seus 200 anos de história, é a bandeira nacional atual – a bandeira de um fim construído há séculos.

Pois o incêndio no Museu Nacional pode ser o mais grave, mas não é de forma alguma o primeiro a assolar a memória, a arte, o progresso ou o futuro do Brasil – foram diversos os incêndios que destruíram parcial ou totalmente outros museus em nossa história recente. Em 1978 o fogo queimou quase que todo o acervo do MAM, no Rio de Janeiro, incluindo peças de Picasso, Miró, Dali e de muitos outros artistas brasileiros.

Da mesma forma, queimaram o Instituto Butantan, em 2010, o Memorial da América Latina, em 2013 – ambos em São Paulo – o Museu de Ciências Naturais da PUC de Minas, em 2013, o Museu da Língua Portuguesa, também em São Paulo, em 2015, e a Cinemateca Brasileira, em 2016. O progresso de um país é proporcional à maneira com que se trata sua memória, suas pesquisas, sua produção científica.

Detalhe do teto de uma parte da Biblioteca Nacional, no Rio

E o descaso é tamanho por aqui, que nem mais a celebre frase de Millôr Fernandes, que dizia que o Brasil tinha um enorme passado pela frente, faz sentido. Queimamos nosso passado também – pela frente, parece que não temos nada além das cinzas. Pois, diante da tragédia no Museu Nacional, diversos outros museus brasileiros nesse momento também não recebem investimentos e possuem seus acervos e prédios ameaçados pelo fogo ou pela destruição. Assim, separamos aqui uma lista de 8 museus ou edifícios históricos ligados à cultura ou ao acervo do país, entre tantos, que precisam ser visitados logo antes que o descaso, a falta de verbas ou o fogo também os destruam.

1. Arquivo Nacional (Rio de Janeiro)

O maior arquivo do Brasil de tal forma também corre sérios riscos de incêndio, que assim que a tragédia no Museu Nacional foi noticiada, os funcionários do Arquivo Nacional, no Rio, emitiram uma nota que dizia que o AN poderia ser o próximo. Hidrantes não funcionam no edifício, acervos estão expostos, e obras se fazem necessárias para proteger mais de 500 anos de documentos históricos nacionais – como a Lei Áurea original. As verbas, no entanto, vem sendo cortadas, falta dinheiro pra tudo, e já há mais de um ano e meio que os funcionários denunciam o descaso e a possibilidade de uma tragédia por vir.

2. Parque Nacional da Serra da Capivara (Piauí)

 

Não se trata propriamente de um museu no sentido literal, mas de um dos maiores tesouros artísticos e arqueológicos do país: o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, demitiu em julho 60 dos seus 70 funcionários, inclusive pessoas que trabalhavam na manutenção do local com maior quantidade de sítios arqueológicos pré-históricos das Américas. Os mais de 1.200 sítios com arte rupestre seguem ameaçados, e sem funcionários ficam simplesmente expostos, sem qualquer controle – mesmo sendo o local considerado Patrimônio da Humanidade.

3. Biblioteca Nacional (RJ)

A fachada da Biblioteca Nacional, no Rio, foi reformada depois de anos ameaçando cair, mas internamente o prédio do início do século passado precisa de reparos urgentes – principalmente na parte elétrica, que pode causar incêndios, e que ameaça o sistema de climatização por trabalhar em potência extrema. No mês passado um adorno do salão de obras raras desabou, em 2012 um pequeno incêndio ocorreu em um depósito e em 2016 uma imensa inundação de chuva transformou o saguão principal da maior biblioteca da América Latina e a sétima maior do mundo em um rio. Nove milhões de obras estão expostas ao risco e a degradação.

4. Museu Municipal de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Recife)

 

Apesar de possuir um acervo de arte moderna e contemporânea com nomes como Vik Muniz, Alex Flemming, João Camara e Vicente do Rego Monteiro, entre muitos outros, e já tendo recebidos nomes imensos como Rodin e Basquiat, o Mamam sequer consegue expor seu próprio acervo: simplesmente não há orçamento próprio. Como muitos outros museus de Pernambuco, o Mamam funciona por demanda. Seu futuro é incerto.

5. Museu Internacional de Arte Naif do Brasil (Rio de Janeiro)

Contendo mais de 6 mil obras ligadas à história da arte Naif, de artistas como Heitor dos Prazeres e Lia Mittarakis, do artista português Cardosinho e do alagoano Miranda – e mais tantos de 120 países – o Museu Internacional de Arte Naif do Brasil, no Rio de Janeiro, já não pode mais ser visitado: encontra-se fechado por falta de verbas. O destino do acervo do museu é incerto, mas o casarão onde fica o acervo já encontra-se à venda. O custo mensal para mante-lo funcionando seria de 40 mil reais.

6. Casa da Alfândega (SC)

Inaugurado em 1876, o prédio da Casa da Alfândega, em Florianópolis, já foi sede do Museu Histórico de Santa Catarina e do Museu de Artes de Santa Catarina, e hoje é ocupado pelo Centro de Cultura Popular Catarinense e serve ainda como depósito de arquivos do Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Só não se sabe por quanto tempo, pois o prédio carece de reformas estruturais urgentes. Faltam, porém, recursos, e o prédio segue coberto por pichações e com o reboco à mostra e vegetações crescendo em locais com símbolo do abandono.

7. Prédio do DOI-CODI (São Paulo)

Não é preciso ser secular para corer o risco de tombar. Localizado no bairro do Paraíso, em São Paulo, o prédio onde ficava a sede do temido Doi-Codi, Departamento de informações da ditadura militar, está tomado por cupins e infiltrações, e corre sérios riscos. O local serviu de cenário para centenas de sessões de torturas e assassinatos, inclusive do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, e foi tombado em 2014 por ser um “patrimônio material que evoca as memórias de um momento longo e sombrio de nossa história”. Para não repetirmos o horror do passado, precisamos conhece-lo – e não deixa-lo desaparecer sob ruínas.

8. Museu Casa Natal de Santos Dumont (Minas Gerais)

Nem mesmo o mais importante inventor do Brasil e um dos mais importantes do mundo consegue garantir uma mínima verba para a manutenção de seu museu. Localizado na cidade mineira que hoje traz o nome do aviador, o Museu Casa Natal de Santos Dumont, em Minas Gerais, fechou suas portas no início do ano por falta de verbas. A população pressionou, as dívidas foram pagas, mas o dinheiro cessou novamente. O local corre o risco de fechar, e de perder sua manutenção.

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© fotos: divulgação


Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

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